ter?a-feira, 22 de setembro de 2020
Cultura

NO MEU TEMPO DE MENINO MEU 1º OFICIO FOI APRENDIZ DE TIPÓGRAFO (TF)

Como fiquei nu na praça Luis Nogueira diante de uma brincadeira de Luis Pedroza, o Gatão.
Tasso Franco , da redação em Salvador | 16/09/2020 às 08:49
O Serrinhense de 1950, Rubem Nogueira, Gilka e ao lado dela meu pai, Bráulio Franco, o editor
Foto: BJÁ
   O jornalista Tasso Franco publicou nesta quarta-feira, 16, a 16ª crônica do seu livro "No Meu Tempo de Menino - o último apito do trem", Serrinha (1945/1957) e comenta, hoje, sobre seu primeiro oficio (menor aprendiz) na tipografia de seu pai, O Serrinhense. Leia crônica abaixo e as demais no aplicativo wattpad.

   O SERRRINHENSE FOI ONDE APRENDI MEU PRIMEIRO OFICIO

   Quando eu era menino a loja de meu pai se chamava “Tipografia, Livraria e Papelaria O Serrinhense”, hoje, onde é uma ótica, na Praça Luis Nogueira. 

   Esse nome aparentemente pomposo tinha o seguinte significado: Tipografia é a conjugação de tipo (peça de chumbo usada nas antigas gráficas) e grafia (escrita). Ou seja, tipo que escreve ou casa que produz impressos - livros, jornais, certidões, notas fiscais, etc; Livraria - porque vendia livros didáticos, na época, de Olga Pereira Metting e de literatura, além de dicionários, almanaques, revistas, etc; e Papelaria - porque vendia papéis - oficio, cartolina, talões de recibos, pautado, etc; O Serrinhense, por ser de Serrinha. 

   Todo mundo da região conhecia como "O Serrinhense" porque era a única tipografia da região Nordeste, depois de Feira, e atendia serviços gráficos (notas fiscais) para Coité, Valente, Santaluz, Euclides, Tucano e outros municípios.

   Então, desde criança eu frequentava "O Serrinhense" como menor aprendiz, assim, hoje, denomina-se essa atividade. Naquela época, era uma coisa comum entre as famílias, os pais colocarem os filhos para aprenderem o seu oficio. Ou seja: como em Serrinha, as formações profissionais técnicas e acadêmicas não existiam, só quem podia estudar em Salvador tinha essa oportunidade, a prática era os pais ensinarem a profissão (que se chamava oficio) aos filhos. 

   Eu aprendia o oficio n' O Serrinhense, Cândido na loja de Juca; Ferreirinha na elétrica de Sêo Nozinho; Nilson, na loja de tecidos de Sêo Zé Faustino; Serrador e Zé Potó a vender peças em Sêo Demá; Mariano a aviar receitas populares com Sêo Paulino; e assim, por diante. 

   Mas, é claro, essa regra foi sendo quebrada na medida em que a cidade cresceu anos 1960/1970, abriu-se a BR-116 asfaltada até Salvador e muitos de nós fomos estudar na capital. 

   O que importa é que, quando menino, eu tinha 12 a 14 anos, nas férias escolares: "Você, de tarde, não vai jogar bola. Vai pro ‘O Serrinhense’ me ajudar", dizia meu pai.

   E lá ia eu retado da vida, fazer trabalhos complementares na tipografia - intercalar papéis de notas fiscais, colar talões de recibos, buscar água de beber na casa de minha avó Leonor (Filhinha) etc. E, quando fiquei mais forte, puxava a alavanca da máquina de cortar, a guilhotina da gráfica, e aprendia a ser tipógrafo. 

   Meu pai arrumava os papéis, ajustava no ponto do corte, prensava e liberava a alavanca da máquina e dizia: - Agora, puxe. E eu puxava e a lâmina afiada cortava os papéis. Meu pai recolhia as aparas, a alavanca voltava ao ponto zero, era travada com um cepo e começava tudo de novo.

   O trabalho mais técnico era alcear (intercalar) as folhas impressas das notas fiscais. Naquela época, o talão grande (20x30cm) da NF tinha 4 vias: uma parda (que ficava no talão), uma branca (a nota do cliente), uma amarela (que ia à coletoria fiscal) e uma rosa (do contador) e essas folhas, cada qual tinha uma espessura, sendo a do cliente a de gramatura mais encorpada. A do fisco e a do contador eram de papéis finos, o que exigia mais atenção do impressor e do alceador.

    Detalhe: salvo a nota que ficava no talão (a tipo papel jornal) todas as outras vias eram picotadas numa máquina a pedal, trabalho que eu também fazia, eventualmente. E o picote tinha que ser certo (não podia ficar torto) para fazer os destaques de envios aos clientes, ao contador e a coletoria. Era uma mão de obra infernal. 

   A região não tinha comerciantes de grande porte e a maioria mandava confeccionar entre 5 e 10 talões cada qual com 50 folhas e todas as vias eram numeradas também com numerador (uma maquineta) manual. Ou seja, as folhas brancas, 1,2,3, até 50...de 51 a 100...de 101 a 150...de 151 a 200, etc - e depois eram intercaladas com as outras folhas. Para montar o talão, juntavam as folhas 1-1-1-1 (branca, amarela, rosa, jornal), 2-2-2-2, 3-3-3-3 até 50-50-50-50 e assim por diante. 

   Depois, meu pai vinha e conferia se estava tudo certo e só então produzia o talão primeiro sovelando as folhas (usava-se uma peça chamada sovela (um pino pontiagudo) por onde passava um barbante encerado. Uma espécie de costura do talão. Só depois é que surgiram as colas especiais que substituiu esse trabalho artesanal. 

