sexta-feira, 03 de julho de 2020
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

Deu ruim para Danuza Leão

Danuza achou o protesto chato e disse que "para ser feliz uma mulher deve ser assediada de duas a tres vezes por dia"
14/01/2018 às 15:22
A cerimônia de entrega do Globo de Ouro mostrou que atores e atrizes da indústria hollywoodiana não estão de brincadeira no que diz respeito às denúncias de assédio sexual. Vestidos de preto, protestaram. Concordando ou não, temos que respeitar. Nós, latinos, entendemos a abordagem homem e mulher de maneira diferente.

Nos Estados Unidos as regras são bem rígidas. É uma questão cultural. Aqui, vale beijo, abraço, brincadeiras com crianças que vemos na fila do banco. O toque corporal entre amigos, colegas de trabalho, é normal. Lá não. Assim como na Inglaterra e na Alemanha. Também no Japão e Canadá. Exagerado, radical, chato... não importa. Sempre há um ponto de partida para se começar um protesto. E nem podemos criticar porque não protestamos contra nada mesmo com tantos absurdos acontecendo por aqui. 

Mas o assunto pegou fogo mesmo quando o jornal O Globo deu a Danuza Leão uma coluna para comentar a festa. Ficou ruim para ela. Danuza Leão foi uma mulher a frente do seu tempo. Nas décadas de 50 e 60 ela foi do "balacobaco" como se dizia. Mas tudo tem seu tempo e o dela, passou. Danuza Leão fala para um geração que ainda lê jornal. Mas e a geração que não lê, ninguém ouve?

Danuza achou o protesto chato e disse que "para ser feliz uma mulher deve ser assediada de duas a tres vezes por dia". Pois é .. Danuza vacilou. A frase foi bem infeliz. Eu, como mulher, para ser feliz, gostaria poder ganhar o mesmo salário que meus colegas homens, gostaria de ter a escolha de fazer um aborto, adoraria poder sentar em um boteco sozinha sem ser vista pelos homens como um ET desembarcando de uma nave espacial. 

Certa vez, na redação de um jornal que trabalhei, ouvi um colega dizer "que mulher não entende de futebol e que tinha que ficar na cozinha". Isso foi no ano 2000. Eu cobria Esportes. A única mulher da equipe. Ficaria feliz de não ter de ouvir isso de meninos que na época tinham vinte e poucos anos. Futebol, até onde eu sei, não é uma aula de física quantica ou de química avançada. Basta gostar, acompanhar, que uma hora você vai entender. 

Então, Danuza, eu também adoraria ir ao estádio sozinha sem medo de ser morta, estuprada ou sei lá na saída do estádio. Para ser feliz, muito feliz mesmo, não queria ter de andar no vagão de mulheres do metrô. Porque ele existe no metrô e nos trens porque homens se masturbam em transportes coletivos. 

Toda mulher gosta de um galanteio, de uma boa sedução, mas são poucos os homens que sabem fazer isso. A diferença nós sabemos qual é. Como disse antes, temos que entender o feminismo dentro de seus contextos culturais e sociais. Danuza fez um discurso muito distante do seu comportamento avançado. Eu diria que foi até meio preguiçoso. Claro que ela pode discordar, mas a gente também não precisa concordar com ela.

O que mais me espanta nessa "treta" toda é que recentemente o jornal O Globo mudou toda a sua equipe para sobreviver à comunicação digital que ele não previu. Escolher Danuza Leão para comentar o atual momento da sociedade é no mínimo estranho. Os millenials e centenials, as gerações y e z, têm outras referências. Danuza é o passado e o jornalismo precisa e deve olhar o futuro. Passado e futuro podem andar juntos. Que tal uma coluna de um influenciador atual para fazer um debate amplo do assunto?

Só sei que não se falou de outra coisa na cidade. Discussões acaloradas sobre o discurso de Oprah, sobre a leniência de uns e radicalismo de outros. Danuza morou em Copacabana, na Avenida Atlântica, em um prédio onde hoje há uma placa onde se lê que ali nasceu a Bossa Nova com Nara Leão (irmã de Danuza). Danuza foi a grande revolucionária do bairro, que envelheceu junto com ela. 

Mas as velhinhas aqui estão mais preocupadas com a verdadeira invasão argentina que se deu no bairro. Fico pensando quem está em Buenos Aires nesse momento.