quinta-feira, 13 de agosto de 2020
Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA O ROMANTISMO DE EÇA DE QUEIROZ EM "OS MAIAS"

Fantástico é pouco para classificar esse romance. Dos melhores que conheço.
Rosa de Lima , Bahia | 31/07/2020 às 09:59
Considerado o melhor romance da língua portuguesa, em Portiugal
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   Em e-book uma nova edição de "Os Maias", de Eça de Queiroz (Martin Claret, 681 páginas, R$38,00, também versão online kindle) traz à luz da leitura e de novas interpretações o estilo literário conhecido como romantismo clássico, meados do século XIX  e primeiras décadas do XX, sem flertar com o realismo, que também surgiu em 1857, com a obra de Gustave Flaubert; e o naturalismo de Émile Zola, 1867, com a publicação de "Thérèse Raquin". No Brasil, nessa época, despontava a literatura de Machado de Assis, com Dom Casmurro e outros, este fundador da Academia de Letras.

   Eça é brilhante, um romântico nato, de linguagem rebuscada, própria desse estilo, que para citar um par de flores num jarro tinha que descrevê-las em minúcias o perfume, a tonalidade, o viço, a beleza que seduzia uma donzela. Os românticos eram também realistas embora usassem formas escultóricas no tratamento das palavras e das expressões enquanto a escola realista era mais objetiva. Há, no entanto, quem aprecie mais o romantismo, exatamente por esses floreios em linguagens, e, recentemente, obras de Machado de Assis que foram publicadas nos Estados Unidos se esgotaram rapidamente.

  Ler Eça dá-nos um imenso prazer. Além dele situar Portugal e sua sociedade no século XIX, em particular Lisboa diante de uma Corte decadente, e uma burguesia enluvada, pedante e relés, os portugueses endinheirados se miravam na França e na Inglaterra, tanto em viagens como em cultura para se ilustrarem. Fenômeno que também herdamos no Brasil em achar que lugares civilizados, com cultura top de linha e glamour, eram Paris e Londres, sendo Lisboa uma província de pouco saber, decadente, com ares de mudanças para um sistema liberal e republicano, que aconteceria de fato, em 1910. A essa época, o escritor completando dez anos de morto.

  Eça é propositadamente contraditório para mostrar que em Lisboa também havia cultura, havia alma, havia saber no Grêmio, nos teatros, nos cafés, no saraus em hotéis e residências, nos debates entre gente culta, e ao mesmo tempo colocava essa mesma gente culta a com títulos nobiliárquicos a imitar os franceses e ingleses, a ridicularizá-los. Uma descrição de uma corrida de cavalos que faz num jockey de Portugal com a presença da família real e das senhoras emplumadas e senhores de casaca à imitação de Londres é fantástica, de alto nível de ironia.

  O escritor português filho de um brasileiro que estudou em Coimbra e de uma portuguesa, bem nascido, bem vivido, culto, boêmio, intelectual, diplomata, de uma escrita sublime tanto que o seu romance "Os Maias" é considerado a obra prima do gênero em Portugal, faz algumas citações em inglês e francês, línguas que dominava, e que eram próprias em uso nos salões portugueses aveludados dessa época.

  E a história de "Os Mais" uma família aristocrata de Portugal com casa na capital, quinta nos arredores e veraneios em Sintra registra um drama em amores do filho do patriarca que se suicida após casar-se com uma aventureira de alcova, foge com um italiano perfeito em beleza e leva consigo um filho neto do patriarca e mais adiante terá uma filha com Mastroianni rufião. Quis o destino que esse menino volte a Portugal após a morte da mãe e fique aos cuidados do patriarca, um homem riquíssimo, de princípios educacionais rígidos, zelo e cuidados com a cultura.

  Forma-se em medicina, em Coimbra, e volta para Lisboa a viver no "Ramalhete", a casa símbolo do romance, enquanto o patriarca seguia em sua quinta a desfrutar da velhice, dos charutos, dos vinhos e das conversas com os amigos. Este personagem, de nome Carlos, põe consultório dos mais elegantes em Lisboa, de fino gosto em decoração, e um laboratório onde faria experiências médicas sensacionais, mas, vive a sonhar em outros mundo com amigos, um poeta de nome Ega, um maestro, um financista, um jornalista espertalhão e seus criado, cama, sexo, vinhos, champagnes e projetos literários irrealizáveis.

  No decorrer dos anos, Carlos se apaixona por uma governanta que se instala no Largo do São Francisco, uma mulher belíssima e misteriosa, e que as intrigas jornalistas panfletárias da época revelam ser sua irmã, justo quando estava louco de amores, praticava o incesto sem saber e prometia levá-la ao altar e a uma viagem a Itália, idílica, londe de Lisboa futriqueira onde havia uma imprensa escrita poderosa, foletinhescas, em especial a "Corneta do Diabo".

  Carlos também se envolve com uma condessa devassa e fogosa cujo marido só pensava em ascender ao poder e nada lhe oferecia na cama, tudo o que queria e achava com o Maia pimpão. O romance põe em cena as questões essenciais dessa época: a moral, a honra em duelo, a intriga, os costumes, o comportamento monastério e bajulatório de membros da igreja, a Corte esfarrapada e devassa. 

  Um mestre das letras, perfeito no detalhar os acontecimentos, com linguagem acurada mas também próxima e reveladora do que acontecia nas ruas de Lisboa, na Havanesa, no Gremio, no Aterro, nas conversas com seus amigos, e que representavam sinais de mudanças da sociedade, muitos dos quais, os patéticos homens de casada e as madames com suas lunetas de ouro não percebiam. Ou se percebiam, queriam manter a sociedade dessa forma, muitos aos seus pés.

  Eça sofreu a censura da igreja, do governo e até dos leitores pois tratava de temas até então encobertos em Portugal como o incesto, as relações adúlteras, o celibato clerical, os costumes da aristocracia decadente, a pequena burguesia emergente, a vida do seu país com um novo olhar.

  Um dos personagens, Ega, que é o principal conselheiro de Carlos, poeta, escritor de uma obra sobre o Átomo que nunca tinha fim, um boêmio, ‘bom-vivant’, curtidor de Sintra, da boa mesa e da cama com madames, em tese, representa a própria personalidade do autor que enxergava Portugal com novas lentes, via movimentos sociais em evolução, destilava ironia em todas as direções, mas, preservava o Portugal que amava enaltecendo as quintas, o seu frescor, a sociedade em que frequenta. 

  E deu rumos finais ao romance sem que houve tragicidade em excesso, até evitou um duelo que parecia previsível entre o neto do patriarca de um fofoqueiro paroquial contumaz optando pelas letras, por um pedido de desculpas em carta humilhante, e pondo um final feliz no romance a irmã sem que houvesse um drama maior, como se a sociedade tivesse absorvido todo o enredo.

  Fantástico é pouco para classificar esse romance. Dos melhores que conheço.