quarta-feira, 02 de dezembro de 2020
Cultura

"Maioria Minorizada" inaugura Coleção Pensamento Negro Contemporâneo

Mais novo livro de Richard Santos pela Editora Telha é o primeiro de Coleção voltada para produção de saberes negros atuais
Paó Comunicação , Salvador | 19/10/2020 às 17:23
O livro Maioria Minorizada inaugura a Coleção Pensamento Negro Contemporâneo
Foto: Divulgação

O livro “Maioria Minorizada: um dispositivo analítico de racialidade", de Richard Santos, comunicólogo, rapper, ativista de movimentos negros / sociais e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) é a primeira obra da Coleção Pensamento Negro Contemporâneo (Editora Telha). A série vai dar espaço a pensadores de diversas áreas do conhecimento, sejam acadêmicas ou não. O prefácio é da professora Maria do Carmo Rebouças e a orelha é da cantora, compositora e deputada estadual (SP), Leci Brandão.


A obra introduz  ao público o dispositivo analítico de racialidade Maioria Minorizada, um signo de representação unificador do discurso e proposta de emancipação negra.  O autor compreende Maioria Minorizada como o grupo social majoritariamente formado por pretos e pardos (negros), conforme categorização do IBGE, que formam a maioria demográfica da população brasileira, mas se constitui em “minoria” no que se refere ao acesso a direitos, serviços públicos, cidadania, representação política. Ao mesmo tempo, são “maiorias” em todo o processo de espoliação econômica, social, cultural e como alvos de todas as formas de violência.


SUBVERSÃO - Na orelha, a Deputada Leci Brandão, afirma que o livro “nos dá a grata oportunidade de subverter nosso modo de pensar sobre nós”. Além disso, ela ressalta que a obra “expõe a mídia como um dos fatores que alimentam a estrutura racista e desigual de nossa sociedade, impondo não apenas um padrão estético, mas também uma forma de pensar, um modo de produzir conhecimento, um jeito de ser e de viver branco que nos coloca, enquanto população negra, à margem dos direitos e da cidadania plena.”


RUAS E SALAS DE AULA - A conexão entre vida, obra, acúmulo teórico e vivências é explicitada no prefácio de Maria do Carmo Rebouças. A professora demonstra como toda a trajetória do autor contribui para o resultado presente no livro Maioria Minorizada, alinhando referências teóricas e vivência, desde as ruas e palcos como rapper – então conhecido como Big Richard. Maria do Carmo dá esse panorama, que passa pela atuação de Richard Santos nos movimentos negros, sociais, na Hip Hop, espaços políticos, de religiosidade de matriz africana, além da própria experiência acadêmica até o doutorado e da sala de aula.


OBRA E VIDA - Segundo o autor, a construção do conceito de Maioria Minorizada e do dispositivo analítico conjugam a vivência em comunidade com sua caminhada intelectual: “Minha obra e trajetória são um compromisso intelectual de permanente justiça epistêmica articulado a um esforço de interpretação da realidade histórica e a produção intelectual daí advinda. Pesquiso, escrevo e estudo para romper, de uma vez por todas, com o complexo colonial, com o racismo e o epistemicídio”.

 

Trechos do Livro:


“É fazer ver que os instrumentos utilizados para nos sacar a voz e subalternizar, fazendo-nos ventríloquos de nossos algozes, seres de cidadania mutilada, não foram tão eficientes assim, estamos vivos, ainda que carregando alvos nas costas, produzimos conhecimento a partir do saber acumulado e das vivências experienciadas. Enunciamos.”


“Dessas invisibilidades, opressões e discursos para a vida (anti-morte), é que nasce a reafirmação da cultura e ocupação do espaço na disputa do poder. Dessas experiências e lugares é que vimos os(as) intelectuais negros(as) atravessando fronteiras, rompendo barreiras invisíveis para se fazerem humanamente visíveis, presentes e contribuintes da sociedade contemporânea. É do campo da Maioria Minorizada, dos territórios negros a que foram postos, é que vimos ecoar conhecimentos e saberes insurgentes, reveladores de sua cognição complexa e de possibilidades não determinadas pela parede da opressão. “


“Ao apresentar esse novo paradigma, Maioria Minorizada, me alinho à práxis das ciências sociais latino-americanas que têm uma vocação crítica de questionar o paradigma dominante, de buscar formas de emancipação e gerar reflexões que vão além da mera reprodução de pressupostos construídos em outros contextos. Assim, recupera-se a história não contada, a versão dos invisibilizados, a oralidade, os métodos não cartesianos, as verdades não estabelecidas, a alteridade.”