Cultura

MÁRIO QUEIRÓZ, O ARTISTA DA FOTOGRAFIA E DA VIDA, por WALMIR ROSÁRIO

Walmir Rosário é jornalista, radialista e escritor
Walmir Rosário , Itabuna | 16/10/2026 às 10:40
Walmir Rosário e Mário Queiroz, Carnaval de Canavieiras, 1993
Foto: Alberto Coutinho
    Conheci Mário Queiróz ainda na adolescência, quando deixou sua terra, Itajuípe, e veio residir em Itabuna, isso, ainda, no século passado, lá pela década de 1960. Era um rapaz comportado e que gostava da vida com todas as bonanças daquela época. Muitas amizades e um sonho: Se mudar para o Rio de Janeiro e se tornar paraquedista do Exército. Sem medo de voar alto. 

   E assim fez, cumpriu o famoso dever cívico do serviço militar e um belo dia volta a Itabuna, quem sabe para viver como um ser normal, com os pés nesta terra. Pessoa de fazer muitos amigos, passou a se corresponder com gente do mundo inteiro, dos Estados Unidos ao Uruguai, da Inglaterra à Austrália, uma “mania” muito comum àquela época.

  Mário vibrava com o aumento da amizade internacional e as imagens dos selos, muitos deles de grande valor financeiro. De pronto transformou a filatelia no seu hobby predileto. Rapaz de boa família – como se dizia naqueles tempos –, levava uma vida normal, convivendo com os amigos, desfilando no “jardim da prefeitura” (praça Olinto Leone), frequentando os clubes.

   Suas lembranças da vida no Rio de Janeiro o levaram a pregar transformações em Itabuna, a terra do cacau, na época em que o dinheiro não era problema. Para ele, Itabuna tinha espaço para tudo. E o seu primeiro empreendimento foi um bar no estilo carioca, com boas marcasde cerveja e um sortimento de “cair o queixo” de bebidas quentes importadas, no jeito do paladar do Grapiúna.

  Não consigo lembrar o nome dado por Mário ao bar e recorri ao amigo de tempos pretéritos, o colega advogado e confrade do Alto Beco do Fuxico, Pedro Carlos (Pepê), cliente assíduo ao lado do engenheiro Dagoberto Brandão. Pepê lembrou apenas do apelido de Mário, Pinduca, e da seleta clientela, que reunia a nata da política e conviviam de forma respeitosa, brindando a vida.

   Mas aquela não era a carreira que Mário Queiróz queria para o resto de sua vida. Como sempre pretendeu ser um homem livre, resolveu voar maisalto, agora bem diferente de quando saltava dos aviões no tempo do paraquedismo. O mundo mudava a cada minuto com filósofos e idealista spregando a liberdade do homem, sem limites, e na qual a lei seria apenasa de ser feliz.

   O ainda Mário Queiróz já se tornara amigo da fotografia e fazia experiências com algumas máquinas e conversas com o fotógrafo e antigo dançarino e sapateador Newton Maxwel. Era apenas o que faltava para ver o mundo por outras lentes. Em Itabuna a cultura corria solta e todas as experiências eram válidas, de acordo com a cabeça e o pensamento de cada artista iniciante.

   Mário Queiróz se muda para Salvador e na capital soteropolitana encontra os amigos e mentores para sua nova arte: a imagem, agora de na forma artística, como costumava ver nas revistas internacionais. Trabalhou nos jornais da capital e iniciou sua vida de liberdade total, como pregava o famoso Festival de Woodstock. Daí ganha novo nome: Mário Bandeira, por pregar um mundo sem limites.

   Com o sucesso da banda Novos Baianos, viveu uma boa temporada com eles, fotografando-os e comercializando apresentações musicais e jogos de futebol com times das cidades por onde passavam. Em Itabuna, Mário Queiróz conseguiu com seu amigo Reinaldo Sepúlveda que o grupo passasse um bom tempo em sua fazenda de cacau, experiência ímpar.

   De volta a Itabuna fotografou à vontade, expôs seus trabalhos, fez sucesso. Ao lado das fotos artísticas, mil encomendas para revistas e jornais. Com o boom de Porto Seguro, Mário Queiróz (ou Bandeira) se muda de mala e cuia para a terra do Descobrimento, conhece gente de todas as partes do mundo e viveu nababescamente, por vezes, outras nem tanto.

   Tive o prazer de trabalhar com Mário (ou Pinduca) nas encomendas de cadernos especiais e revistas, muitas para jornais como o Globo (Maria José, Waldomiro...), Correio da Bahia, jornais A Região, Agora, e diversas revistas. Cada um desses trabalhos era festejado pelo público diante da riqueza das fotos e informações. 

   Considero um fotógrafo e retratista por excelência. Antes de cada viagem eu fazia uma preleção que Mário ouvia atentamente, sem esboçar a mínima reação. Eu falava sobre meus costumes, muitos em confronto com os dele, que não abria mão dos seus “digestivos”, proibidos na mala do meu carro ou da empresa. Quando muito dava uma risadinha sonsa, pois sabia que assim que chegássemos em no destino estaria em casa de amigos.

   Apesar da vida desregrada que levava, Mário não se descuidava do físico, e fazia questão do corpo musculoso, resultado das caminhadas para manter a forma atlética. Certa feita, em Canavieiras trabalhávamos um caderno especial sobre a cidade, e bem perto de nós explode um tiroteio. Peço aMário que o registrasse, pois faria uma matéria para o jornal. Ao enfrentar uma realidade diferente começou a tremer e não saiu uma só foto.

   Na década de 1990 resolve deixar Porto Seguro e volta a Itabuna. Completamente magro, ao ser observado por um amigo, ia logo dizendo: “Estou com Aids, pode espalhar que é para ninguém vir me pedir dinheiro emprestado”. Em Porto Seguro se sentia no paraíso e experimentou a fotografia junto a profissionais do mundo inteiro, com trabalhos relevantes.

   Em toda minha vida nunca convivi com uma pessoa desapegada do tipo de Mário Queiróz. Enquanto fazíamos um jornal para a Prefeitura de Itajuípe, sua terra natal, olhou para o triste e combalido rio Almada, cujas águas deslizavam mansamente, tendo ao seu lado o colorido dos fundos do casario. Ele via uma réplica das cidades italianas na costa Mediterrânea. 

   Não perdeu tempo e exclamou! “Estou vendo o sucesso desta imagem na primeira página”. O seu desprendimento com as coisas materiais incomodava mais os amigos do que ele, que sempre pensava no que de bom poderia vir. Se mas potentes máquinas fotográficas do passado, o surrado aparelho celularera a sua “arma de guerra”, com o qual produzia imagens maravilhosas e retratos irretocáveis. 

   Mário Queiróz (Bandeira, Pinduca), nos deixou aos 83 anos, com problemas cardiovasculares, no dia 10 de outubro de 2026, apó viver intensamente.