Quando a ideologia se sobrepõe aos resultados: o Brasil diante de suas escolhas* Por Samuelita Santana
E a crítica, para ser construtiva e verdadeira, não precisa de adjetivos ou contundências. Precisa de fatos. A conta que o Brasil não pode continuar adiando. Em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões ,equivalentes a 82,9% do PIB. Nos primeiros oito meses do ano, o Governoacumulou déficit primário de R$ 94,9 bilhões.
São números que exigem explicações, prioridades claras e compromisso efetivo com a sustentabilidade fiscal. Óbvio que uma dívida pública não é obra exclusiva de um mandato. Mas cada governo responde pelas decisões que toma, pelas despesas que amplia, pelas receitas que projeta e pela capacidade de compatibilizar seus compromissos com os recursos disponíveis.
Vale lembrar que no governo anterior, de Bolsonaro, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) encerrou 2022 em 71,7% do PIB, cerca de R$ 7,22 trilhões. Isso significa um crescimento de 11,2 pontos percentuais do PIB até agosto desse ano de 2026, quando a dívida atingiu 82,9% do PIB. Ou seja, Lula nem terminou o seu mandato e já cresceu a dívida pública em nada menos que R$3,88 trilhões.
A gastança sem financiamento sustentável cobra seu preço. E a conta chega. E bate na porta de quem? De uma população que não decidiu, não gastou e não teve nada a ver com isso. O país precisa saber não apenas quanto o governo pretende gastar, mas quais resultados pretende entregar, como financiará suas políticas e que espaço deixará para investimentos, inovação eatividade produtiva.
A solução não é mágica. E, portanto, não vale apertar aquele botãozinho do MAIS da carga tributária. A necessidade de arrecadar mais, não é uma brincadeirinha matemática para tapar buracos feitos no cofre público. É uma ação que pressiona contribuintes e setores produtivos, amplia o endividamento, agiganta a conta de juros, asincertezas fiscais e dificulta o planejamento de empresas e famílias.
Em 2025, a estimativa do Tesouro Nacional para a carga tributária bruta do governo, foi de 32,40% do PIB. E aqui não basta discutir quanto o estado arrecada. É indispensável perguntar o que entrega em contrapartida, como aplica os recursos e se oferece condições para que, aqueles que produzem, tenham possibilidade de investir, inovar, contratar e crescer.
O Brasil precisa de responsabilidade fiscal não como dogma, mas comocondição para financiar políticas públicas duradouras, perenes. Gastar sem avaliar as consequências não é compromisso social. É transferir para o futuro uma conta que acabará recaindo sobre toda a sociedade. Um Estado que perde capacidade de financiar suas próprias prioridades compromete justamente aqueles que mais dependem dos serviços públicos. E um governo que age assim, decididamente não está priorizando as classes mais vulneráveis.
ssistência social não pode substituir desenvolvimento
Embora os programas de transferência de renda possam cumprir uma função legítima na proteção de famílias vulneráveis, a pobeza não pode e nem deve ser um destino administrado. A existência de um programa social, por si só, não comprova que a pobreza esteja sendo superada. É necessário avaliar seas políticas sociais estão articuladas à aprendizagem, à qualificação profissional, à inclusão produtiva e à geração de oportunidades capazes de ampliar a autonomia econômica.
Esse é o verdadeiro programa sustentável de qualidade de vida. Em setembro de 2026, o governo anunciou a atualização do benefício mínimo do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691, a partir de outubro, justificando a medida pela inflação acumulada desde a última atualização. O anúncio ocorreàs vésperas de uma eleição, onde o presidente é candidato - o que já é uma aberração - e num contexto de desequilíbrio fiscal que torna ainda mais necessária a discussão sobre prioridades, financiamento e sustentabilidade.
A questão não é negar proteção a quem precisa. É perguntar por que a política social que se tem hoje no Brasil não acompanha uma estratégia ambiciosa de emancipação econômica. O país precisa proteger os vulneráveis hoje sem condenar as próximas gerações a depender indefinidamente de mecanismosc ompensatórios
.Não é por acaso que os países que alcançaram níveis elevados de produtividade e renda compreenderam que educação, ciência, tecnologia einfraestrutura não são despesas isoladas, ao contrário, são partes de uma mesma estratégia de desenvolvimento. Investimentos em formação de pessoas, inovação, conectividade, logística e capacidade produtiva podem criar um círculo virtuoso de oportunidades, crescimento e, sim, de arrecadação.
