sexta-feira, 23 de outubro de 2020
Cultura

LUBI DE SERRINHA HOMENAGEIA NETA COM FEIJÃO E COMENTA PROFECIAS NA ONU

Ainda repercute em nossa aldeia a fala do 'messias, na Assembleia Geral da ONU
Lubi de Serrinha , Bahia | 27/09/2020 às 07:59
Feijão preparado pela Ester
Foto: BJÁ
  O jornalista Tasso Franco publico a 26ª crônica do seu livro "O Lobisomem de Serrinha, a nuvem de fogo e o fim do mundo" sobre comentários de um poeta, um folósofo e ele diante do discurso do 'messias' na ONU e um feijão para Sol, a neta do Lubi, que completou 15 anos. Leia a crônica abaixo e todas as demais no wattpad.

UM POETA, UM FILÓSOFO E O LUBI COMENTAM O QUE SE PASSOU NA ONU E O FEIJÃO PARA SOL

  Estava a confabular com o poeta Serafim Alves no Boteco do Teco e dizia-lhe que não é à toa que chamamos a Serra de Alpes Serrinhenses, dado o clima que se parece muito com o da Suiça. Confessava entre um gole e outro de cerveja que, em tempos idos, quando o aquecimento global ainda não tinha chegado a nossa banda a Ester, minha querida esposa, esquiava no Morro do Fundo durante a temporada de inverno.

  Em instantes, chega o filósofo Pato de Almeida, apaixonado bolsonarista, cumprimentei-o e segui na prosa inteirando-o do que falávamos, explicando que, somente nos distingue dos alpes reais a nossa cultura do Sertão, que é fantástica, com mula sem cabeça e corujão rasga amortalha, mas carregamos nas costas, eternamente, a  pobreza, a pouca sabedoria em letras do nosso povo porque nossas autoridades públicas não gostam de dar uma educação de qualidade, exatamente para manter a gente, a plebe ignara, no cabresto, sustentando-se em oferecer ambulâncias, carros de polícia, borra de asfalto, postos de saúde e não oferecer o fundamental.

  Integra-se na conversa o Almeida, primeiro saudando o santo com uma branquinha das Gerais acordando o palato e depois amaciando-o com uma gelada, interpondo a oração dizendo que as coisas estão se modificando, há mudanças no ar, temos agora um patriota no Goiás velho a comandar.

  Pigarreei depois de solver mais um gole da ‘loura’ e comentei adrede que fiquei satisfeito com o que disse o ‘messias’ na ONU, que combatemos a pandemia como minguem no mundo, que doamos 1.000 dólares a cada brasis pobre, que avançamos...

  Interrompe-me o poeta Serafim arregalando os olhos de boi: - O que significa dizer que, de fato, moramos, de direito, avanços e clima, na Suiça.

  D'Almeida enalteceu: - Nosso ‘messias’ revelou na casa do mundo, no mais alto plenário do universo, que não medimos esforços para preservar a natureza e que as queimadas da Amazônia e o do Pantanal não estão fora de controle como dizem e propagam as ONGs socialistas produzindo uma onda internacional de difamação na área ambiental diante interesse comerciais de outras nações.

  O poeta aquiesceu: Tá certo o ‘messias’, querem o nosso ouro, o amarelo da bandeira, querem levar a nossa riqueza, gratuitamente, nos dando espelhos e miçangas como no tempo de Pedro Álvares Cabral.
Comentei: - Também ouvi que Sua Excelência, disse, aliás, não entendi bem dada a minha rudeza, que somos um país cristão criticando o que chamou de "cristofobia".

  - Ora, meu caro Lubi, se não sabes o que isso significa em sua essência Ele bateu no prego e na ferradura, deu uma direta nos de sempre, os que cheiram ânus em roda cultural, os que negam Cristo e desfilam em momos com imagens picarescas do salvador. Certíssimo o nosso ‘messias’ - assegurou D'Almeida acrescentando com ufanismo: - Nós amamos o Cristo somos destaque na defesa dos direitos humanos dando acolhida aos venezuelanos que fogem do Maduro.

  - É, pois, um humanista, ainda que elogie o Trump, obtemperei.

