segunda-feira, 16 de julho de 2018
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

As paixões politicas do Rio

Eu sou fiel às origens: ser mesmo, eu sou Vascão. E minha torcida só o time da cruz de malta tem. O resto .. é política.
08/04/2018 às 10:18

Brizola, um dos grandes ídolos dos cariocas, com Lula
Foto: DIV
Em meio à emocionante decisão entre Botafogo e Vasco pela taça do Campeonato Carioca, no domingo de Páscoa, uma acalorada discussão em família colocou na mesa a atual situação política do Brasil: ou você é pró-esquerda ou pró-direita. O meio não existe. Muito menos moderação. Eu, vascaína, querendo mesmo acompanhar Paulinho e cia na virada espetacular, tinha que me esquivar do gritos em defesa/ataque de Lula, Freixo, Marielle, Temer, Bolsonaro, Carmem Lúcia, Gilmar Mendes etc. 

Preguiça, né? Estamos a poucos meses da Copa do Mundo e ninguém quer saber se Neymar vai jogar, se Tite vai manter Thiago Silva na zaga. Nem se o Flamengo vai ter Renato Gaúcho como técnico. Muito menos se o galã Valentim vai dar jeito no Botafogo. Só se fala em política na cidade, no estado, no país. Éramos um povo alienado e passamos para uma sociedade que debate nos botequins decisões do Supremo Tribunal Federal. 

A política brasileira virou um Fla x Flu. Um Ba x Vi. Aqui no Rio, para situar, ou você é Freixo, a grande liderança da esquerda, ou é da turma do Eduardo Paes (única liderança que restou fora dos presídios). Diante do desastre da administração Crivella e do ocaso de Pezão, Paes é hoje o carioca mais desejado pela população. Deu uma saudade dele! E olha que o Rio de Janeiro sempre produziu políticos sui-generis. Tudo bem que a Bahia nos deu Antonio Carlos Magalhães. Mas convenhamos que o Rio de Janeiro não fica muito atrás quando se olha o passado recente. 

A política do Rio sempre foi muito "apaixonada". Sérgio Cabral e Eduardo Paes são mais técnicos, digamos. Foram eleitos pela máquina do PMDB, nunca despertaram calores nas multidões. O mesmo com Marcelo Allencar. O falecido governador não tinha uma claque pronta a defende-lo a qualquer custo. Mas quando falamos de Brizola, por exemplo, tudo muda de figura. 

Qual outro político brasileiro tem o privilégio de ter apoiadores de nome próprio? Você pode ser Lulista, Dilmista, Serrista ou Temerista? Não. Mas pode ser Brizolista! Não é um luxo? O velho Leonel "pariu" uma geração de políticos que dominou o executivo e o legislativo fluminense: Saturnino Braga (ex-prefeito), Cesar Maia (ex-prefeito), Marcello Alencar (ex-governador), Anthony Garotinho (ex-governador), Rosinha Garotinho (ex-governadora), Miro Teixeira (deputado federal), Cidinha Campos (deputada estadual). 

Ser Brizolista é como ser Flamengo, Vasco. Você é e ponto. Quando Brizola morreu, fui cobrir seu velório. Vi pessoas chorando, com lenços vermelhos nos pescoço, com flores vermelhas nas mãos cantando "A Internacional". A fila saía do Palácio Guanabara e dava a volta em todo o quarteirão. Quando Lula chegou, a confusão foi tanta, que quase derrubaram o caixão! Os Brizolistas cantavam a todos pulmões o samba de Beth Carvalho (também Brizolista): "você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão". Miguel Arraes chorou. Garotinho precisou ser medicado. Cesar Maia fingiu ser duraão, mas também chorou. 

Rosa, secretária da comunicação do Palácio Guanabara (onde eu trabalhava), chorou durante dias. Era Brizolista até a a raiz do cabelo. Não é de se admirar? Antes dele, houve o Lacerdismo. Os Lacerdistas idolatravam o controverso político Carlos Lacerda, ex-governador do antigo estado da Guanabara. Lacerda é o herói da classe média carioca. Hoje, seus apoiadores são velhinhos, desses que eu esbarro na fila do supermercado. 

E porque herói? Lacerda foi o primeiro governador do então recém-criado Estado da Guanabara na primeira metade dos anos 1960. Foi responsável pela construção da estação Guandu (principal ponto de abastecimento de água da cidade), dos túneis Rebouças e Santa Bárbara e do Parque do Flamengo. Mas Lacerda é lembrado mesmo (quase venerado) por ter colocado à baixo diversas recém-favelas que hoje ocupariam espaços nobres da cidade como Lagoa e Leblon. Reza a lenda que ele jogava os "favelados" no Guandu! Foi ele quem construiu, com verba americana, a hoje - famosa pela violência - Vila Kennedy (em homenagem ao presidente John Kennedy). 

E quem não era Lacerdista, naqueles tempos, era Chaguista. O Chaguismo foi criado por Chagas Freitas, ex-governador que se utilizava da política da bica d'água. Chagas Freitas distribuía dentaduras, mergulhou no Guandu para provar que a água era limpa e governava na base dos currais eleitorais, colocando bicas d'água em bairros onde não havia abastecimento regular. 

Hoje, há um vazio. Ou se é Freixo ou .... Ninguém, porque está todo mundo preso. Espero que não surja um Freixismo, porque "ser Lula", "ser Freixo", "ser Bolsonaro", não é o que faz da política, política. Paixão é bom, mas quando é demais, prejudica. Não deve ser como no futebol, onde a gente torce para o adversário perder, comemora o vice campeonato para zoar, quer sempre a vitória, não importa o motivo. 

Na política, não há espaço para cegueira. Fica todo mundo doido e, pior, brigando no mercado, se estapeando no bar, discutindo pelo Facebook, se esguelando no almoço de Páscoa, logo quando o Vascão fez o terceiro gol!

O Rio de Janeiro sempre foi uma cidade "de esquerda", com votações inacreditáveis em candidatos igualmente inacreditáveis. A temática Marielle Franco e Direitos Humanos será a pauta das próximas eleições e o clima tem tudo para esquentar. Eu sou fiel às origens: ser mesmo, eu sou Vascão. E minha torcida só o time da cruz de malta tem. O resto .. é política.