quinta-feira, 22 de outubro de 2020
Cultura

NO MEU TEMPO DE MENINO: LIÇÕES QUE OS AVÓS DEIXAM PARA OS NETOS (TF)

Tive a felicidade de conhecer os meus avós paternos e maternos
Tasso Franco , da redação em Salvador | 30/09/2020 às 09:03
Meu pai, no centro, entre Bacelar e Miroró, e meu avô João Paes, sentado a esquerda da foto
Foto: Arquivo Pessoal
   O jornalista Tasso Franco publicou nesta quarta-feira, 30, a 20ª crônica do seu livro "No Meu Tempo de Menino, o último apito do trem" (1945/1957) Serrinha, Bahia, e hoje comenta o legado deixado pelos avós aos netos.

     AS LICÕES QUE OS AVÓS DEIXAM AOS NETOS

      Eu tive a felicidade de conhecer e conviver com meus avôs e avós paternos e maternos, com dois deles até minha idade adulta. Digo isso de alegria e prazer, porque meus avôs e avós nasceram e conviveram boa parte de suas vidas no período do Brasil Império (1822/1889) e parte da República Velha (1889/1967, épocas em que a medicina era pouco evoluída.

   Nos séculos XIX e parte do XX não havia antibióticos, as pessoas morriam muito cedo por infecções, a água consumida pelas famílias era de tanques e das chuvas captadas em telhas e a idade média dos brasis girava em torno de 50 anos.

  Uma pessoa com 50/60 anos de idade já era considerada velha. E quando conheci meus avôs e avós no meu tempo de menino, eles eram considerados velhos, nessa faixa de idade. 

   Meu avô paterno, Jovino Alves Franco era o mais velho. Nascera em 1878 na Fazenda Lagoa Grande, Irará (Serrinha, nessa época emancipou-se do Irará tornando-se município em 1876) e migrou (Francos & Freitas) para terras do povoado do Lamarão e adjacências. Meu avô fixou-se na Fazenda Guariba e depois na Boa Vista, próximo do Matão, donde avistava o arraial da Serrinha.

  Era jovem. Deve ter chegado por volta de 1895 e fez roça na Guariba, agricultura de subsistência e depois um gadinho de leite e corte. Casou-se em primeiras núpcias com uma senhora da família Gonçalves por volta de 1900/1905 e ficou viúvo pouco tempo depois. 

  Teria essa sua primeira esposa morrido de infecção. Passou a ser devoto de São Pedro (minha irmã Laiz herdou a imagem do santo) e andando na feira da Serrinha, nos dias de sábado, conheceu Roza (uma jovem da família Coutinho, católica) por quem se apaixonou e casou-se, em segundas núpcias, em 1908/1909.

   Em março de 1910 nasceu meu pai, Bráulio Franco, já na casa da Fazenda Boa Vista, filho único. Parto realizado por parteira. Serrinha só teria seu primeiro médico, em 1925.

  Meu avô era mais da roça do que da vila; e Roza era mais da vila do que da roça. Meu avô então ficou com uma casa na vila e outra na roça donde tirava o ganha pão. Depois, em 1923, vendeu a Guariba e a casa da Praça Manoel Victorino (Luís Nogueira) e comprou de João Eustáquio da Silva o chalé da Praça do Amparo (ou Largo do Castelo, depois Largo da Usina e atual Miguel Carneiro, hoje, também chamada de Praça da Catedral). 

   No fundo do chalé, o quintal, era um sítio. As terras iam até o tanque das Abóboras, contornava onde hoje é o Colégio Ana Oliveira e voltava via Estrada Transnordestina (hoje Rio-Bahia BR116) até o ponto do Araci.

   Nessas imediações fez uma casa e foi morar com sua Roza deixando o chalé para meu pai que se casou em 1939, com Zilda Paes Cardoso, com quem teve 4 filhos a partir de 1940. Eu nasci em 1945 e dada a proximidade do chalé com a casa do meu avô foi com ele que mais convivi.

   Meu avô organizou um fabrico de jurubeba e tocava sua rocinha praticamente sem ter relações com a sociedade citadina de Serrinha. Não ia a festas, não participava da Sociedade Filarmônica 30 de Junho, da política, da igreja, de nada. Era um roceiro, rude, bravo e ai de quem invadisse suas terras para colocar uma 'criação'. Levava tiro de espingarda de advertência.

   Foi meu avô Jovino que me contou os primeiros causos do lobisomem da Serra, o qual morava num bueiro próximo do seu sitio. Certa ocasião ele entrou em luta corporal com o 'lanzudo' para defender um criatório de galinhas que tinha no sitio.

