sexta-feira, 04 de dezembro de 2020
Cultura

NO MEU TEMPO DE MENINO, BALEIROS, TIPÓGRAFOS, ALFAIATES E FUNILEIROS

Muitas dessas profissões não existem mais e outras se transformaram, pois, lá se vão 70 anos
Tasso Franco , da redação em Salvador | 21/10/2020 às 08:33
Gilberto Nery (primeiro a esquerda) tipógrafo, encadernador e advogado
Foto: Arquivo do autor
    O jornalista Tasso Franco publicou nesta quarta-feira, 21, no wattpad, a 26ª crônica do seu livro "No Meu Tempo de Menino, o último apito do trem" (1945/1957, Serrinha, Bahia, sobre os aguadeiros, funileiros, baleiros, tipógrafos e outras profissões de sua época e que, hoej, não mais existem. Leia abaixo e as demais crônicas no wattpad.

   BALEIROS, AGUADEIROS, TIPÓGRAFOS, ALFAIATES E FUNILEIROS

 

   Algumas profissões que existiam no meu tempo de menino, lá se vão 70 anos, umas não existem mais e outras passaram por transformações. 

   Lembro dos baleiros, dos aguadeiros dos tanques das Abóboras e da Bomba, dos tipógrafos que trabalhavam na oficina de meu pai, dos carregadores que usavam uma chapa fornecida pela Prefeitura, dos letristas que faziam as produções de propagandas dos filmes do cinema em placas, dos alfaiates que usavam dedais de pratas, funileiros, engraxates de ponto, sineiros, professoras de datilografia e outras que desapareceram com o tempo.

   Os baleiros eram os mais próximos das crianças pela maneira que atuavam com cestas de vime e correias que trespassavam as alças em seus ombros, desapareceram por completo. Ainda existem, noutro formato, como é o caso de um deles que atua no passeio da Farmácia de Dona Todinha, há anos, mas, usando uma banca de madeira.

   Os tipógrafos da tenda de meu pai "O Serrinhense" desapareceram de vez. Ninguém hoje usa mais composições tipográficas com peças de chumbo, caixa americana, componedores, calandras. As typographias (antes se escrevia assim com y e ph) deram lugar às gráficas rápidas e aos sistemas computadorizados. É possível que ainda tenha uma outra de lembrança histórica, nalguma cidade da Bahia. 

   A profissão de tipógrafo acabou. Eu criança, ficava invocado com Gilberto Nery, grande tipógrafo, (depois formou-se em advocacia) como pegava os tipos na caixa com rapidez, quase de olhos fechados, e colocava-os no componedor. Zelito de Sêo Zélis era outro fera.

   Outra profissão - típica da população de baixa renda - que também acabou foi a de aguadeiro. Os aguadeiros do meu tempo de menino abasteciam os barris - 4 em cada jegue, dois de cada lado - ou na Bomba ou no Tanque das Abóboras. 

   A casa dos meus pais, o chalé do Largo da Usina, tinha um quintal tão grande que se constituía num sitio e a cerca descia do lado esquerdo até a borda do tanque das Abóboras.  Com a construção da Igreja Nova formou-se um corredor rumo ao tanque e era por aí que os aguadeiros circulavam. Não me recordo quantos, nem os nomes deles. Creio uns cinco ou dez. 

   Meu pai usava os serviços de um aguadeiro baixinho, crespo, chapéu de palha sempre na cabeça, que fornecia água para refrigerar os motores a diesel das máquinas impressoras da tipografia. 

   Ele (como os demais) tinha uma técnica para encher os barris nos tanques e acomodá-los nas cangalhas com alças postas nos lombos dos jegues. Primeiro colocava um de um lado, depois outro do outro lado; em seguida a mesma manobra com o segundo. E na hora de retirar, a mesma coisa. 

   Enchia um tonel ou dorna da oficina, recebia a 'gaita' e partia. Muita gente comprava água na Serra nesse modelo, a água de gasto (só poderia ser bebida se filtrada ou fervida) para lavar louça, roupas, peças de oficina, assear chão e assim por diante. A água de beber era dos tanques de cimento. Mas, muitas famílias usavam essa água do gasto para beber e anualmente seus integrantes tomavam um purgante que expulsar as possíveis lombrigas das panças.

   O engraxate de ponto mais conhecido e admirado era Vitorino, o qual tinha sua caixa e cadeira na Luís Nogueira, ao lado da Farmácia do Povo, de Sêo Cosme. Vitorino era um doce. Negro alto e de fala macia, usava sempre um chapéu de palha e pitava um charuto na boca. Atendeu seus clientes neste ponto até o dia em que faleceu. 

   Eu só fui conhecer Sêo Vitorino um pouco mais de perto quando entrei no ginásio e passei a usar sapato social. De vez em quando meu pai mandava eu passar por lá e dar um lustre. Depois, ele ia na tipografia cobrar. Os engraxates adultos com ponto fixo desapareceram.

   Alfaiates de dedal lembro-me de Joel, bom meio de campo do Flu (recentemente estive com ele numa festa junina da Serra) está com oitenta e lá vai fumaça anos; e Zé da Bomba, um mulato que tinha sua tenda ao lado da sapataria de Sêo Pirulito, Zé gostava de costurar prosando sentado quase na porta de sua oficina. Era um craque em fazer ternos. Hoje, essa profissão está quase em extinção.