   No "O Serrinhense", havia um operário, Gilberto Nery que era craque nessa matéria. Chama-se encadernador, profissão, hoje, em extinção, salvo para trabalhos em livros antigos. 

    Depois de confeccionados os talões vinha a parte burocrática. O cliente levava a encomenda e assinava um documento onde assegurava ter recebido cinco talões de NF numerados de 001 a 500, impressos no "O Serrinhense". Meu pai dava entrada na Coletoria Fiscal desse documento e o cliente tinha que levar os talões para serem perfurados. Houve uma época em que também eram selados. Fazia parte do controle do Estado para recolhimento do ICMS.

   Na verdade, "O Serrinhense" era uma pequena indústria e tinha 5 operários - Gilberto Nery, Lafayete Coutinho, Lilito Coutinho, Rafael, Zelito - filho de Sêo Zélis - e Elisa. E era também uma escola porque por lá passaram todos os gráficos antigos da Serra - Agil, Barata e seus irmãos, Pio e outros, Agnaldo, hoje proprietários de gráficas locais.

   Quase todas as máquinas eram manuais. Tinha uma impressora que era acionada por um motor a diesel (fazia uma zoada enorme) através de uma polia num eixo do motor e na roda da máquina. As composições dos textos eram manuais via componedores de aço e postas em chapas. As caixas com os tipos (todo alfabeto e os acentos) obedecia a escola norte-americana.

   Era nessa oficina que meu pai escrevia e publicava o jornal "O Serrinhense", desde 1936. Findou no final da década de 1950.

    Eu curtia também e bastante uma rinha de galos que havia no fundo do Bar Itaúna, época em que briga de galos era legal. Meu pai nunca gostou de jogos, nem futebol, mas, tinha amigos que adoravam briga de galos, como Osório, Romão e Miguel Cotó. 

   Eu ia por curiosidade assistir as brigas dos galos porque não entendia nada dos termos técnicos que os 'galistas' falavam na hora dos embates, dos técnicos dos galos que ajustavam os esporões e borrifavam os contendores a cada round, e vibrava bastante quando via um galo surrando o outro, sangue espirrando na rinha e os 'galistas' exaltados narrando as contendas.

   Eu me mandava pelo fundo da gráfica, pulava o muro e lá ia assistir. Meu pai ficava azedo e perguntava aos 'meninos' (os operários) "vocês viram Tasso por aí". Ninguém cagoetava, mas, sugeria que eu poderia estar na rinha. Meu velho descia por uma porta do reservado do bar de Veloso e me pegava no flagra. "Vamos pra tipografia" gritava e eu ia de cabeça baixa.

   Nunca ouvi meu pai dando um nome feio, uma porra, por exemplo. Jamais. De vez em quando batia em minhas canelas com ripas de madeira que serviam de suporte das resmas de papéis. As resmas vinham de Salvador, importadas até da Alemanha, papéis brancos de 1mx60cm que eram ajustadas (ou amarradas) com essas ripas e tiras de flandres, e que chegavam a Serrinha de trem. 

   Certa ocasião eu estava paquerando uma menina da família Nogueira e quando ia a casa de minha avó buscar água em duas moringas, dava uma parada num oiti da Luís Nogueira e ficava naquele namorico à antiga, só olhando um ao outro de pertinho, de vez em quando dando um beijinho na face e carícias nas mãos.  

   E, numa dessas paradas demorei de chegar na tipografia. Meu velho então perguntou a tia Dalva Paes, que era a caixeira da loja, da Livraria, quanto tempo eu havia saído: - Já tem mais de 1 hora - dizia tia Dalva e ele ia no meu encalço. E lá estava eu no namorico.

   Já viu né, quando cheguei na tipografia, as ripas comeram nas minhas canelas e eu sai gritando pelo meio dos operários e estes morrendo de dar risadas. Daí que Lilito colocou meu apelido de Z..... em referência a tal moçoila dos Nogueira. Não vou dizer o nome dela porque seria indiscreto.

   Abro um parêntese para falar de Tia Dalva. Era irmã de minha mãe Zilda Paes e tinha mais três irmãos, todos moravam na Serra: Celina, Aderaldo e Álvaro. Em matéria de humor ácido, ninguém batia na tia Dalva. Era pior do que Sêo Lunga. 

   Se alguém chegasse na loja e pedisse para trocar uma nota de dez cruzeiros ela respondia: - Aqui não é banco meu filho. Se alguém fosse trocar um livro por algum defeito ela bradava: - Depois que v usou vem querer trocar livro. Troco não. Quando o cliente pechinchava sempre dizia secamente: Não tiro nenhum centavo. 

   Trabalhou com meu pai até a aposentadoria. Nunca casou. Nunca saiu da Serra. E viveu mais de 90 anos de idade, solteirona, turrona e feliz ao seu modo.

   Em outra feita, foi buscar água na casa de minha avó, que ficava onde hoje é a Dep Vip de Nalvinha, enchi as duas moringas, vinha todo faceiro pelo jardim da Luís Nogueira e quando passava em frente ao Cartório de donas Zina e Alice Hortélio, Luís Pedroza (Gatão) veio por detrás e puxou meu short até os pés.  

   Eu só vi o povo no cartório me arreliando, dona Alice e dona Zina em frouxos de risos vendo aquele menino nu, com o pinto balançando, em plena Luís Nogueira, às 3 da tarde.

   Como não ia quebrar as moringas jogando-as no chão para suspender o short, coloquei-as devagar no passeio para não derramar a água, e levantei o short seguindo viagem até "O Serrinhense".