segunda-feira, 28 de setembro de 2020
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

O VERÃO DESTAQUE DE NITERÓI

Para fechar com chave de ouro o período, Niterói ainda levou o título do carnaval carioca com o belíssimo desfile da escola de samba Viradouro.
07/03/2020 às 19:47
   Como tudo que está ruim pode piorar, o verão de 2020 está prestes a se despedir do Rio de Janeiro como aquele que será lembrado pelo excesso de chuva e pela água com gosto de barro. O roteirista responsável pelos dramas do Rio de Janeiro é bem criativo. 

No mês em que gastamos com IPTU, IPVA, material escolar, férias etc, acrescentamos ao orçamento o galão de água mineral. Descobrimos que a água da companhia de abastecimento do estado é, na verdade, um mix de cocô com algas. Diante disse, como temer o novo coronavírus? Apenas cariocas e baratas terão capacidade de sobreviver a qualquer catástrofe. Nossa água é ruim e esse ano ficou comprovadamente ruim. 

Nesse caos aquático, fez o destino que a cronista que vos escreve despertasse seu conhecimento para a vizinha cidade de Niterói. O verão de 2020 também será marcado pelo verão onde Niterói caiu nas graças do povo. Afinal, enquanto nós, pobres moradores do Rio de Janeiro, lutávamos por garrafas de água mineral nos supermercados como sobreviventes de um apocalipse zumbi, os moradores da terra de Araribóia sorviam H2O como ela deve ser: sem gosto, sem cheiro e sem odor. 

Para fechar com chave de ouro o período, Niterói ainda levou o título do carnaval carioca com o belíssimo desfile da escola de samba Viradouro. 

Niterói fica logo ali do outro lado da ponte Presidente Costa e Silva, popularmente conhecida como Ponte Rio-Niterói. Tem cara de bairro, mas é cidade. Conheço muitas pessoas que moram e moravam "do outro lado da poça". Todas tinham e têm um orgulho imenso do lugar, que ainda preserva um quê de cidade pacata. Não discordo. 

Niterói tem mesmo aquele clima de interior, onde todo mundo se conhece e se cumprimenta. Eu recomendo que se vá à cidade de barca. É um passeio rápido, mas extremamente agradável. Sente na janelinha e aproveite a linda vista da Baía de Guanabara. Mesmo suja, a Baía de Guanabara tem seu charme. Em pouco tempo você estará frente a frente com o índio Araribóia, no Centro de Niterói. 

O índio Araribóia ganhou esse pedação de terra dos portugueses após ajudar os patrícios a expulsar os franceses daqui. Chefe da tribo dos Temiminós, também botou para correr os Tamoios (índios aliados dos franceses). Fundou Niterói e, desde 1965, sua estátua dá boas vindas aos visitantes e moradores. Curioso é que ele está de costas para cidade, protegendo-a eternamente. Tão lúdico, que - reza a lenda - Araribóa teria sido a inspiração de José de Alencar para escrever "O Guarani". 

Certamente Araribóia nunca imaginou que sua cidade se gabaria da qualidade da água como principal trunfo. Mas eu, que fui assessora de imprensa da empresa que abastece a cidade, sabia que esse dia chegaria. Mas como não quero entrar em polêmicas, sugiro que o passeio para Niterói seja como são os meus quando vou até lá. Caminhe com olhos curiosos, principalmente na orla de Icaraí, emoldurada pelo Rio de Janeiro. Nada de comparações. Aproveite o que a cidade oferece de único. 

Araribóia deve ter aproveitado aquela vista do Pão de Açúcar até mais que Estácio de Sá. Vê-se o Cristo! Mas nada de se deixar levar pelo Rio. Vê-se também o maravilho Museu de Arte Contemporânea (MAC) projetado por Oscar Niemeyer. Esse, confesso, ainda não conheço (aguardo uma visita guiada, promessa de uma amiga). Se você não tem paciência para Museu, contemple o lugar ao longe. Ele parece pairar pela cidade, tal e qual um disco voador. 

Tive a oportunidade de conhece-lo no carnaval, mas a chuva não deixou. Pois é... estive em Niterói no Carnaval. O bloco Terra de Ninguém (cuja fundadora é minha irmã caçula) adentrou as terras do velho Araribóia às 9h da manhã da segunda de carnaval, sendo recepcionado por nenhum ambulante. 

Até o fim do nosso cortejo, contabilizei apenas seis vendedores. Trata-se de um recorde histórico. Fosse no Rio, seriam 600. O meio do cortejo foi em uma pequena praça. que recebeu o bloco com a simpatia. Dois casais de mendigo acordaram já na folia. Diante da minha preocupação com a bolsa térmica levada por uma amiga, a mesma me disse: "Pode deixar no banco da praça. Quando você voltar estará aí. Aqui é Niterói". Duvidei. Fui fazer xixi e quando voltei a bolsa estava lá. Ela está coberta de razão ao falar da cidade com orgulho. 

Comprovei que Niterói tem mesmo esse clima de cidadezinha, onde é feio pegar o que não lhe pertence. Fosse no Rio ... 

Niterói tem o MAC, tem o Campo de São Bento, tem a Universidade Federal Fluminense (UFF), tem o Caneco Gelado do Mário (um bar sensacional com um bolinho de bacalhau divino), tem regiões ou bairros (não sei) com nomes maravilhosos como Cafubá, Jurujuba e Charitas. Tem a região oceânica e suas praias belíssimas como Itacoatiara, Camboinhas e Piratininga. Tem a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, tem o Caminho Niemeyer (com mais obras do arquiteto), tem Italiano (e não Joelho, aquele salgado enroladinho com queijo e presunto), tem o Candongueiro (para quem gosta de um bom samba) e, por fim, tem a Viradouro. 

A campeã de 2020 desfilou com as baianas Margareth Menezes e Lore Improta. O enredo homenageou as Ganhadeiras de Itapuã, com os versos de "ó mãe, ensaboa mãe", a escola de Niterói levantou a arquibancada, jogando luz nas mulheres fortes da Bahia. Mulheres que trabalharam para comprar a própria alforria. O samba teve o toque do afoxé baiano, bom de dançar e ouvir. A Viradouro, de vermelho e dourado, ratificou em alto e bom som a frase da amiga: Aqui é Niterói. Orgulho define.