   Jovino era descendente de portugueses, mas, tinha traços turco-europeu, nariz fino, tez amorenada, estatura mediana. Era o inverso de minha avó Roza, uma doçura, delicada, meiga, uma autêntica descendente de portugueses de Traz-Os-Montes ou do Alentejo. Branquinha, cabelos bem lisos, fofa. 

   Quando meu avô ia à freira livre aos sábados e descia com dois bocapios para comprar açúcar, sal, charutos, charque, etc, na venda de Sâo Manoel Carneiro tomava uns gorós, milone e outros, e subia a praça Miguel Carneiro rumo ao sitio bufando e soltando impropérios. Passava pelo casarão onde nós morávamos sem entrar e quando chegava em casa, Roza colocava pra descansar numa rede.

   Eu quando chegava da escola ia ao fundo do chalé, pulava a cerca, seguia beirando-a com medo das vacas e batia na sua porta pra papear. Conversa de menino com avô é a melhor do mundo porque só brota carinho. Menino tem mais apego com avô. Minha irmã Celeste era mais apegada a minha avó Roza. Até se parecem em comportamento. Calma, tranquila, zen.

   Meu outro avô se chamava João Paes Cardoso filho do Manoel Paes Cardoso e Porcina descendente da quarta geração de Bernardo da Silva e Josefa Maria do Sacramento. Era irmão de Cornélio Paes, Miroró e Jesuina. Tradicional família dos Paes que tem vários ramos em Portugal, em especial Lisboa. Meu avô João tinha uma rocinha e uma moagem de café na área do Largo da Federação (Café Cruzeiro) onde hoje estão a Loja 521, Mercadinho de Eliseu e Móveis Buril.

    Era o inverso de Jovino. Típico descendente de portugueses da cara redonda, bochecha caída pelo tempo, gordinho, pisa macio, educadíssimo. Participava dos movimentos culturais, do comércio e de lazer da cidade, era diretor da Filarmônica 30 de Junho, mas, abominava a política. Vivia a trabalhar diuturnamente no seu Café Cruzeiro, depois passado de pai para filho para tio Aderaldo. Teve cinco filhos: Álvaro, Dalva, Zilda, Aderaldo e Celina. 

    Era, portanto, um cidadão mais da cidade do que do campo e tinha parceiros que, quase todos os dias, jogavam gamão numa área do armazém de café, chamado de Armazém, ou no Bar de Romão, no Beco da Lama. Frequentava os saraus e bailes e casas de amigos e na sede da Prefeitura e foi num desses bailes, animado pela Orquestra Colombo, que meu pai conheceu Zilda (minha mãe) e depois de casaram, em 1939.

   Minha avó materna chama-se Leonor Paes Cardoso (Filhinha), filha de Antônio da Silva (Antônio Doca) e Leonor da Silva, de Água Fria. Parecia mais uma italiana de Abruzzo do que uma descendente de portugueses. Era magra, esbelta, faladeira, elegante, brigona. Ou seja, meus avós paternos eram o oposto em comportamento dos maternos e só se davam socialmente. Uns não frequentavam a casa dos outros. 

   Eu gostava muito de ir no Armazém (assim a gente chamava o Café Cruzeiro) pra brincar em volta das sacas e sentir o aroma do café. E, meu avô - creio que todo avô é assim - sempre me dava uma 'nica' pra comprar um picolé. E também gostava de ir na casa dele (quadra após o atual Banco do Brasil) que ficava numa extensão da Praça Luís Nogueira porque tinha um quintal enorme repleto de mangueiras, mangas espadas deliciosas. E era também o caminho para minha escola primária.

   Menino sabe é de coisa e me lembro como hoje o dia que montei num carneiro no sitio de Jovino/Roza e ele deu foi risada vendo eu cair no terreiro; e noutra passagem, na casa de João/Filhinha quando subi na mangueira numa rapidez impressionante e minha avó gritou: - Desce daí menino pra você não quebrar a cabeça. 

   Que ensinamentos as crianças tiram dos avôs e avós? Essa é a questão essencial. Creio que, no básico, o carinho, o respeito, a admiração. Avôs são diferentes dos pais porque nunca brigam com os netos. Sempre têm um agrado para dar, quer seja um cafuné ou um docinho, e é disso que criança mais gosta. 

   Hoje, tenho lembranças enormes deles. No final dos anos 1950 e na década de 1960 todos partiram para uma nova vida espiritual. A primeira a dar adeus foi Roza. Depois, nos início dos anos 60, João; em 1964, Jovino fechou os olhos; e em 1967, foi a vez de Filhinha. Sepultamentos típicos de uma pequena cidade do interior com velório, orações e ataúdes nas salas das residências.

   É a vida. Uns partem, outros chegam. E vão ficando apenas as lembranças para a gente contar enquanto a memória está ativa.


***A foto acima é da posse da Filarmônica 30 de Junho, de 1931. Meu pai tinha 21 anos de idade e meu avô 40.