segunda-feira, 09 de dezembro de 2019
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

O gurufim e a Pequena África

Bebemos o morto na Praça São Salvador, a República Lulista-Freixista-Esquerdopata carioca, que estava em êxtase com a soltura de Lula.
25/11/2019 às 12:22
Domingo fui a um Gurufim. Ao pé da letra, no popular, o gurufim é "beber o morto". Porém, Gurufim, no significado erudito, é um "velório com música e dança com o intuito de homenagear o falecido". Para um jornalista não há homenagem melhor. Jornalistas são boêmios. As redações podem se modernizar, as assessorias podem copiar escritórios de advocacia, mas no fim, todo o estresse da cobertura de um grande evento ou aquela matéria que afunda o cliente na crise sempre termina no bar. 

Este ano está pródigo em velórios e mortes surpreendentes. Meu amigo Clelmo tinha apenas 55 anos e lutou bravamente contra um câncer que o consumiu de forma muito rápida. 

Bebemos o morto na Praça São Salvador, a República Lulista-Freixista-Esquerdopata carioca, que estava em êxtase com a soltura de Lula. 

O Gurufim tem origem africana. O mais recente que tivemos no Rio foi o da sambista Beth Carvalho, cujo velório foi gravado à samba. “O costume de cantar e beber em enterros de sambistas está muito vinculado a uma tradição popular que relaciona a morte à algumas celebrações. Isso a gente encontra em diversas culturas populares. No Brasil, isso é muito comum tanto na religiosidade dos negros bantos quanto dos negros iorubás. Nos candomblés, por exemplo, o axexê, que é a cerimônia fúnebre, é uma espécie de festa para a morte”, explica o historiador e escritor Luiz Antônio Simas em declaração à coluna Setor 1 do portal UOL. 

Diante desse ano tão pesado politicamente e obituariamente falando, Gurufins deviam ser obrigatórios. Todo cemitério deveria ter um espaço para homenagens menos solenes. Alivia a dor. 

Mas porque um assunto tão mórbido? Porque historiadores têm promovido passeios pelo Centudo do Rio, principalmente na área do Cais do Valongo, local de desembarque dos negros escravizados. 

O local sofre com a crise financeira do estado e da cidade, mas é um ponto turístico importante, um pedaço da nossa história. Estima-se que aproximadamente 1 milhão de negros escravizados chegaram ao Brasil desembarcando no Cais do Valongo, construído em 1811 e aterrado em 1911. 

O local foi reconhecido como Patrimônio da Humanidade e tem nos arredores muito da história do samba, do jongo, da influência negra na cultura do Rio. Hoje, o Valongo é conhecido como Pequena África e esconde preciosidades sobre o início do Brasil como nação. 

Dia 24 farei um tour chamado "Conheça a Pequena África". Conto para voces a experiência na próxima crônica. Até lá, espero que oa gurufins dêem um tempo. Melhor que beber os mortos é beber oa vivos.