quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

Éramos felizes e não sabíamos

Nos tempos em que os brasileiros só queriam saber de samba, cerveja e futebol, as pessoas comentavam sobre a vitória do Flamengo
25/10/2018 às 10:12
Houve um tempo que o brasileiro era tido como alienado. Em Pindorama, o que interessava era samba, cerveja e futebol. Pois é... houve um tempo. Éramos felizes e não sabíamos. 

Depois de um exílio de três meses na Barra da Tijuca, um estranho local que fica logo ali na Zona Oeste do Rio, voltei à minha rotina "Copacabanense". Ao contrário da Barra, Copacabana tem esquina, tem boteco, padaria, feira, quitanda, muita gente na rua, muito barulho, supermercado de pobre, supermercado de rico, favela, mendigo e por aí vai. E todo essa miscelânea gera burburinho e burburinho gera assunto. 

Nos tempos em que os brasileiros só queriam saber de samba, cerveja e futebol, as pessoas comentavam sobre a vitória do Flamengo, o dia de sol que estava por vir, a nova moda nas academias. Ninguém brigava. No máximo, uma cara amarrada depois da derrota para o rival no clássico de domingo no Maracanã. Hoje, tem gente quebrando a cabeça para juntar a família no Natal depois das eleições. E não é exagero!

Chego ao Mundial, segundo templo de consumo popular da cidade, e já percebo a caixa perguntando para o idoso se ele "é Haddad". Porque hoje em dia você não vota mais um político: você É o político. Fujo da conversa na seção de arroz. Lá, o empilhador de saco já está batendo boca com a mocinha que arrumava as latas de milho. Segundo ele, o PT vai quebrar a previdência. Ah não! Lá fui para o macarrão. E não é que a moça da Piraquê estava dizendo que o Bolsonaro não gosta das empregadas domésticas? Nem no supermercado a gente tem paz! 

Um lado meu fica feliz ao ver tantas pessoas discutindo o futuro do país. O outro lado, contudo, fica triste e surpreso com o nível de raiva e ranço que deixa as pessoas cegas. Pela primeira vez entendi o que Saramago quis dizer com seu livro "O Ensaio Sobre a Cegueira". Eles estão cegos, já disse Jesus Cristo. Estão cegos e surdos. Alguns, que pena, deviam estar mudos. 

O debate está em todo lugar e não está fácil ser brasileiro nesses tempos tão estranhos onde você é obrigado a SER alguma coisa. Vai chegar um tempo em que os presentes dos recém-nascidos não serão roupinhas dos times dos pais, mas sim camisetas com a estampa do capitão imitando uma arma com as mãos ou com a estrela vermelha do PT. No café da manhã, a criança não será perguntada sobre o time que torce, mas se É algum político. "Filho, você é bolsominion ou haddista? Mamãe, precisa preencher o formulário da escola...". Não duvido que chegaremos a esse ponto logo, logo. 

"Ser" um político não é legal. Porque ninguém é alguém. E ninguém é obrigado a ser algo, como nos é imposto hoje. Qualquer menção a qualquer coisa de qualquer candidato gera imediatamente frases como "vá morar em Cuba", "Petista safada", "defensora do Kit Gay". 

Anos e mais anos de análise me ensinaram que não se deve bater palma para doido. Por isso, rezo para que chegue o dia em que voltarei a conversar com a caixa do supermercado sobre o último capítulo da novela. Como eu disse: éramos felizes e não sabíamos.