quinta-feira, 13 de agosto de 2020
Cultura

LUBI NARRA TEMPO DA LIBERDADE E DE INAUGURAÇÃO DA PRAÇA LUÍS NOGUEIRA

Esta é a 16ª crônica do livro Lobisomem de Serrinha e a nuvem de fogo. Leia todas as crônicas no wattpad.
Lubi de Serrinha , da redação em Salvador | 19/07/2020 às 08:43
Inauguração da Praça Luis Nogueira
Foto: ARQUIVO
   O jornalista Tasso Franco publicou neste domingo, 19, no wattpad a 16ª crônica em seu livro Lobisomem de Serrinha, a nuvem de fogo e o fim do mundo intitulada a inauguração da Praça Luis Nogueira, vide abaixo. As demais crônicas você ler de graça no wattpad.

LOBISOMEM NARRA TEMPO DA LIBERDADE E DE INAUGURAÇÃO DA PRAÇA NOGUEIRA


Estamos todos dominados. É um fato. Por decreto governamental vivenciamos no decorrer da semana em nossa aldeia o toque de recolher militar entre às 18h e às 5h, que se finda hoje quando os sinos da matriz de Sant'Anna badalarem a meia noite.

 Momento especial em hora de nossa deusa Lua, que nos rege, que nos comanda, visto que, nós humanos que temos a capacidade de nos transformar em lobos, licantropos, chamados pelos sapiens de lobisomens, eu, próprio, por amor a essa terra onde vivo há 210 anos, adotei o carinhoso nome de Lobisomem de Serrinha, comando alcateia que vai do Tucano a Feira, com os penedões e os colberzões, e ramificações que vão do Coié a Biritingas, com os araujões e maturões.

E mais os cedrazões do Valente, os britões do Pombal, os pinhões do Araci, os Lapões do Quinjingue, uma comunidade grandiosa que promove nossa reunião anual, assim como fazem os meninos do Encontro dos Amigos de Serrinha, em restaurante da Orla Atlântica de Salvador, na Floresta Encantada do João Vieira, mata escura e densa do Araci, onde nos confraternizamos com saudações monásticas, concurso e disputa de uivos entre os meninos, desfile de nossas jovens misses em passarela ornada com orquídeas e tudo mais o que temos direito em champagne, salão estrelar, ruas que a ele chegam ornadas com candelabros da Turquia e velas de 7 chakras e outras tantas perfumadas, veludos azuis da Índia ornando árvores, távolas redondas em jacarandá, poltronas de espaldar altos como a dos monarcas do reino de Aragão, tudo em louvor a nossa deusa a mãe Lua.

Pois dito assim, nesses anos todos da Serrinha, eu que estive presente na inauguração da Praça Luís Nogueira, em 1917, envergando o meu melhor linho inglês, um panamá de fios pequenos trançados em x dos mais valiosos, gravata em verde folha, alfinete a altura do esterno a destacar a polidez do brilhante, lenço de seda a desprender do jaquetão, relógio de bolso Patek Philippe com cordão de ouro na algibeira a estender visto à altura do quadril; e dona Ester Loura linda num vermelho púrpura em tule francesa, chale em cashemere, saltos a Luís XV, o melhor em vitrine que havia no Ciclamen, chapéu a Elizabeth I com penacho de faisão, sombrinha inglesa à moda vitoriana que importara de Londres, hoje, muito usada pela princesa da Cornualha esposa em segunda núpcias do Charles, com curvatura mínima e rendas delgadas para cobrir de réstias do sol, mas, deixar a sua beleza e elegância à luz do dia.

Diríamos que chamamos a atenção por nossa elegância, não que os outros estivessem desengraçados, desgraciosos, pois, na Serrinha daquela época a moda era europeia, à ricos, à pobres, à remediados, as madames viviam em altos com passadas de cisne, mesmo nas ruas, usavam luvas de pelica ao primeiro sinal da garoa campestre, os homens viviam no linho branco engomando a gemas de ovos, picinês e lupas de ouro para olhar uns aos outros mais de perto.

 

 Por posto, ao nosso lado estava o casal Simões Carneiro, ele conselheiro municipal, Dom Américo, e sua esposa Ordália, belíssima num azul turquesa de encantar um emir, colar no colo onde se destacava um rubi num rosa magenta persa a incendiar olhares, ela que era chamada carinhosamente de condessa Simões y Alba, de descendência espanhola de Valencia, estirpe nobre de Jaime I; adiante, o casal Leobino Cardoso Ribeiro, famoso farmacêutico, ele, em risca de giz, sapatos de bicos finos emoldurados com  polainas em verniz negro, impecável; e mais adiante três ou quatro passos, o casal Benjamin de Carvalho, a senhora Aureliana, a duquesa da Bela Vista, a retirar sua luneta de ouro para ver mais de perto o alcaide Luís descerrar a placa de dada por inaugurada a praça, que era ornada em beleza e luxo, a mais imponente do interior da Bahia rivalizando com a praça de Santo Amaro, só perdendo em grandeza para o Campo Grande de Salvador, um projeto dos nossos homens em artes, Francisco Wenceslau da Silva e Ascendino Pereira, urbanistas serrinhenses que à moda Paris instalaram portões de entrada e saída à praça e postes com globos de iluminação a acetileno, o que havia de mais moderno no mundo.

