quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Cultura

PALITEIRO SOMBRINHAS NA MATRIZ DE SANT'ANNA REVOLTA FUNDADOR SERRINHA

Lubi entrevista Bernardo da Silva e Luís Nogueira dois beneméritos de Serrinha tendo como testemunha Lito Sariga
Tasso Franco , da redação em Salvador | 18/10/2020 às 08:42
Mostruário de sombrinhas na lateral da matriz de Sant'Anna
Foto: BJÁ
  O jornalista Tasso Franco publicou neste domingo, 18, a 29ª crônica do seu livro "O Lobisomem de Serrinha, a nuvem de fogo e o fim do mundo" sobre uma entrevista com as almas dos finados Bernardo da Silva e Luís Nogueira e ainda comprou um cordel do poeta Serafim Alves. Leia crônica abaixo e as demais no wattpad.
  
  O PALITEIRO DE SOMBRINHAS NA MATRIZ DE SANT'ANNA E O CORDEL DO CU GULOSO


  Com a pandemia do coronavirus sob relativo controle já podemos sair de casa após 6 meses de confinamento, prisão domiciliar a que estive submetido no meu sitio no bairro do Oseas, próximo ao morrinho do fundo lado norte da colina de Sant'Anna, onde doutor Samuel ergueu uma imagem para homenagear sua esposa, hoje, maior ponto turístico da Serrinha, e, na sexta-feira última fui ao centro da cidade comprar um rejunte no Gonzaga, uns beijus na Danda e uns temperos na Mririnha.

  De maneira que sai de casa o sol ainda baixo passei pelo campo do Bahia da Rodagem, fundado em 1962 e com associação atuante no bairro, fui até o largo onde cumprimentei os meninos da Barbearia Matos e também a mocinha do Pet Feliz, peguei a Manoel Novaes, passei em Netto Som e Equipadora para dois dedos de prosa, reservei um robusto no Frango na Brasa para o retorno, alcancei o Mercado Municipal onde entrei para falar com um sobrinho de Vando Meia Língua, peguei a Jovino Franco e cheguei a Praça Miguel Carneiro, onde fica a catedral. Daí, fiz o sinal da cruz, atingi o Beco da Covid na altura do Chama, pensei em entrar na Farmácia Mercês, mas tinha muita gente, passei no Gonzaga para cumprimentar Delmo e comprar o rejunte e finalmente cheguei a Praça das Barrigudas, hoje, Luís Nogueira.

  Confesso que gastei quase duas horas em todo percurso, passo lento, parando aqui e acolá, ainda dei dedos de prosa com o filho de Diú e com Zé Quarentina, em frente a Farmácia de Dona Todinha, de maneira que quando cheguei no jardim da praça tava cansado.

  Sentei-me e fiquei a contemplar o antigo prédio da Prefeitura, abandonado, e a igrejinha matriz de Sant'Anna, único marco colonial da Serra, de 1780. Estava em agradável conversa com o goleiro Lito Sariga, bom de bola, a lembrar coisas do passado quando vejo se aproximar um senhor barbudo, barba branca, jaquetão, bengala em punho, chapéu aba curta de feltro e levantei-me para saber quem de fato era, se realmente era o que eu pensava, e vi que era exatamente aquele que imaginava: o Bernardo da Silva, fundador do povoado da Serrinha, depois vila e cidade.

  Aproximei-me dele, tirei a boina e o cumprimentei com toda reverência: - Que prazer enorme encontrá-lo, é um júbilo, disse.

  - O prazer é meu que estou a passear e ver com o anda minha querida Serrinha. Por posto, o amigo com essa máscara do tempo do entrudo, não estou a reconhecer.

  Retirei a máscara e falei: - É o lubi da Serra, cronista, historiador e poeta. Estamos a enfrentar um vírus mortal, por isso, a máscara.

  - Ah! Agora estou conhecendo. No meu tempo, a Serrinha era completamente despoluída e não havia vírus. Por sinal, quero lhe agradecer pelas referências que fez a minha pessoa no seu livro.

  - Mais do que justa grande pioneiro da Serra. Se mais não escrevi é porque fiquei na dúvida da origem do nobre desbravador.

  - Ora, meu escriba, nem eu mesmo sei ao certo. Disse-me aquele que me criou que teria eu sido filho de um tabelião da Bahia do século XVII. Falta-me provas. O certo é que existo e sou baiano descendente de portugueses.

  - E por que decidiste sair da capital da Bahia, com mar, com belezas naturais, com fartura em comida, vinhos e mulheres na época da colônia e vim para essas brenhas do sertão?

  - O gosto pela aventura, pelo desconhecido. Vimos eu e mais os Santiagos, os Carneiros, os Paes, os Aciolys, os Silvas, os Oliveiras, os Afonsos e nos fixamos nessas terras do sem fim. Foi duro, foi difícil. Primeiro morei com a família no Tamboatá e depois vaquejando atrás de umas vacas arredias conheci essas serrinhas, esses morrinhos com campo plano e pra cá nos mudamos.

  - E aí nasceu Serrinha?

