segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Crônicas
Jolivaldo Freitas

A história da sinhá, das mucamas e do publicitário

Festa em que Caetano Velosos cantou e o governador do Estado bailou
21/02/2019 às 10:31

Péssimo negócio fez o publicitário Nizan Guanaes, quando precisando de um adjutório (deu numa coluna que estaria com síndrome de ansiedade), teria ouvido da sua, do seu analista paulistana(o) a sugestão de que voltasse às origens. Ele interpretou que seria realizar back in Bahia, lugar de onde saiu há dezenas de anos para fazer a burra e que mudou muito e ele longe não percebeu. Quem está aqui dentro na maioria das vezes não vê que a Bahia não é mais a mesma, imagine quem se escafedeu divisa fora.

Pois, a Bahia de agora, deviam ter dito a Nizan os seus amigos e parentes baianos, com suas feridas cada vez mais abertas, vem a ser um péssimo palco para sua criatividade. Foi o que se viu quando gestou a ideia ou aprovou em braisntorm a infeliz ideia de ter como tema no aniversário de 50 anos da sua querida mulher Donata Meirelles, uma lúdica e infeliz abordagem negreira, imperial, de engenho. Talvez por achar bonito as gravuras de Debret e não ter informação suficiente sobre a questão histórica escravagista, o uso de duas negras paramentadas como escravas em festa, gerou o mal-estar que a comunidade negra empoderada ou rêmoras de Salvador vivenciou.

Não adiantou dizer que a foto em que Donata estava sentada numa cadeira de rainha, uma cadeira indiana usada pelas ialorixás nos terreiros como símbolo de status e liderança espiritual, com as duas “mucamas” ao lado tinha outro sentido, pois as “modelos” negras estavam com vestido de festa. Nizan e Donata demonstraram no mínimo ignorância pois escravas cheias de ouro eram o orgulho e a vaidade dos senhores e das sinhás. Era, naqueles velhos tempos, uma forma de mostrar riqueza.

 Na Bahia de hoje, particularmente politicamente correta, por mais chato e capenga que isso venha a representar, é preciso cuidado com o que se faz e principalmente com o que se mostra, pois, a patrulha não dorme. Hoje está difícil até chamar alguém de minha neguinha, por mais carinhoso que seja dito. Está difícil chamar o amigo de meu preto. 

Teve até uma discussão num grupo de Whatsapp porque foi dito que astrônomos americanos haviam descoberto um novo buraco negro no fim da galáxia.
A Donata perdeu seu emprego na revista Vogue Brasil que dirigia e seus neo-desafetos destacaram que negras eram raras na publicação. Ela pediu para sair e Nizan Guanaes não se meteu, enfiou a cabeça na areia do Porto da Barra e tentou passar incólume como um tatuí.

Com certeza que a moça não vai jamais esquecer seus 50 anos completados na Bahia, numa escorregadela que quanto mais se justifica mais complica. Escrevo a respeito só para dizer que é preciso tomar cuidado com o que se faz na Bahia de hoje, ainda mais com o julgamento feroz via internet, em que a maioria se acha preparada e com ideias definitivas e “justas”. 

Na Bahia de hoje, em se tratando do tema que envolve a comunidade negra tem de saber pisar, tocar, pois a sensibilidade é maior. A divisão racial bem mais ainda. No caso de Nizan/Donatella foi uma questão do criativo querer ser criativo sem braisntorm e se perder na criatividade. De tropeçar na inteligência. De não saber mais onde estava pisando. De não ter a humildade de perguntar se iria ferir susceptibilidades. 

E feriu. Interessante é que o nome Donatella em sua origem significa “dada de presente”. Acho que ela tão cedo não volta à Bahia. E Nizan vai ter de conversar mais com sua (seu) analista sobre a Bahia e o tempo.
Escritor e jornalista: Jolivaldo.freitas@yahoo.com.br