Em destaque ruas ornadas de antulhos, rosas arbustivas da Colombia, gerânios e eucalíptos anões, chafarizes e uma boca de jacaré que jorrava água, um prodígio, visto que bombeada do Tanque das Abóboras que distava da praça mais de 1 km, em aclive, até o topo da Praça da Praça Miguel Carneiro, e depois descia em canos de chumbo como a correr num rio submerso aos que existem na península de Yucatã, no México, para jorrar nos chafarizes da praça, aquele jacaré com a boca aberta e os meninos a colocar as mãos embaixo dos jorros d'água, maravilhados.

Poderia também citar que participei nesta aldeia, a chegada da ‘Chemin de Fer’ que nos igualou a Chicago, uma estação de passageiro em gare com luxo e serviços assemelhados a Londres, monitores dos trens fardados portando gravatas e quepis; a inauguração do Hotel da Leste; a inauguração do Mercado Municipal que tanto nos serviu e foi posto ao chão pela incúria; a inauguração da Energia Elétrica e da BR-116 Norte com doutor Andreazza e muitos outros eventos grandiosos que engalanaram nossa urbe.

Ah! Serrinha, que fizeram a ti? Tempos em que se ouvia Chopin, lia-se Émile Zola e recitava-se nas ruas os poemas dos lakistas ingleses! Hoje, reina o silêncio e quando se vai a Morena Bela ouve-se pagodes e versos do tá-tá-tá!

Vejo-me, agora, trancado, preso no meu sitio e ainda louvo a Deus por tê-lo, no bairro hoje chamado Oseas, nos arredores da Rua da Rodagem, rodovia que se alonga até Pernambuco, do Ana Oliveira que que é uma escola de saber em segundo grau, do bairro das Abóboras, donde posso ver em pé na minha varanda a torre da catedral basílica na praça da Usina, mas, não posso sair, pois, se assim fizer, mesmo em horário fora do toque de recolher, estaria arriscado a ser colhido pelo 'Cata Véio' e levado em carreta até o Cooprim lá para as bandas da área do antigo candomblé de Mané Perna Torta, um dos maiores e melhores mecânicos de autos que esta terra já teve.

Como sou obediente e respeitoso as leis fico com a minha Ester, minhas vaquinhas, meia dúzia de cabras orelhudas boer, minhas saqués, meus aipins que floram da terra, batatas que engordam raízes a primeira chuva de São José, cenouras que cultivo em leira irrigada, ovos da pequena granja com pedrezes, queijos artesanais que produzo, mudas de café que trouxe das Gerais e uso pilões de madeira para moer os grãos e nada nos falta graças do bom Deus. 

Muitos imaginam que, como nos tempos outros, do medievo, da antiguidade, nós, os lubis, tínhamos o poder de nos transformar para furtar galinhas e sangrar carneiros alheios para o nosso alimento. Confesso, sem pejo de arrependimento, que eu mesmo fiz isso no século XIX, numa época de seca prolongada, sem dias em ganhos pecuniários a laborar, comendo umas poucas frangas do finado Hortélio e uns cabritos do João Barbosa, que, tão rico em terras e gado, nem sentia falta.

Hoje, e há muito tempo, estamos completamente integrados à sociedade e só nos transformamos em momentos especiais, em nossos festejos íntimos, em exibições familiares, na reverência a nossa Deusa Lua e em alguns momentos de sexo para que a casa trema.

Mas, fora disso, nada. Frequento a catedral com o beato Tonho Juza; voto na minha sessão no Ana Oliveira como votava o finado Arnaldão pintor; consulto-me com Adelson, na Farmácia Mercês, como faz meia Serrinha dos pobres; compro meu pão na Baluarte, meus beijus em Danda, meus temperos em mãos das filhas de Teófila, e quando Ester deseja uma feira mais nobre vamos ao Assaí, e uma feira de miúdos, de pouca monta, um tempero que falta, um molho, esticamos até o Baratão do Queiroz, ao Eliseu ou a uma bodega sortida que há perto da casa do finado Netinho Bacelar.  

A Ester ora todos os dias pelo fim da pandemia do coronavirus. Seu terço está roliço de tanto passar os dedos nas contas. Eu, de minha parte, não opino. Não vejo isso como uma predestinação dos céus, nem como dizem os kardecistas um castigo para purificar espíritos. Não recomendo a cloroquina como faz o messias, até porque não tenho a quem recomendar nem alisei os bancos da Católica Bahiana em Medicina, nem abomino quem a queira experimentar. 

Tantos são os experimentos e vacinas que vemos nos portais da internet, na Rússia, na China, na Alemanha, nos EUA, que é melhor esperar esses graúdos em ciência resolverem a questão e não nós, os serrinhas, que sequer temos um laboratório de pequeno peso cientifico.

Sigo, pois, o poeta Serafim Alves, que, soube, anda a recitar no Beco da Covid a estrofe em epígrafe: A pandemia do coronga vai cessar, anuncia a ciência em vacina/ Não tem chá de pau de rato, nem folha de alecrim que acabe essa chacina/ Quando a gripe espanhola matou milhões, não havia penicilina/  Sigam o conselho deste poeta, que vos fala em verso, esperem a vacina/ Remédio popular só é bom para urinar/A pandemia vai passar, a vida passa num passar.