É essa visão de futuro que o Brasil quer e precisa. A pobreza não pode se transformar em condição permanente de sobrevivência administrada pelo estado, muito menos ser usada como trampolim para alavancar campanha eleitoral, oferecendo trocados em dinheiro como o "canto da sereia" que vaia trair votos e garantir a pemanência no poder.
Está mais do que claro que a verdadeira política de inclusão deve ampliar as possibilidades para que cada brasileiro construa sua própria autonomia, sua ascensão social, sem depender de "bolsas" não qualificam e nem garantem o futuro sustentável de ninguém. Educação, saúde e a distância entre discurso e realidade Poucas áreas revelam tão claramente a distância entre discurso e resultado, quanto a educação.
Os dados do PISA 2025, avaliação internacional coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE, mostram que os estudantes brasileiros de 15 anos
permanecem abaixo das médias da organização em matemática, leitura e ciências, com consequências que ultrapassam os muros da escola.
Quem não aprende a ler com autonomia, raciocinar matematicamente e compreender o mundo científico, enfrenta obstáculos maiores para ingressarno mercado de trabalho, acompanhar as transformações tecnológicas eparticipar plenamente da vida em sociedade.
Ou seja: Sem educação dequalidade, a ascensão social fica difícil, ou simplesmente não acontece.Os discursos sobre a saúde, apresentam a mesma narrativa descolada da realidade. A existência de um sistema público universal, como o SUS, constitui uma conquista institucional importante e não deve ser desconsiderada. Mas éineficiente ficar bradando " viva o SUS" enquanto pessoas morrem nas filas de espera, sem enxergar a luz no fim do túnel da regulação.
Pesquisas e matérias jornalísticas mostram que o tempo médio de espera para consultas especializadas, como cardiologia, por exemplo, bateu recordes históricos recentemente e pode durar meses e até anos. Os números mostram que as redes, tanto média como de alta complexidade, estão asfixiadas. Doenças que poderiam ser resolvidas de forma simples e rápida, evoluem para condições graves, ou até irreversíveis, por conta do tempo de espera nas filas.
O reconhecimento da importância do SUS não pode virar um "ôba,ôba" sem senso crítico. As falhas estruturais, de gestão e de integração tecnológica entre os sistemas estaduais e municipais, que também não conversam com o sistema nacional, transformam o que poderia ser uma assistência organizadora de prioridades, em um "buraco negro" de espera prolongada e aflição para milhões de brasileiros, como destacou matéria publicada recentemente no Jornal da USP.
Educação e saúde são direitos essenciais. Não podem ser tratadas como instrumentos de propaganda, nem como temas secundários diante das conveniências político-eleitorais. Um governo comprometido com os mais pobres precisa demonstrar, com fatos, esse compromisso na aprendizagem das crianças, no atendimento aos pacientes, na redução das desigualdades e na ampliação das oportunidades.
O mundo mudou. O Brasil não pode permanecer prisioneiro de velhas fórmulas. Está provado que a história cobra o preço do poder sem limites. O século XX deixou advertências importantes sobre regimes que prometeram igualdade e emancipação, mas concentraram poder e restringiram liberdades.
A UniãoSoviética combinou realizações industriais e científicas com repressão políticae graves violações de direitos. Cuba mantém um sistema de partido único, comrestrições ao pluralismo político. Na Venezuela e na Nicarágua, a erosão institucional e a perseguição a opositores tornaram-se elementos centrais do debate sobre democracia. No Irã, instituições não eleitas concentram poder elimitam direitos civis.
E a China? Seria intelectualmente desonesto classificá-la simplesmente como um fracasso econômico. O país tornou-se uma das principais potências mundiais, ampliou sua capacidade industrial, investiu fortemente em tecnologiae infraestrutura e promoveu uma significativa redução da extrema pobreza, apesar do expressivo fosso que ainda permanece entre ricos e pobres.
Valer essaltar que as reformas econômicas e a abertura de mercado foram fundamentais nessa transformação. Mas o desenvolvimento econômico não transformou a China numa democracia: o Partido Comunista mantém o monopólio do poder nacional, sem competição multipartidária livre, além de impor severas restrições à dissidência, à imprensa independente e àsliberdades civis.
