segunda-feira, 18 de junho de 2018
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

RACISMO: ROSA DE LIMA analisa livro NA MINHA PELE do ator LÁZARO RAMOS

O livro de Lázaro é uma lição e deve ser lido como sugere o título da obra "Na MInha Pele", na pele do negro, até para entender e despertar-se para um assunto da maior relevância no país
01/01/2018 às 10:56
   A literatura é um fascínio. E quando a gente lê uma obra que encanta pela simplicidade da linguagem e da narrativa só temos que louvá-la. Eu mesmo não sou uma crítica literária no estilo academicista com citações de clássicos ou interpretações recheadas de conceitos, de estilos, de erudição. Aprecio e comento as obras pela doçura da linguagem, pelas sutilezas, pelos ensinamentos, e procuro passar aos leitores uma visão deste ou daquele livro. 

   Ao ler "Na Minha Pele", de Lázaro Ramos (Editora Objetiva, 147 páginas, 2017, R$19,80) o que mais apreciei no livro foi exatamente a linguagem, a maneira como o autor passa aos seus leitores a visão de um tema de dificil abordagem que é o racismo. 

   E, pela escrita no seu jeito de analisar o tema, o autor passa bem aos leitores uma mensagem de alerta, de reflexão, diante da persistência do racismos institucionalizado na cultura brasileira, as mudanças que estão acontecendo ao longo dos anos e as lutas incessantes para desmistificar o que Abdias do Nascimento, o pioneiro, já comentava há anos: a desfaçatez de que se vive numa democracia racial no país.

   Não é tarefa fácil fazer uma abordagem desse tema sem incorrer no erro de ser um ressentido, amargo, expondo suas ideias de forma linear sem trilhas para reflexões mais conscientes, sem dar a chance para as pessoas analisarem, concordarem ou não com determinados pontos-de-vista, conviverem e debaterem esse assunto, que, em tese máxima envolve a igualdade. 

   O próprio Lázaro comenta que demorou de escrever sua obra - suponho que inicial - exatamente para não cometer erros, ser taxado de presunsoso ou visto como um ser fora do esquadro. E o livro, por isso mesmo, por conter uma narrativa que mescla autobiografia com interpetações do racismo, em nossa opinião representa algo novo e gerador e desperador de anseios e que deverão produzir novoas ensaios de outros autores no aprofundamento dos debates sobre este tema.

   Foi muito interessante mesclar esses dados autobiográficos do autor, até para entender melhor sua mensagem, sem que, com isso, Ramos estivesse escrevendo sua autobiografia. Até porque, ainda é muito jovem, e esse tipo de literatura só cai bem nas personalidades em final de carreira. E a do autor ainda está em movimento.

   Lázaro solicita ao leitor que acompanhe a narrativa com olho crítico, que reflita, que compartilhe, que participe. E o leitor, de fato, vai acompanhando passo-a-passo o que nos conta o autor, desde o tempo em que nasceu e viveu na ilha do Paty, em São Francisco do Conde, numa comunidade de negros isolada do mundo, o despertar em Salvador quando mudou-se adolescente, a formação cultural e profissional no Teatro, no Bando Olodum, e o empoderamento na TV Nacional, no cinema, na produção cultural, no Rio de Janeiro. Uma carreira das mais brilhantes como nunca se viu no Brasil, um meteoro que nos parece duradouro, uma máquina de pensar e atuar.

   Da estréia nos palcos, em 1994, em 'Bai Bai' no Bando de Teatro Olodum, fruto da criação de Márcio Meirelles e Chica Carelli, ainda em Salvador no emblemático Teatro Vila Velha e aos dias atuais pilotando um programa próprio com seu nome (Lazinho) na TV mais poderosa do país, Lázaro, em pouco mais de 20 anos de carreira viveu os mais diferentes personagens, de Madame Satã a Mr Brau, sempre com interpretações brilhantes, luz própria, o que o levou a ribalta. Do Paty ao Brasil. 

