segunda-feira, 26 de agosto de 2019
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

Dona Ivone Lara e o Bip-Bip

O Bip-Bip e Alfredinho são a cara do Rio de Janeiro, uma cidade com características especiais no Brasil
17/04/2018 às 19:44
Aos 97 anos, morreu Dona Ivone Lara, a matriarca do samba. Reza a lenda que o samba nasceu na casa de Tia Ciata, ali na região do Porto, no Centro do Rio. Foi lá que Donga cantou pela primeira vez "Pelo Telefone". A família de Donga é responsável pela chave da cidade, entregue ao Rei Momo na quinta-feira de Carnaval. A chave que o prefeito-bispo Crivella se recusa a entregar ao Rei Momo, pois acima de ser prefeito, ele é bispo. 

Dona Ivone Lara era enfermeira e compositora. Para gravar o primeiro LP, teve que pedir licença ao marido. Foi um das fundadoras da Império Serrano (minha escola de coração) e foi a primeira mulher é fazer parte da ala de compositores de um Grêmio Recreativo Escola de Samba. Compôs mais de 100 sambas, entre eles "Sonho Meu" (gravado por Maria Bethânia), "Alguém me avisou" (gravado por Caetano Veloso e Gilberto Gil) e "Acreditar" (gravado por Beth Carvalho).

Sem dúvida, foi uma pioneira e desbravadora, uma mulher marcante, que inspirou dezenas de jovens cantoras e compositoras. Certamente, domingo, no Bip Bip, seus sambas serão cantados e recantados como forma de homenagem. Comecei falando de samba para apresentar a vocês o mais icônico bar de Copacababa. Pensando melhor.. talvez o terceiro bar mais icônico. Acredito que o Beco das Garrafas, por ter visto o nascimento da Bossa Nova e de Elis Regina tenha mais merecimento do título. 

O Bip Bip fica na Rua Almirante Gonçalves 50, uma rua sem saída, de farto comércio. É tão pequeno que se você passar rápido não percebe que ali tem um bar. Só que ninguém vai ao Bip Bip para beber. O forte do local são as rodas de samba e chorinho. Seu dono, Alfredo Jacinto Melo, conhecido como Alfredinho, é um baixinho invocado, quase sem voz, de um mau humor indígena. Recentemente foi preso por conta da intervenção federal (recebeu voz de prisão de um policial rodoviário) e sua ida ao xadrez causou tanta comoção que teve até discurso ao vivo no Facebook.

Alfredinho é botafoguense doente e um símbolo da cidade, mas não admite conversa alta durante as rodas de música. E dá bronca mesmo. Também não curte aplausos, porque os vizinhos reclamam. No Bip, que gosta da apresentação estala os dedos. Coisa que só o Rio de Janeiro é capaz de produzir. 

Outra peculiaridade do bar é que não tem garçom. As cervejas em lata ficam na geladeira. Basta pegar e pagar. Se quiser mesmo, tem uma porção meio mais ou menos de bolinho de bacalhau que o próprio cliente esquenta no microondas. Programa de índio? Negativo.

A música compensa tudo. Segunda e terça são dias de choro. Na quarta, bossa nova. Quinta, sexta e domingo, samba. Sempre das 20h a 1h. No sábado o repertório é livre. O Bip reúne músicos de primeira e o som é curtido em pé e cantado porque quem sabe a música. Um espaço democrático e absolutamente de esquerda (nesses tempos onde tudo se resume a extremos). Inclusive, vale lembrar que Alfredinho foi preso no dia em que era prestada uma homenagem à vereadora Marielle no bar. O policial não gostou e prendeu Alfredinho por desacato.

E tudo isso acontece no meio de Copacabana, esse bairro tão eclético, tão surreal quanto a cidade do Rio de Janeiro. Se você está pensando em vir ao Rio, não deixe de passar uma noite no Bip, nem que seja para uma cervejinha. 

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Passamos de um mês e nada se sabe do assassinato de Marielle Franco, a vereadora do PSOL morta com três tiros na cabeça. Tudo indica que foi a milícia. Não sei se na Bahia tem milícia, mas esse tipo de crime organizado é 100% carioca no seu nascimento: é a polícia sendo bandido para proteger as pessoas de bandidos. Entendeu? A polícia tira o tráfico da favela, entra e faz a mesma coisa que o tráfico faz. Só não vende drogas. Mas mata, estupra, bate, controla o preço do gás, do "gatonet", etc. 

Até o crime no Brasil é difícil de entender.