   Dos carregadores com chapa (usavam uma chapa com um número identificador pendurada na altura do peito e a marca da PMS) o mais admirado era Carlos Gonzaga Brito, o "Carrinho". Era um gigante. Fortão, alto, parrudo, conduzia dois sacos de feijão na cabeça com facilidade. Eu menino ficava admirado na porta do mercado vendo o vai e vem dele e outros conduzindo de tudo na cabeça e nos carrinhos de mão, ainda de madeira. 

   Quis o destino - ninguém consegue prever isso - que a filha de "Carrinho" (mistura de Carlos e carro de mão), Lúcia Brito, se casasse com um sergipano invocado que apareceu em Serrinha nos anos 1970, Djalma Oliveira, com quem teve 3 filhos. Como Djalma chegou a ser meu repórter no Jornal A Notícia, ele e Paulo Damasceno (ambos já falecidos) fui convidado a batizar Lucélia, sua primeira filha, neta de "Carrinho"; e outra neta dele, Sara, coloquei na Prefeitura de Salvador, na Comunicação, na década de 1990, onde está até hoje. 

   Os carregadores ainda existem e muitos jovens menores de idade participam desse trabalho manual usando carros de mão de metal, conduzindo feiras das “freguesas” do mercado municipal. Mas, não existem mais os carregadores de chapa.

    Entre os funileiros, dois eram os mais famosos próximos da nossa família: Duduzinho e Julinho Carneiro. Ambos, mestres nesta arte. Faziam de tudo: bicas, funis, copos com alças, litros, etc. A profissão ainda existe. Os últimos moicanos.

   As escolas e professoras de datilografia foram engolidas pelo tempo. Desapareceram de vez. As máquinas datilográficas ainda sobreviveram até a década de 1990. Hoje, viraram peças de museu e deram lugares aos computadores.

   Desses profissionais os mais próximos de nós, as crianças, eram os baleiros. Lembro bem de três deles: Pedro Baleiro, Urubu Baleado e Baleirinho. Não sei os seus nomes próprios, cartoriais. 

   Pedro tinha um defeito na perna, mancava, diz-se que produzido por uma peça metálica da explosão da caldeira da Máquina 500, na Estação da Leste, em 1950. Se o fragmento tivesse batido em sua cabeça teria morrido. 

   Era o mais querido de nós. Exímio baleiro, fala macia, sabia conversar e cativar os meninos. Cresceu na profissão e virou comerciante com loja na Praça Luís Nogueira, um magazine. Depois, tornou-se financista, emprestava dinheiro a juros. Seu ponto (já idoso) era no Jardim Tonho Neto, em frente ao Bradesco. Ali atendia os clientes. Faleceu tem poucos anos e constituiu família e casa de morada próxima a Oficina São João, de Eliotério.

   Eu, meninote, vendia e trocava revistas (gibis) na porta do cinema, no ponto principal dos baleiros. Eles também atuavam no campo de futebol, nas portas das escolas e na feira livre. Eu era freguês de Pedro. 

   Meu pai dava o dinheiro para o ingresso do cinema e um trocado para as balas. Quando eu estava bom de caixa comprava um diamante negro ou um sonho de valsa. Quando não, balas, em especial de hortelã, porque ardia o céu da boca; ou as Maria, fabricadas por Sêo Marotinho Pastor. 

   Outro doce que a gente gostava muito era jujuba. Chicletes também era bem apreciado. A meninada mascava até doer o queixo e depois prendia o que sobrava na cadeira do cinema, na parte de baixo. Os faxineiros do cinema já sabiam e no outro dia saia arrancando tudo.

   Urubu Baleado era um figuraço. Tinha esse apelido – suponho – porque era meio torto no andar parecendo que tinha sido baleado. Com o passar dos anos tornou-se atendente na Farmácia de Sêo Ramalho. Nunca mais ouvi falar dele.

   Baleirinho, como o próprio nome diz, era baixinho, ligeirinho, mas bom negociador. Mercava aos gritos baleiiiiroooo...baleiiiirooo.

   Já adulto - veja que aventura - resolvi ser 'empresário' de baleiros. Meu pai apoiou logo e mandou produzir um baú com fechadura para guardar os produtos, sob sua orientação, senão acabaria devorando os chocolates. Minha mãe disse: - Esse negócio não vai dar certo. 

   Sêo Ângelo era um catarinense que servia a praça de Serrinha com um caminhão baú da Bela Vista, creio que foi o primeiro caminhão plotado com imagens de doces que apareceu na cidade, e fui procurá-lo. 

   Acertei tudo, mas, ele pediu o aval do meu pai. Concedido. Abasteci o baú, adquiri duas cestas e meu primeiro baleiro foi Carlos Souza, o Carlinhos, que todo mundo só chamava de "Maria 500 réis". 

   Era uma trabalheira infernal conferir diariamente o que tinha sido vendido e reabastecer a cesta. Depois, tive mais um baleiro, o Miguel. Parou por ai. Minha mãe estava certa. Em menos de um ano o negócio faliu. Meu pai ficou com o prejuízo e o que sobrou dos doces devolvemos a Sêo Angelo, pois, eram consignados e o baú foi para o quarto dos serviços do chalé. 

   Carlinhos ainda é vivo e atua como garçom 'freelancer', na Serra.