   E no momento em que decide abordar um tema tão relevante, o racismo, Lázaro é cauteloso e ao mesmo tempo resoluto. "Porque o racismo nos prega peças, mas nos faz muitas vezes desejar a identidade do outro", comenta em determinado trecho do livro e cita a escritora Conceição Evaristo, a qual, "me ensinou algo que nunca vou esquecer. Ela diz que temos visto nos últimos tempos pessoas negras de estratos populares chegarem às universidades e postos de comando no mercado de trabalho".

   O autor destaca que são histórias exemplares, mas também perigosas. E pontua: "Devemos fazer uma leitura do que somos. Quando nos prendemos muito a esse elogio da história pessoal ("ela veio da favela e conseguiu") corremos o risco de dizer que o outro não conseguiu porque não quis, e isso não é verdade. A exceção simplesmente confirma a regra".

   Esse, provavelmente, seja o fulcro da questão abordada por Ramos: o que são os negros no Brasil, sua identidade genuina e como vivem e encaram a realidade, a vida nacional. Suas descobertas, seus anseios, seus entendimentos. É singular a passagem em que narra o desfile do bloco afro-baiano Ilê Ayê pelo Campo Grande, quando tinha 12 anos de idade, e ouviu a música que contém o refrão: Não me pegue. não, não, não/ Me deixe a vontade/ Não me pegue, não, não, não/ Me deixe à vontade/ Deixe eu curtir o Ilê/ O charme da Liberdade. 

    E mais: nessa mesma época, ao ouvir o cantor Gerônimo puxando a plenos pulmões no desfile do Carnaval: "Eu sou negão". E a multidão respondia: "Meu coração é a liberdade". Diz o autor: "Eu também gritei: Meu coração é a liberdade.

   O livro de Lázaro é uma lição e deve ser lido como sugere o título da obra "Na MInha Pele", na pele do negro, até para entender e despertar-se para um assunto da maior relevância no país, especialmente em Salvador da Bahia que tem uma população 80% negro-mestiça, e vive em permanente situação de desigualdade. 

   O autor não prega uma revolução armada ou algo insensato, mas, a revolução da consciência e até ao abordar o enpoderamento é cauteloso visto como uma conquista árdua que demanda força interior e vontade coletiva: "Ganhar autoestima, ter coragem, compartilhar poderes e informações são lados importantes, pois é também disse que se trata empoderar-se", comenta.

   Há avanços. O Brasil de Lázaro, de Vovô do Ilê, de João Jorge do Olodum, de Gerônimo, não é o mesmo de Abdias Nascimento, de Rute de Souza, e muito menos de Luiza Mahim e Zumbi dos Palmares, mas tudo o que se conquistou partiu das lutas das instituições negras e ainda é pouco ou quase nada ao caminho que ainda tem que se percorrer, de empoderar o negro nos supremos da vida institucional brasileira.

   É pertinente a preocupação do autor com seus dois filhos menores, os quais, é verdade, vivem uma outra realidade da vivida por ele e por seu pai Ivan, mas, ainda assim, noutra ótica, noutro contexto social. E donde deverão surgir novas abordagens mais complexas e novos saberes. 

   Por fim, confessa no final do ensaio no capítulo A Roda: "As escrever este livro tive momentos de muita dor. Fugia do assunto, lia outros textos. É tudo muito solitário. Luto para viver sob a demanda do racismo e dos racistas, e buscar diariamente estratégas de sobrevivência traz muitos pequenos machucados".

   "É bom ser negro no Brasil? Comecei a fazer essa pergunta em várias rodas de amigos e ouvi de tudo" confessa o autor. 

   Lázaro tem sua opinião própria sobre essa pergunta e deixo que vocês apreciem a resposta dada por ele e seus ensinamentos ao lerem o texto completo do "Na Minha Pele".