sexta-feira, 22 de junho de 2018
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

Greve e apocalipse das hortaliças

Em uma cidade com mais de 7 mil ônibus, não ter metade na rua faz muita diferença. Mais do que deixar prateleiras vazias, a greve mostrou nossa fragilidade política e logística
31/05/2018 às 13:17
Minha avó Nyanza, mãe da minha mãe, tinha o hábito de, após as compras (feira ou supermercado), escrever o preço de todos os produtos em um caderno. Fazia isso religiosamente, com disciplina militar. Nunca entendi porque. Também nunca perguntei. Acredito que seus cadernos hoje seriam de grande valia para historiadores de economia. Eram os tempos da inflação alta, das fiscais do Sarney.

   Reza a lenda que os nascidos pós-Real não entendem nosso apego aos preços. Eu cresci tendo que entender que o Cruzeiro passou a para Cruzeiro Novo, depois para Cruzado, depois para UFIRs. Quando fiz 18 anos, ia ganhar um carro, mas Collor veio e "rapou" o dinheiro de todo mundo. Um professor do meu antigo colégio levou um susto tão grande que teve um ataque do coração. Morreu. Até hoje lembro dele quando fico agoniada por conta de dinheiro. "Olha o tio Vítor", repito mentalmente. 

   O Plano Collor foi, no mínimo, indecente. Em qualquer país civilizado, Collor seria recebido a pedradas até hoje em qualquer lugar que fosse. Mas isso aqui é Brasil, né? Estou falando tanto de preços porque foi desolador ver meu mercadinho preferido às moscas por conta da greve dos caminhoneiros. Ao contrário da minha avó, eu sei quase todos os preços de cabeça porque a variação hoje em dia é bem menor. Mas foi um baque ver de perto o quilo da batata a R$ 9,90. O Rio de Janeiro já é uma cidade cara. Imagina quando ela fica mais cara ainda?

   Minhas colegas de feira, as velhinhas da hidro, estavam revoltadas! Não tinha cenoura, o chuchu estava a R$ 5, a cebola a quase R$ 10. Batata doce? Nem pensar. Tomate só com muita força e mesmo assim a preços exorbitantes. Então passamos a contar umas as outras nossas descobertas surrealistas. "Vi uma couve a R$ 12!!!". Espanto geral. "E os ovos?". Muxoxos generalizados. Quando acabou o pão no supermercado, pensei no pior. Carioca tem tara em pão francês. Uma das coisas mais deliciosas que se pode comer na cidade é um pão na chapa com manteiga. Vende em qualquer padaria. Qualquer mesmo. Da Zona Norte a Zona Sul. 

  Faltando 15 dias para a Copa do Mundo, fiquei de olho no estoque de cerveja. A escassez do produto em pleno jogo do Brasil seria pretexto para um apocalipse na cidade. O auge foi a atendente da farmácia me confidenciar a falta de Dorflex. Pronto. Chegamos ao fim. 

   Sem ônibus na rua, Copacabana viveu dias de feriado. Mas sem movimento nas quitandas e supermercados, os velhinhos piram. Sobre o que conversar se não sobre preço? Até na aula de Muay Thay o assunto era quiabo, couve, batata. 

   Em uma cidade com mais de 7 mil ônibus, não ter metade na rua faz muita diferença. Mais do que deixar prateleiras vazias, a greve mostrou nossa fragilidade política e logística. Andar de BRT aqui é uma aventura de péssimo gosto. Com greve ou sem greve, é uma penitência. De repente a gente se dá conta de que tudo, absolutamente tudo, está errado. Tem muito caminhão, tem muita opinião, tem muito interesse político, tem pouco trem, tem pouco metrô, tem muito sufoco. 

  E o exército? Uma das piores jogadas de marketing político de todos os tempos. Cinco estações de BRT na Zona Oeste do Rio se tornaram "quiosques do tráfico". Palavras do secretário da Casa Civil da Prefeitura. Outro dia me perguntaram se eu estava ansiosa com o que lia nos jornais. Bem ... não leio jornal há pelo menos 5 anos. Segundo, eu moro no Rio de Janeiro. O que pode acontecer nessa planeta que possa me chocar? Eu moro em uma cidade cujo roteiro é escrito por Buñuel!!

   Vejamos: o prefeito mandou a gente armazenar o lixo em casa, o molho do coentro foi para R$ 50, o saco da batata de 50kg foi comprada a R$ 450, os deputados não se entendem quanto a redução do ICMS do Diesel "porque é ano eleitoral", o Vasco tomou de 3x0 do Bahia de novo e Pai Uzeda ganhou um cargo na prefeitura pela manhã e a tarde anunciou que irá largar o candomblé para se tornar Bispo da Universal. Você acha mesmo que uma grevezinha vai me deixar de cabelo em pé?

  Em tempo: fui ao Supermercado Mundial, o mais popular do bairro, que apelidei de Vietnam. Hoje, estava mais para Síria. Dei meia volta. Não sei que tipo de guerra estão esperando aqui, mas o pessoal que estava dentro do supermercado parecia ter saído de filmes como "Mad Max" ou "The Walking Dead". Prefiro o mercadinho da esquina e sua breve escassez.