  - Sim, a Josefa Maria do Sacramento - minha esposa - decidiu fazer uma capela onde está aquela igreja para homenagear e a gradecer a Nossa Senhora (apontou para a matriz de Sant'Anna) e eu fiz casa de morada onde está este prédio da antiga prefeitura, largado, desleixado, o que é uma pena. Depois, quando da minha passagem para outra esfera espiritual doamos essas tarefas de terra e a capela para a madre Igreja Católica, hoje, a Serrinha sede de uma diocese.

  - Isso certamente lhe traz grande satisfação e também desgosto.

  - Satisfação pela obra que plantamos e também um desgosto profundo. Não é possível que entra prefeito e saia prefeito e não se resolva isso. Uma vergonha. Minha casa de morada era aí e atrás cavamos o tanque da Nação onde João Barbosa ergueu Mercado Municipal derrubado pela incúria. Fico muito chateado. Quem fez este prédio belíssimo no local da minha residência foi o Luís Nogueira, no início do século XX que, salvo engano, acabou de adentrar na igreja.

  - Viste, agora?

  - Sem dúvida. Você poderia também conversar com ele. Veja que coisa mais absurda. O templo religioso mais antigo do Nordeste da Bahia virou paliteiro de sombrinhas e de sombreiros. A Josefa deve estar indignadíssima. Ela e todo serrinhense que se respeite, que cultue a sua história.

  - Onde posso também encontrá-la para uma entrevista?

  - Está no céu meu simpático Lubi, mas, há de vir aqui para uma fala. Agradeço sua compressão e me despeço do amigo. 

  Bernardo foi se afastando de mim, aos poucos, cutucando a bengala no chão, o goleiro Lito sendo testemunha do nosso encontro e quando dei por mim, ambos já haviam desaparecido. Creio que, Lito tomou rumo da Rua da Estação e Bernardo foi sorver um curto no Casa Blanca.

  Aproveitei a oportunidade para falar com Luís Nogueira e desloquei-me até a igreja matriz onde senhoras faziam orações. Benzi-me, saudei São Joaquim, em seu nicho, o avô de Jesus, e vi Luís a orar em frente ao altar mor de Sant'Anna. Fiquei a sua espera na saída. Não tardou aparecer na porta da matriz quando, então, abordei-o.

  - Prazer falar com V.Exa. nesse momento em que nosso país vive em baixo astral com pandemia e político escondendo dinheiro no traseiro da cueca.

  - É lamentável o que presenciamos. Não se fazem mais políticos como antigamente, como no meu tempo, no do Hermes, do Floriano, do J.J.Seabra, do Marianno Silvio Ribeiro, do Joaquim Hortélio. É uma pena.

  - Que achas do abandono deste edifício construído por V.Exa. e que durante muitos anos funcionou a Prefeitura e a Câmara?

  - É triste. É desolador. Há dinheiro para tudo nos tempos atuais, menos para a cultura, para o patrimônio. Vês, derrubaram todo o centro histórico de nossa cidade que era um dos mais belos da Bahia. Fiz essa praça no início do século XX, o Carlos Mota remodelou-a nos anos 1960 e, hoje, sobrevive aos trancos e barrancos. A Casa do Povo onde está a Águia de Haya desabando. Tinha alguma fé no alcaide Lima, mas, o mandato dele está acabando e nada. O outro, o Cardoso, derrubou o mercado.

  - Imagino a tristeza que dá em V.Exa.

  - Tristeza é pouco. O Ferreira remodelou o meu palacete, onde criei a família, e hoje está em ruinas. Não é porque foi meu, mas, por seu valor histórico, por sua arquitetura. Pudesse eu comprava as tintas e as lixas do meu bolso para consertarem. Mas, prefiro viver em paz com minha consciência, com meu legado. Desejo ao amigo um forte abraço.

  Bem, só restou-me voltar para casa, fotografando e filmando os três monumentos e mais o coreto. Retornei pela Araújo Pinho, passei pelo mercado caído, hoje, ninho de urubus e sigo em direção ao antigo sobradinho de Pai Geza. Na praça do Amparo, hoje, também conhecida como da catedral, num banco de rua em frente a Farmácia Freitas encontro o poeta Serafim Alves a vender um cordel para o povo da roça e da cidade, cuja título soletrava a plenos pulmões: "O cu guloso de um político".

  Cristo, benzi-me, fiz de conta que não o vi, mas, ele, esperto, olho vivo, recitou: Sêo Lubi cara de peroba/ Venha comprar também seu cordel/ Nesse mundo já vi de tudo/ Da mula sem cabeça ao homem verde do ginásio/ De couro seco do morro a caipora doca/ A história que narro nesse folhetim/ Nem o demo presenciou/ Um cu guloso que gosta de dinheiro/ Sempre quer mais, nunca se fartou.

  Leva 2 e paga cinco reais, leva 5 e paga dez reais. Comprei 2 com dinheiro retirado do bolso. Ainda assim, Serafim olhou para a pelega de 5 desconfiado, passou álcool em gel no capilê e seguiu vendendo sua obra.