  - Coisas da política... coisas da política... tem que acender uma vela a todos. Somos vítimas da mais brutal campanha de desinformação, como o bem disse nosso profeta, vês, incendeiam o Pantanal e a Amazônia para nos prejudicar no agronegócio, quando, na real, conservamos as nossas florestas tropicais e temos a matriz energética mais limpa do mundo.

  - Sem dúvida, ironizou o poeta Serafim, estamos além Suiça, quiçá uma Noruega.

  - Haveremos de chegar lá, nosso patriota desembolsou dos cofres nacionais 1 mil dólares para beneficiar 65 milhões de brasis e essa imprensa comprometida com a inverdade, com alardes falsos, não vê, não enaltece esse grande feito.

  Rebati o filósofo dizendo que, no todo, pelas contas do ‘posto Ipiranga’ serão desembolsados R$4.200,00 até dezembro próximo e estando o dólar a R$5,40 ainda falta bastante para atingir 1 mil dólares per capita.

  - Falta, mas, há de chegar. Como dizia nosso amigo e também filósofo Vavá Lomanto 'dinheiro não faltará para os desassistidos' e a diferença sairá adiante, em 2021, pois, num total já se foram bilhões e um bilãozinho a mais; um bilãozinho a menos não fará diferença.

  Papo reto, agradável, encantador, sem fake news, sem contas de chegar, absortos estávamos com as assertivas do D'Almeida quando meu fone vibra e olho a chamado aparecendo na telinha o nome da Ester e um recado sintético: - Sua neta Sol já está a caminho para comer a feijoada.

  Despedi-me dos convivas e disse que tinha um compromisso, inadiável, familiar, a cumprir, um almoço para Sol depois de 6 meses diante da pandemia do coronavirus sem ela visitar-me o que seria um momento especial.

  Antes de chegar na sala, já no alpendre da toca, senti o cheiro do feijão e das carnes em fervura. A Ester tem um tempero inigualável.

  Chega a nossa convidada linda, exuberante, tal uma Baba Yaga, mechas de cabelos vermelhos, lábios pintados em batons preto e rojo, sobrancelhas grossas, cílios em lança, e dou-lhe um forte abraço respeitando os protocolos do nosso alcaide.

  - Estás parecendo uma das nossas ancestrais do Norte gelado, da Transilvânia, do Szalayjka Valley, elogiei.

  - Ora, Vô! são os novos tempos, visto-me e pinto-me de acordo com os nerds, os jovens do mundo.

  - E se vivemos na Suiça como ele anda a alardear, nada mais apropriado, disse a Ester, acrescentando que minha neta não deveria dar-me ouvidos porque eu estava a dialogar com o poeta Serafim, um ‘boca do inferno’ relés, e ao bolsonarista d'Almeida, por conseguinte, impregnado de fakes e malabarismos.

  - Nossa ancestralidade tem mil anos e ninguém perde sua raiz profunda. A beleza que ela carrega em si, esse charme, vem dos alanos, dos hunos, e, modéstia à parte deste que vos fala, elogiei-me passando a mão na fronte.

  - Era só o que faltava querer comparar o vinho alvarinho, novo, cristalino, com esse caco de barril do século XIX, destratou-me a Ester salientando que a continuar o comando de Pindorama do jeito que se encontra, com o feijão a 8 reais e o arroz a 9.9 reais não saberia quando fazer outra feijoada.

   - Não vamos perder tempo em discussões etéreas. Vim aqui para ter alegria na mesa, saborear feijão que tanto adoro, esqueçamos momentaneamente a carestia e a Suiça e vamos brindar a nossa raiz local, da pimenta, das carnes de fumeiro, do pé de porco e do feijão que amo, advertiu Sol. 

  A Ester serviu a mesa com capricho e adoramos a feijoada. A Sol se deliciou. Eu também, comi como um celta. 

  À varanda fomos para uma prosa complementar. Uma rodada de xerez para os adultos e a Ester pitou um half corona hecho a mano de Cuba que lhe presenteou o poeta Mendes do Passé. 

   Nos embebedamos todos. De amor, de alegria, a Ester a soltar corações com a fumaça do cubano.