segunda-feira, 26 de agosto de 2019
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

ENTENDA devoção a São Jorge, santo desprezado pela igreja

O santo guerreiro dos pobres reverenciado na zona Norte do Rio de Janeiro
26/04/2018 às 13:12
Dia 23 de abril é feriado na cidade do Rio de Janeiro, cujo padroeiro é São Sebastião. O mártir francês também tem dia especial: 20 de janeiro. Mas nada se compara ao que acontece por aqui quando abril se aproxima e todos nós, devotos de Jorge, caprichamos na roupa vermelha e rendemos homenagens ao Santo Guerreiro. 

Reza a lenda que São Jorge é um santo desprezado pela Igreja Católica. Porém, é um santo muito popular em todo o mundo (padroeiro da Inglaterra e da Catalunha, entre outros). Dia 23 de abril é o dia de sua morte (há registros), assim como 3 de novembro, outra data dedicada ao santo. Ainda assim, não é fácil uma imagem do santo em locais com forte influência católica. Até mesmo em outros locais do Rio que não sejam o subúrbio. Ali, Jorge da Capadócia é Rei.

O feriado foi decretado justamente pela quantidade de pessoas que se aglomeram na pequena igreja no Centro do Rio e na grande igreja dedicada ao santo em Quintino, Zona Norte do Rio. A primeira missa na Paróquia de São Jorge (em Quintino) acontece às 3h30. E acreditem: é lotada. As missas vão até à noite sempre de hora em hora. Às 5h começa a tradicional alvorada com uma salva de fogos em vários pontos da cidade, seguida de procissões.

Na Zona Sul é raro ouvir os fogos. Mas no Centro, Santa Cruz (Zona Oeste), Vila Isabel, Rio das Pedras, Madureira, Quintino, a alvorada é intensa, algumas até com cavaleiros. Minha devoção começa a partir das 12h quando pego o metrô para a Central do Brasil e sigo em direção ao Campo de Santana. Ali fica uma minúscula igreja devotada à Jorge, cujo ápice é uma estátua em tamanho natural do santo sentado em seu cavalo. Para entrar e passar pela imagem leva-se, aproximadamente 1 hora. Na fila, vê-se muitas medalhas, amuletos, tatuagens, imagens, rosas e velas vermelhas, muitas camisas vermelhas combinadas com calças brancas, saudações a Ogum e benção de hora em hora. 

Sempre me emociono quando vejo São Jorge. Sempre que recorri a ele fui atendida. Certa feita, passei o 23 de abril em Salvador e cadê que achava uma igreja do santo? Dia 23 de abril tem que ser no Rio mesmo. 

Como é bem característico do Rio, na fila vê-se famosos e anônimos. Logo à frente está Regina Casé e logo atrás um senhor anônimo como eu que todos os anos paga promessas devido a cura de uma doença. Eu deixo rosas vermelhos e peço a Jorge que ilumine meus caminhos e nos proteja nessa cidade tão violenta. 

E o que explica tamanha devoção? O carioca acredita-se guerreiro como o santo, que foi soldado do império romano. Muitos, como eu, acreditavam que ele morava na lua como Tia Anastácia contava para Narizinho no Sítio do Pica Pau Amarelo. Jorge morava mesmo na Capadócia, Turquia, e foi brutalmente torturado quando se declarou cristão. Morreu por não querer negar sua fê. 

Sua oração é uma das mais bonitas da igreja católica (musicada por Jorge BenJor, Fernanda Abreu e Zeca Pagodinho) e relata sua tortura. Foi perseguido ("Eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge, para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me enxerguem e nem pensamentos possam ter, para me fazerem mal".), amarrado e torturado ("Cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo tocar"), sempre reforçando sua fé. Tal bravura é associada à capacidade do carioca de sempre dar a volta por cima mesmo nos piores cenários. 

Soma-se a isso o fato de que os negros chegados ao Porto do Rio na época do Brasil Colônia e Brasil capital de Portugal escondiam à fé nos orixás rezando para santos católicos. Ogum é São Jorge. São Jorge é Ogum. E assim ficou. Fato que explica a presença do santo em todas as quadras das escolas de samba da cidade, nascidas em geral na casa de "tias" descendentes de escravos, moradoras de morros, que faziam em seus terreiros rodas de samba. O Império Serrano, minha escola, já dedicou um enredo ao santo e eu, muito feliz, desfilei naquele ano. Na quadra, em Madureira, Jorge brilha lá no alto. 

"Um guerreiro valente que cuida da gente que sofre demais; ele vem de Aruanda, ele vence demanda de gente que faz; Cavaleiro do céu, escudeiro fiel, mensageiro da paz; Ele nunca balança, ele pega na lança, ele mata o dragão; É quem dá confiança para uma criança virar um leão; É um mar de esperança que traz a bonança pro meu coração”, como cantam Benjor e Zeca Pagodinho. 

Por fim, Salve Jorge! E até 23 de abril de 2019!