segunda-feira, 18 de junho de 2018
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

Crônicas de Copacabana: Empoderamento feminino e turismo

Um país continental como o Brasil não pode viver de peito e bunda, né? É se contentar com muito pouco.
08/01/2018 às 13:16
Empoderamento feminino tá na moda. Na moda, não. Chegou para ficar (finalmente!). Por isso foi lindo ver atores e atrizes todos vestidos de preto na premiação do Globo de Ouro em protesto contra as denúncias de assédio sexual em Hollywood. Um exemplo a ser seguido. Enquanto o povo aqui fica criticando Anitta, com sua bunda de celulite, devíamos mirar no exemplo americano e sair da inércia. Principalmente a classe artística que só sabe exibir sorrisos em Fernando de Noronha.

   Nas terras de Copacabana, tivemos um fim de semana de samba com boa parte das baterias das escolas de samba desfilando na orla. Por que isso nunca foi feito antes? Boa pergunta. Boa parte das escolas faz ensaios nas ruas dos bairros onde "residem". É um lindo espetáculo. Mas porque nunca usamos esse potencial como atrativo turístico, não sei. Muita gente não sabe como chegar às quadras, têm medo da violência e nada mais justo do que fazer essa integração Zona Norte/Zona Sul ao ritmo de samba. Ainda temos muito a evoluir nesses dois temas: empoderamento feminino e turismo. 

   Como juntei esses dois assuntos no texto também não sei. Mas vale a reflexão. Porque nada mais escandaloso do reflexo da nossa hipocrisia do que o carnaval. As mamães brasileiras, ai, ai, ui, ui, não querem ver duas adolescentes se beijando em Malhação, mas tá legal ver mulher nua à frente da bateria. Ou a Globeleza se remexendo na TV (ainda existe?). Nada mais normal que duas adolescentes se beijem. Afinal, é na adolescência que descobrimos nossos desejos. 

   A geração centenial, como é conhecida a juventude nascida a partir de 1998, tem outros valores. Eles não têm; compartilham. Não querem carteira assinada; querem ter sua própria startup. São plurais, desapegados, muito mais livres que os hippies dos anos 70. 

   As empresas estão gastando fortunas para entender essas pessoas que daqui a alguns anos serão os líderes do novo mundo. Ao que tudo indica, quem não está entendendo são os papais e as mamães, não é mesmo? O empoderamento começa aí. Muito complicado vender bunda e peito para pessoas que aceitam tudo que é diferente e não acham graça na exploração sexual da mulher como objeto. Assédio sexual não é mais o "normal". O sucesso de uma mulher não é mais porque "ela deu para alguém". Daí que o exemplo que vem de cima, de atrizes como Nicole Kidman, é tão importante. 

   Porque por aqui temos que aturar um deputado federal que responde a um processo por PEDOFILIA. Escrevo em caixa alta porque é tão absurdo que nem sei por onde começar. Uma Ministra do Trabalho que responde a processos trabalhistas, uma bancada evangélica que acha - em 2018!!! - que aborto é coisa do capeta e um candidato à presidente homofóbico, racista, misógino, a favor da tortura e que é chamado de Mito. Socorro! 

   Mas e o turismo? Tem que se reinventar. Porque somos o país da bunda, do carnaval, do sexo, da putaria e isso tudo vai acabar, está acabando. Temos muitas manifestações culturais que merecem mais atenção. Museus com obras fantásticas. Uma natureza exuberante. Basta investir. Mais segurança, mais capacitação, mais interesse. Não só no Rio de Janeiro, mas em todos os estados. Um país continental como o Brasil não pode viver de peito e bunda, né? É se contentar com muito pouco. 

Copacabana sambou mesmo com chuva e foi muito legal ver os coroas se esbaldando. Nada como a criatividade e a inteligência para sacudir o marasmo vigente.