quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Cultura

NO MEU TEMPO DE MENINO: COMO SERRINHA PERDEU A CHANCE DE TER UM PAPA

Virei jornalista e escrevo essas memórias para registro da história da Serrinha onde estudar no Seminário da Federação era valioso
Tasso Franco , da redação em Salvador | 12/09/2020 às 08:16
Representação do Gregório Paes
Foto: Seramov
   O jornalista Tasso Franco publicou neste sábado a 15ª crônica do seu livro No Meu Tempo de Menino (1945/1957) em Serrinha e narra como algumas crianças tinham vontade de estudar no Seminário de Menores da Arquidiocese, de graça e com boa educação, e de como a cidade perdeu a chance de ter um possível papa. Leia abaixo e as demais crônicas no wattpad.
   
   SERRINHA PERDE A CHANCE DE TER UM POSSÍVEL PAPA

   Todo mundo se conhecia no meu tempo de menino. O sapateiro, Sêo Pirulito; o pedreiro, Emílio Danado; o dentista, doutor Palma; o médico, doutor André; o padre, Demórcito Mendes de Barros; o maestro, Azevedo; o cantor, Zé Martins; o alfaiate, Titi Magalhães; o 'falso ao corpo', Eliezer Boca Murcha e assim por diante. 

   A gente sabia o nome dessas pessoas de cor e salteado.

    Quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo de Futebol para o Uruguai, em jogo no Maracanã, em 1950, a gente não teve a menor ideia do que isso representou porque não havia TV, a informação só existia por rádios ondas curtas e pelos serviços de alto falantes. Dias depois, tomamos conhecido (algumas poucas familias) pelo jornal A Tarde que chegava pelo trem da capital e através da revista 'O Cruzeiro'.

   Salvador para nós era o centro do planeta. Era nossa principal referência como uma espécie de lugar civilizado, avançado, e todos meninos queríamos conhecer a capital.

   A gente ficava “doido” para que o padre Demócrito escolhesse um de nós para ir estudar no Seminário Menor da Federação, na capital, uma chance única de ir morar em Salvador com estudo de qualidade, casa e comida de graça.

   O padre só selecionava filhos de famílias católicas frequentadoras da igreja matriz. Minhas chances eram zero porque meu pai era espírita e minha mãe católica não praticante. O padre, no entanto, escolheu amigos meus bem próximos, meu primo João Bosco Paes Gonçalves, filho de Zé Gonçalves e minha tia (segunda) Zulmira; um filho do prefeito Lourinho; Pedro, um menino da família Sancho e Marcelino Santos, sobrinho da professora Edna Santos. 

   Bem que poderia ter sido eu um dos selecionados. Dancei. Desses o mais próximo de mim era Bosco. Baixinho, cara de padre, nariz de padre, lá se foi Bosco para o seminário. Quando retornou a Serrinha nas férias anuais chegou vestido com aquela batina preta cheia de botões, de cima abaixo. 

   Fiquei encantado. E quando ele me contou que, no seminário, tinha um campo de futebol gramado e um jogo chamado ping-pong aí foi que fiquei ainda mais admirado.

   Decidi, então, falar com meu 'velho', amigo do padre, para que o sacerdote me escolhesse para ser padre. Meu pai me olhou de cima para baixo e de baixo para cima e disse: "Você não vai ser padre coisa nenhuma". 

   Naquele momento não tive argumentos para defender meu ponto-de-vista porque filho não contestava os pais, só chorava, mas, vejo hoje que Serrinha perdeu uma chance enorme de ter entre seus filhos um arcebispo, um cardeal, quiçá um papa.

   Já imaginaram Serrinha ter um filho brasis papa? 

   Ora, se o cardeal jesuíta Mário Bergoglio, nascido na Argentina, em 1936, tornou-se papa, nada mais esperançoso de que eu também pudesse ter sido papa.

   Seria a glória para Serrinha. A Rádio Continental certamente anunciaria: - O Vaticano acaba de anunciar que o novo papa é o arcebispo primaz da Bahia, cardeal Paes Franco, nascido aqui em nossa cidade, no antigo Largo da Usina, por coincidência, hoje, conhecido como Praça da Catedral". 

    Eu marcaria logo uma viagem papal para Serrinha e tenho certeza que seria recebido com todas as honras, recepcionado na entrada da cidade e seguiria em cortejo via Praça Morena Bela até a Matriz de Sant'Anna onde oraria no altar de São Joaquim, avô de Jesus.

   E, claro receberia de braços abertos as filhas de Maria, as Irmãs do Apostolado do Campo Redondo, as senhoras da Irmandade de Santo Antônio da Chapada e delegações de toda região diocesana, além do digníssimo prefeito, de uma representação da gloriosa Câmara de Vereadores e da diretoria da Filarmônica 30 de Junho.

   Infelizmente, meu desejo não foi concretizado e tornei-me jornalista e escritor.

   Daquela turma que o padre Demócrito levou para Salvador nos idos dos anos 1950 os seminaristas foram ficando adolescentes e as posições se inverteram quando eles retornavam de férias a Serrinha, nós, também já pré-adolescentes paquerando as meninas que ficavam desfilando no jardim da Praça Luís Nogueira, fumando um cigarrinho, tomando uma cervejinha, dando uns beijinhos nas coleguinhas, e todos eles abandonaram as batinas.

   Salvo engano, dessa temporada, só o filho de Sêo Adroaldo, um ferroviário da Leste, ordenou-se padre e foi pároco da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, mas, também se enamorou de uma filha de yemanjá e casou-se. 

   O padre Demócrito trabalhou muito para tornar Serrinha uma Diocese – sonho do padre Carlos – e ergueu a Igreja Nova, hoje, catedral. Morreu na década de 1980 antes de concretizar esse sonho. Viveu seus últimos tempos na terra desolado, deprimido, porque perdera a titularidade da paróquia diante de uma briga política.

   A Diocese só nasceu em 2005 através da bula “Christi Mandato”, do papa Bento XVI, sendo indicado como seu primeiro bispo, o italiano dom Ottorino Assolari, CFS - Congregação da Sagrada Família - ainda hoje seu titular.

   Meu primo Bosco formou-se em contabilidade pela Cayru e casou-se com uma baiana de Salvador, dona Vanete, com quem tem três filhos, e, hoje, aos 77 anos de idade, tem vários netinhos.

   E, eu, quase futuro papa Gregório Paes (este seria meu nome predileto) escrevendo essas linhas para vocês. Abençoo a todos.