quarta-feira, 26 de junho de 2019
Colunistas / Crônicas
Jolivaldo Freitas

Para não dizer que não falei dos 100 dias

Escritor e jornalista. Jolivaldo.freitas@yahoo.com.br
15/04/2019 às 06:24

É prática analisar os 100 primeiros dias de qualquer governo e ver o que de bom aconteceu, o que andou, o que evoluiu, o que foi feito, o que deu para trás. Estamos no governo Bolsonaro completando seus 100 dias e nada aconteceu. Muita espuma. Muito mimimi. As negociações com o Congresso Nacional estão se arrastando, o plano de desestatização está empacado, o Ministério da Educação está uma loucura, só para citar alguns.

Até agora, o que é pior, o presidente Bolsonaro não conseguiu um relacionamento qualquer no Congresso. Conseguiu somente criar um mal-estar com o presidente da Câmara Rodrigo Maia, que pode atrasar a reforma da previdência, pois Maia é bem relacionado e todo mundo sabe que deputado não flor que se cheire.

Bolsonaro tem mostrado que ainda não saiu da fase de campanha política e está agindo de forma errada – mesmo tendo sido deputado por uns 30 anos -, ao querer impor uma filosofia de Nova Política, sem dizer ao certo o que essa nova política signifique na prática, pois tem cedido às pressões que tanto criticara.

Os deputados que vestiram a carapuça da velha política, que seria o toma lá da cá, andam contrariados pelos corredores da Câmara. E querem clareza por parte do governo e o governo fica falando por eufemismo. A questão é que Bolsonaro acha que indo a favor da política em sua essência, que é negociar, estará fazendo algo antigo. Ele ainda não se deu conta, apesar de tanto tempo que levou do outro lado da mesa, como deputado, que articulação política faz parte da democracia e não significa corrupção, mas sim a partilha de poder.

Se não parar de ofender, diminuir, menosprezar os deputados não vai conseguir fazer uma base e aí terá amplas dificuldades para aprovar seus projetos, o que é ruim, péssimo para todos os brasileiros de direita ou de esquerda, tanto faz. A questão é que Bolsonaro foi convencido que basta fazer umas tuitagens para que o povo force os deputados a aprovar as leis. Mas o povo é algo sem espinha e volátil. Não somente não tem se insurgido contra os deputados, como não tem pressionado.

Muito pelo contrário, ainda por cima tem mostrado seu desagrado com o governo que nestes quase 100 dias vem sendo desaprovado.  Sua aprovação caiu 15 pontos em pesquisa do Ibope e vai cair mais de ficar nas trincheiras cibernéticas. Seus eleitores já o questionam e outros mostram-se envergonhados. Bolsonaro tem de lembrar que sua eleição foi atípica e que sua base verdadeira é diminuta. Repetindo sempre que a maioria que votou em seu nome estava votando contra o PT e tudo o que representava de ruim na esfera da ética e da política.

Seu mentor o astrólogo, profeta e filósofo Olavo de Carvalho só tem esculhambado o governo. Bolsonaro ainda não percebeu, levado pelo sentimento de amizade e admiração, que Olavo é um ladino, que só pensa em si mesmo, que se tem em alta conta, que é meramente um manipulador. Por sinal, mostra ser uma pessoa muito insegura, a partir do momento em que fala de si mesmo com o uma entidade, um gênio da raça, numa incessante busca da autoafirmação.

Já Paulo Guedes, realmente um profissional competente, até já disse que não tem esse amor todo pelo cargo de Ministro da Economia. E ele sabe que se der tilt na rebimboca da parafuseta do plano de reforma da Previdência não tem mais nada a fazer mesmo nesta administração.

O que tem se mostrado é que todo o governo age com inabilidade e o Congresso Nacional é feito por profissionais, artilheiros matadores; de gente que não quer saber de bate-boca sem feddback. Que somente quer saber do que pode dar certo.

Bolsonaro, um velho deputado, não lembra mais como as coisas são aprovadas no Congresso. Não estou falando de maracutaias, acordos em gabinetes e antessalas, a troca de cargos por apoio (se bem que os deputados andam ávidos por cargos e indicações). Digo das negociações sofridas, buscadas, alongadas, mas resolvidas. E se ele esqueceu como se faz ou não sabe desde a origem estamos mesmo à deriva.