segunda-feira, 30 de novembro de 2020
Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA LIVRO AS MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS

Clarissa Pinkola Estés tem 75 anos de idade e é psicanalista junguiana. Livro que deve ser lido por todas as mulheres.
Rosa de Lima , Salvador | 07/11/2020 às 08:14
70 semanas na lista dos mais vendidos do NYT e 1º lugar na lista Veja
Foto: BJÁ
   Um livro quando é bom se conhece no primeiro capítulo. Charles Baudelaire ao comentar os contos de Edgar Allan Poe - geniais que são - anotou que para um texto ter efeito na totalidade, precisa possuir a primeira frase escrita de forma a preparar a impressão final. E, em não sendo assim, a obra é deficiente deste o início. Para o fundador da moderna poesia - juntamente com Walt Whitman - quem começa bem um capítulo e está com uma boa ideia na cabeça segue com condições de concluir com excelência.

  Falo isso para comentar o livro da norte-americana descendente de família de imigrantes mexicanos e adotada por um casal de imigrantes húngaros nos EUA, Clarissa Pinkola Estés, "Mulheres que correm com os lobos" (Editora Rocco, 573 páginas, R$36,90 - Magalu, Americanas, Cultura, etc -  com preparação dos originais de Maira Parula e revisão técnica de Suzzane Robel, tradução de Waldéa Barcellos) um trabalho em que a poetisa e psicanalista junguiana combina mitos e histórias com arquétipos (modelos) e comentários psicanalíticos sobre a mulher (selvagem), e o faz desde o primeiro capítulo de maneira magistral.

  O livro é excepcional do princípio ao fim, 'gostoso' (na expressão figurativa da palavras) de ser lido, e apesar dos termos técnicos e das expressões do mundo junguiano e da psicanálise permite uma leitura compreensível ao leitor médio - não intelectual - ainda que de vez em quando consulte-se o Google para tirar dúvidas e acrescentar conhecimentos. Traz, também, anexo ao ensaio uma bibliografia extraordinária sobre temas que vão dos contos de fadas à psicanálise.

  A obra de Pinkola Estés, portanto, é um ensaio bem fundamentado de uma psicanalista experiente e especialista em traumas pós guerra (tratou de pacientes mutilados pela II Grande Guerra, da Guerra do Vietnã e outros) que defende uma postura mais radical e empoderadora da mulher com base em mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem.

  O livro foi editado pela primeira vez em 1999, mas somente mais recentemente ganhou dimensão entre os mais vendidos de vários países (ficou 70 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times e, no Brasil, hoje, é o primeiro lugar na lista de Veja).

  É um texto elaborado mais para ser consumido pelas mulheres, pois fala diretamente delas e dos seus comportamentos junto às sociedades atuais e com análises em contos de fadas  - Cinderela, Patinho Feio, Barba Azul - e em narrativas que amealhou entre nativos dos EUA, na cultura mexicana e nas descrições das contadoras de histórias de suas tias (adotivas) húngaras.

  No básico, o texto da obra mostra a mulher - originalmente, selvagem, autônoma, guerreira - foi domesticada ao longos dos anos num processo que levou-a à passividade, a submissão, e aquelas que se rebelaram foram punidas e muitas outras rebeldes se tornaram símbolos das sociedades.

  O título é proposital (Mulheres que correm com os lobos) exatamente para mostrar que a mulher deve se comportar à semelhança de uma loba - gregária, familiar, selvagem, altiva - quebrando os ritmos artificiais que foram montadas pela sociedade para contê-la, para não permitir que ela cresça e tenha uma vida independente.

  Creio que se trata de um clássico do gênero para as mulheres embora possa (e deva) ser lito também pelos homens. A loba não vive sozinha, mas em matilha; e a mulher também não vive sozinha, tem a companhia do homem e também outras formas de companhias, de companheiras, de famílias e associações.

  O livro, no entanto, não entra nesse mérito da análise de casais e sim de mulher persona, da mulher como individuo, que precisar ser desperta para a existência dos assuntos e lugares da sociedade contemporânea. É uma análise da mulher como indivíduo (como ser) independente de sua condição social na sociedade e seu mundo afetivo.

   Pinkola Estés desnuda a mulher, expõe a mulher com todas as suas idiossincrasias comportamentais com base em estudos que orientou e dirigiu em sua clínica e nos comparativos com as personagens dos contos de fadas e das narrativas presenciais que fez pelo mundo, em especial, no México e nos Estados Unidos.

  Os comparativos e as lições que produz com base na história do Barba Azul são admiráveis e despercebidas dos leitores comuns deste famoso conto infantil de Charles Perrault, escrito em 1697, e que gerou diversos versões mundo à fora, a narrada no livro por sua tia Kathé que vivia em Csíbrak, Hungria. A história fala do homem sinistro que habita a psique de todas as mulheres, o predador inato. A autor diz que conter um predador natural da psique é necessário para que a mulher permaneça de posse de todos os seus poderes instintivos.

   "Entre os lobos, quando a mãe deixa os filhotes para ir caçar, os pequenos tentam acompanhá-la fora da toca, pela trilha abaixo. A mãe rosna para eles, investe contra eles e apavora os filhotes até que eles voltem atabalhoadamente para dentro da toca. A mãe sabe que os filhotes ainda não têm condições de pesar e avaliar outras criaturas. Eles não sabem quem é um predador e quem não é. Com o tempo, ela irá ensiná-los, com rigidez e eficácia", descreve a autora.

   Para Estés, quando o Barba Azul prende a mulher até que ele volte de uma viagem, "encontrar a mínima porta é importante; desobedecer às ordens do predador é importante descobrir o que este quarto abriga de especial é fundamental". Ter, sobretudo, a chave da porta que representa a chave do conhecimento, o símbolo do acesso aos mistérios.

  Na história de "Vasalisa, a sabida", uma forma da velha La Que Sabe, Daquela que Sabe, da Mulher Selvagem" a autora analisa e resgata a intuição como iniciação.

  O livro tem essa pegada do início ao fim de todos os contos analisados, de uma profundidade a pensar, a colocar as mulheres a analisar o seu Eu e se sentirem e atuarem de maneira independente, corajosa, sem submissões aos predadores individuais e coletivos - o homem, as empresas, as instituições e assim por diante.

   Há várias outras narrativas bem sugestivas tais como o urso da meia noite, la lhorona, a mulher dos cabelos de ouro, Baubo, a deusa do ventre, o reino da mulher selvagem, La Mariposa (a mulher borboleta), a mulher esqueleto, o patinho feio, os gatos desgrenhados e as galinhas vesgas do mundo. Enfim, um livro excelente.