quarta-feira, 25 de novembro de 2020
Cultura

FICÇÃO: ROSA DE LIMA ANALISA LIVRO FAHRENHEIT 451, DE RAY BRADBURY

Obra escrita em 1953 e atualíssima sobre a queima de livros e a liberdade de expressão
Rosa de Lima , da redação em Salvador | 21/10/2020 às 10:56
Fahrenheit 451
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Ray Bradbury (1920/2012) é um dos magos da ficção. Considerado visionário por seu estilo terror e suspense com romances e contos fantásticos, estreou em 1941 com o conto "Pendulum" na revista Super Science Store" e cinco anos depois já tinha um conto incluído no Best American Short Stories. É um mestre na arte de escrever contos e sua série sobre os marcianos - 26 contos - consolida sua carreira longeva como escritor. Morreu aos 91 anos de idade, em Los Angeles, Califórnia, deixando um legado imenso a literatura da ficção realista/científica. Mas também atuou na poesia - que também é ficção - em roteiros de cinema e em peças teatrais. Era um polivalente.

    O romance Fahrenheit 451 (Ed Biblioteca Azul, SP, 215 páginas, R$30,00 tradução de Cid Knipel e prefácio de Manoel da Costa Pinto) figura entre os mais vendidos no Brasil, na atualidade, e data de 1953. Diz o autor, em posfácio, que escreveu o 'dime movel' ou folhetim na primavera de 1950 com o título de "The Fire Man", depois, Fahrenheit 451, e custou-lhe 9 dólares e 80 em moedas de dez centavos (dimes) preço que pagou no porão da biblioteca da Universidade da Califórnia em Los Angeles para datilografar o livro em máquinas de escrever Remington que eram alugadas a dez centavos por meia hora. Confessa o autor: "Você enfiava a moeda, o relógio tiquetava feito louco, e você datilografava furiosamente para terminar antes que se esgotasse meia hora".

    O autor terminou a primeira versão em 9 dias, metade do romance que acabaria se tornando um grande sucesso. E o que narra o livro para ser tão atual? O autor concebeu uma cidade Fahrenheit 451 com casas a prova de combustão onde os livros eram uma ameaça ao sistema daí sendo proibidos nas casas, bibliotecas ou onde se encontrassem. Para fazer o combate a essa situação era só preciso chamar os bombeiros, profissionais responsáveis por combater incêndios e que passaram a ser protagonistas desta ação criminosa, dito como sendo a manutenção da ordem, queimando publicações e evitando que o conhecimento fosse disseminado.

   É provável que Ray tenha se inspirado na queima dos livros protagonizadas pelos nazistas, na Alemanha, em 1933, quando foram incinerados livros de Einsten, Marx, Kafka, Freud e este último, em comentário irônico disse: "Que progresso estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia eles se contentam em queimar meus livros".

   O contexto geral da história criada por Ray, considerada pelos eruditos como uma distopia (utopia negativa ou lugar fora da história em que tensões sociais e de classe são combatidas por meio da violência) é recheada com personagens criativos e audazes para dar vida ao enredo. Um bombeiro (Montag), quase paranóico; e sua esposa (Mildred), que vive a base de pílulas; um capitão (Beatty) comandante do bombeiros que faz o papel de ditador, uma adolescente (Clarisse Mclellan) que põe o bombeiro e suas ações em cheque e faz com que ele se rebele contra a ordem estabelecida; a senhora (Blake) que se recusa a sair de casa e é queimadas com seus livros e um professor (Peter), originalmente investigado por ser leitor e possuir uma biblioteca em casa que se torna aliado de Montag, o bombeiro, quando este muda de comportamento e vive o drama de ser apaixondo pela leitura e guardar livros em sua casa; e ao mesmo tempo ser um queimador de livros.

   A atualidade deste romance que passou a ser novamente vendido com intensidade nas livrarias e na internet, assim como a Revolução dos Bichos e 1984, de George Orwell, especialmente nos Estados Unidos com a era Trump e no Brasil com Bolsonaro, onde já ouve si queima de livros de Paulo Coelho por adeptos do totalitarismo, se insere nesse cenário em que governos querem dominar as populações com atitudes de cerceamento das liberdades, controle do Judiciário e do Legislativo, visões dogmáticas com só uma vertente sem dar espaço ao contraditório, o que está bem exposto no texto de Ray, repito, da década de 1950, portanto, antigo, mas, recorrente.

  Claro que os momentos históricos são outros, Orwell escreveu seus livros em épocas totalitárias do nazismo e do fascismo, los grandes hermanos controladores, e Ray avança um pouco mais com a nascente sociedade de consumo pós-Grande Guerra e que, em parte ainda persiste até os dias atuais, com as mudanças que foram protagonizadas nos últimos 30 anos pela internet, a inteligência artificial e o conhecimento profundo.

A sociedade, no entanto, continua sob a ameaça desses incendiários, desses queimadores de livros, daqueles que defendem o fim das liberdades, de uma imprensa live e de opiniões que sejam contrárias as suas.

   Os diálogos entre o capitão Bettly e Montag dá uma dimensão desse drama quando o bombeiro se insurge contra a queima dos livros em sua própria casa: - Agora você conseguiu. Ah! não! Não me diga que você foi enganado pelas encarnações daquela idiotazinha, foi? Flores, borboletas, folhas, crepúsculos, que droga! Está tudo na ficha dela. Quem diria, acertei na mosca. Veja só o ar doentio do seu rosto...quero que você faça esse trabalho sozinho, Montag. Não com querosene e um fósforo, mas peça por peça, com um lança chamas. A casa é sua, a limpeza é sua...os livros saltavam e dançavam como pássaros assados, as asas flamejantes de penas vermelhas e amarelas... quando tiver acabado com tudo - disse Beatty atrás dele, considere-se preso. 

  Na sequência, Montag queima o capitão: - E logo ele não passava de uma chama gritante, um homem gesticulante e desarticulado, não mais humano ou conhecido, uma chama em contorções sobre o gramado, enquanto Montag atirava um jato contínuo de fogo sobre ele.

  Um clássico da literatura, atualíssimo. Você pode até fazer como o autor retirar das sombras alguns desses personagens para entender o totalitarismo da atualidade, o fundamentalismo, onde além de queimar livros se mata um professor, na França, a Pátria da Liberté, por mostrar em sala de aula uma charge de Maomé e tratar exatamente do tema a liberdade de expressão.

Pouparam Freud da fogueira durante o nazismo, mas não seus livros; e hoje, degolam mestres de salas de aulas. É chama da Fahrenheit viva.