A questão central não é rotular toda a esquerda como antidemocrática. A lição fundamental aqui é outra: nenhuma promessa de igualdade justifica a supressão da liberdade e nenhum projeto de desenvolvimento deveria exigir arenúncia ao pluralismo, à autonomia individual e ao direito de contestar opoder.
A democracia não se resume apenas à realização de eleições. Depende de instituições confiáveis, segurança jurídica, transparência, liberdade de crítica elimites efetivos à atuação de quem governa. É justamente por isso que decisões controversas, suspeitas de irregularidades e questionamentos sobre a atuação das instituições, precisam ser criteriosamente averiguadas.
Nenhum governo, partido ou autoridade deve estar acima desse escrutínio. E a sociedade brasileira tem o legítimo e constitucional direito do questionamento, da fiscalização, da cobrança, do saber, da informação, da transparência, da justiça. Quando a fidelidade ideológica se sobrepõe à consciência crítica.
O que leva pessoas inteligentes e instruídas a relativizar contradições quando estão em jogo seus líderes e suas convicções ideológicas? Por que fatos incômodos parecem perder importância quando ameaçam a narrativa de umgrupo político?
A pergunta é reflexiva e vale para qualquer cidadão que transforme sua preferência política em fidelidade incondicional e a cobrança de resultados passe a ser tratada como traição. A democracia não se fortalece quando passamos a justificar em nossos aliados, comportamentos que condenamos com veemência nos adversários. No caso de Lula, presidente e candidato à reeleição, a crítica é direta. Há em seu projeto político uma insistência em fórmulas e narrativas que não oferecem ao Brasil a renovação de que precisa.
O discurso de proteção aos pobres tem força histórica e mobilizadora, mas precisa ser confrontado com resultados concretos: qualidade dos serviços públicos, sustentabilidade das contas, produtividade, oportunidades de ascensão social e fortalecimento da sinstituições.
Há também um desgaste na imagem política, construída em torno do líder popular que se apresenta como pai e protetor dos mais vulneráveis. O chapéu,a estética de caudilho latino-americano e a comunicação paternalista, compõem uma representação que pode mobilizar afetos e alimentar a identificação de parcelas do eleitorado.
Mas símbolos, carisma e narrativas não substituem políticas públicas eficazes. A pobreza não pode ser convertida em cenário permanente para a encenação de uma suposta tutela política .É preciso estar atento e sempre questionar a disposição de setores da sociedade de suspender o senso crítico diante de um líder ou de um partido, como se a identificação ideológica pudesse tornar secundárias a competência, a ética e a responsabilidade com o futuro coletivo.
O Brasil tem recursos naturais, capacidade empreendedora, uma população criativa, instituições científicas relevantes e condições para ocupar uma posição mais expressiva na economia mundial. O que nos falta não é potencial. É transformar esse potencial em produtividade, inovação, educação de qualidade, infraestrutura e prosperidade compartilhada.
Nenhuma liderança consegue isso?
Ou a ausência de líderes verdadeiramente estadistas seja exatamente o problema do Basil?
A história não oferece respostas prontas, mas deixa advertências. Quando uma ideologia passa a valer mais do que a realidade, a verdade se torna inconveniente, a crítica é tratada como traição e o poder encontra justificativas para perpetuar a si mesmo.
Quando o líder é colocado acima das instituições, ademocracia começa a perder substância. E quando a proteção social não se transforma em oportunidade, o discurso da emancipação corre o risco de conviver indefinidamente com as mesmas carências que promete superar.
iante das urnas, a pergunta que não quer calar é: que país queremos construir, que resultados estamos dispostos a cobrar e quais princípios não aceitaremos sacrificar em nome de qualquer líder?
A democracia nos permite escolher. A responsabilidade cidadã nos obriga a refletir sobre asconsequências dessas escolhas. E, talvez, seja justamente aí que comece a verdadeira maturidade política de uma nação: quando deixamos de perguntar apenas se um governo representa nossas convicções e passamos a perguntar se ele está, de fato, construindo o país que merecemos.
Diante disso, e, portanto, eis-me aqui de volta aos textos e textões. Não porque o cenário tenha se tornado menos desgastante, mas porque o silêncio não pode ser a resposta definitiva de quem acredita no poder da palavra, do pensamento crítico e do jornalismo de opinião.