quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Cultura

ROSA DE LIMA ANALISA LIVRO DE LÚCIO SÊNECA: SOBRE A BREVIDADE DA VIDA

Um livro em que o filosofo comenta alguns momentos da vida do sapiens e a tranquilidade da mente
Tasso Franco , da redação em Salvador | 07/10/2021 às 15:22
É o comentário da Rosa de Lima
Foto: BJÁ
  
 O que quis dizer o filósofo estoico Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C Córdoba ES; 65 Roma) com o pensamento "vocês agem como mortais em tudo o que temem e como imortais em tudo que desejam" no prolongamento da interpretação do pensamento aristotélico "a vida é curta, a arte é longa"?

 O estoicismo é uma escola de filosofia helenística fundada na Grécia, em Atenas, por Zenão de Cítio no início do século III a.C Filosofia como um modo de vida: a melhor indicação da filosofia de um indivíduo não era o que uma pessoa diz, mas como essa pessoa se comporta. Para viver uma boa vida, era preciso entender as regras da ordem natural, uma vez que ensinavam que tudo estava enraizado na natureza.

  Sêneca, por posto, estabelecia que não é que tenhamos pouco tempo de vida, mas desperdiçamos muito dela. "A vida é longa o suficiente e uma quantia bastante generosa nos foi dada para as maiores realizações se tudo fosse bem empregado". Ou seja, agir como mortal em tudo que se pode temer - a calúnia, a difamação, o adultério, a morte - é uma coisa; e imortais em tudo que desejam - a luxúria, o uso da escravidão em benefício prório, a riqueza, a muher alheia - é distinto. Deveria, assim sendo, ao menos ter uma interpretação final já que todos somos mortais e influenciados pela natureza.

   Em "Sobre a Vida e a Morte", Sêneca (Editora Principis, 95 páginas, tradução de Fábio Menezes Santos, SP, 2021, R$30,00 portais internet) o autor analisa algumas questões voltadas para a sua época, a busca da felicidade e o conceito de natureza aplicada ao ser humano, considerações morais próprias do estoicismo. Sêneca foi condenado ao suicídio por conspirações contra o imperador Nero e morreu aos cortar os pulsos aos 68 anos de idade. Importante também em sua obra é entender o pensamento do século I.

   Sêneca ocupava-se da forma correta de viver a vida (ou seja, da ética), da física e da lógica. Via o estoicismo como a maior virtude, o que lhe permitiu praticar a imperturbabilidade da alma, denominada ataraxia (termo utilizado a primeira vez por Demócrito em 400 a.C. Juntamente com Marco Aurélio e Cícero, conta-se entre os mais importantes representantes da intelectualidade romana.

   Sêneca via, no cumprimento do dever, um serviço à humanidade. Procurava aplicar a sua filosofia à prática. Deste modo, apesar de ser rico, vivia modestamente: bebia apenas água, comia pouco, dormia sobre um colchão duro. Sêneca não viu nenhuma contradição entre a sua filosofia estoica e a 7sua riqueza material: dizia que o sábio não estava obrigado à pobreza, desde que o seu dinheiro tivesse sido ganho de forma honesta.

    Em conversa com Serenus - um dos seus grandes amigos - sobre a tranquilidade da mente disse: "Quando olhei para dentro de mim, Sêmeca, alguns vicios apareceram claramente na superficie, de modo que pude colocar minha mão sobre eles; alguns estavam mais escondidos na profundezas, alguns não estavam lá o tempo todo, mas voltam em intervalos. Eu diria que esses últimos são os mais problemáticos. Eles são como inimigos rondando que se lançam sobre você quando a ocasião se apresenta e não permitem que você esteja pronto como na guerra, nem à vontade como na paz". 

   Mais adiante filosofa citando Curius Dentatus o qual costumava dizer que preferia a morte real à  morte em vida; pois o horror final é deixar de ser contado o número de vivos antes mesmo de morrer". Sêneca foi condenado a morte por Nero diante um possível planejado atentado contra o imperador romano e obrigado a suicidar-se. Ou seja, tinha que ele mesmo se matar e o fez cortando os pulsos.

   Integrante de parte da aristocracia romana situava em suas pregações filosóficas que as pessoas devem ter cuidados ao escolher os amigos e decidir se vale a pena dedicar parte de "nossa vida a elas, se o sacrificio do nosso tempo faz diferença para elas".

   O filósofo conceituava que o maior obstáculo à vida é a expectativa, que depende do amanhã e desperdiça o hoje. Vocês está discutindo o que está sob o controle do destino e abandonando o que está sob o seu controle. O que você está observando? Para qual objetivo você está se esforçando? Todo o futuro está envolto na incerteza: viva imediatamente". 

   Ler Sêneca eleva a alma e "Sobre a Brevidade da Vida" o livro é tão leve e sereno que o leitor desfrutra como um vinho encorpado e vai sentido o seu sabor amargo até ficar suave.