segunda-feira, 27 de maio de 2019
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

Crônicas de Copacabana: carne de sol da Chiquita

Ainda que o verão carioca seja eterno, uma comidinha dessas dá a sensação de estar em casa de fato e de direito.
10/05/2019 às 20:37
Depois de uns dias saboreando a deliciosa gastronomia espanhola, voltei ao Rio de Janeiro com aquela saudade danada da comida tupiniquim. Nada como um arroz com feijão para aquecer o coração. Ainda que o verão carioca seja eterno, uma comidinha dessas dá a sensação de estar em casa de fato e de direito. 

Pois domingo fui me parar na Chiquita para saborear a picanha de carne de sol. A Chiquita é a famosa barraca da Chiquita, uma das mais conhecidas do Centro de Tradições Nordestinas Luiz Gonzaga, popularmente conhecido como Feira de São Cristóvão. A feira, que mais popularmente ainda é conhecida como Feira dos Paraíbas ou Feira dos Nordestinos, funciona todos os dias para o almoço e de quinta a domingo na parte da noite. 

No pavilhão você encontra produtos, shows, comidas, bebidas e artesanato da região nordeste. Boa parte dos moradores das favelas cariocas são nordestinos migrantes. A Rocinha tem uma comunidade enorme de paraibanos, cearenses, pernambucanos, baianos, alagoanos etc, que migraram para o Sudeste em busca de trabalho. 

A feira é o local onde todos esses e outros nordestinos que moram na cidade matam as saudades da terra natal. Lá se compra farinha de qualidade, rapadura, queijo coalho, pimenta da boa, Guaraná Jesus, goma de tapioca, beiju, entre outros itens. 

Pelos idos dos anos 80, 90, a feira era uma feira mesmo, com barraquinhas de ferro e plástico. O ex-prefeito Cesar Maia tornou o lugar visitável, criando um pavilhão para a feira, que hoje conta com uma estrutura muito mais moderna e segura. Foi na feira que eu descobri a Barraca da Chiquita, que ano passado abriu uma filial em Copacabana. 

Nas primeiras semanas de funcionamento na rua Santa Clara 35, o lugar lotou. Filas e mais filas e longas listas de espera. Até que em um dia de semana consegui sentar para saborear um escondidinho. 

O espaço é amplo (capacidade para 120 pessoas), com mesas na varanda e na parte interna. Toda decoração remete ao Nordeste, com redes, chapéus de couro e homenagens a nordestinos ilustres como Chico Anysio. Todos os dias, a partir das 19h, um trio de forró de pé de serra anima o ambiente, que tem ampla carta de vinho, caneca de chope super gelada e cachacinhas de aperitivo. 

Os pratos são fartos. O baião de dois para duas pessoas, com carne sol, serve pelo menos 3. Há opção de pratos para 4 pessoas. O escondidinho também. A carne de sol é grelhada na mesa, sem muita fumaça e é muito macia. O queijo coalho com melado é incrível como entrada. No último domingo, dia 28 de abril, enquanto o Vasco tomava uma chulapada do Atlético-PR, eu prestava atenção mesmo era na farofa, no carneiro e no forró. De sobremesa, tem sorvete de tapioca, queijadinha e o café vem acompanhado de rapadura. O atendimento é bom para os padrões cariocas de intimidade dos garçons e lerdeza. O preço, bem.. aqui no Rio tudo é muito caro. Então, prepare o bolso para gastar pelo menos 200 reais com comida, bebida e sobremesa. Levando em conta que se come bem mesmo.  

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No Rio de Janeiro, o "adjetivo" paraíba remete a qualquer pessoa de origem nordestina. É como o baiano em São Paulo. Aqui, não sei porque, o termo que ficou foi paraíba. Nos tempos politicamente corretos, a expressão caiu um pouco em desuso. Ainda assim, sempre que um carioca falar em paraíba está falando de alguém "da Bahia para cima".