ter?a-feira, 11 de agosto de 2020
Cultura

AMENDOEIRAS DA SOARES LOPES, EM ILHÉUS, LÁ SE FORAM, por WALIR ROSÁRIO

Radialista, jornalista e advogado.
Walmir Rosário , Bahia | 11/07/2020 às 19:15
Motoserras em ação
Foto:
  A exemplo de outros municípios, Ilhéus não atravessa um período dos melhores. As causas são diversas, a começar pela falta da entrega de serviços públicos à população nos mais variados setores, incluindo, aí, os essenciais. Apesar do governo do Estado montar um gabinete avançado na cidade e entregue a ponte, os problemas locais estão longe de serem sanados. Como se não bastassem, ainda vêm as amendoeiras atazanarem.

  E olha que não se trata de uma simples amendoeira (Terminalia catappa, maioria delas), planta exótica que compõem a paisagem de centenas de cidades brasileiras, como se daqui fossem. São as amendoeiras da avenida Soares Lopes, ainda hoje considerada como uma ou a mais importante via da cidade, em frente a mais famosa praia ilheense de tempos passados, embora desprezada pelos ocupantes do governo municipal.

   Sem dó nem piedade, machados, motosserras, facões, sei lá mais que outros instrumentos derrubaram as amendoeiras de tantos anos. Pra mim, mesmo desconhecedor das ciências agronômicas e biológicas, foram cometidos dois crimes: um ao plantar amendoeiras na área urbana e outro ao derrubá-las sem a anterior substituição, causando irreparável prejuízo à fauna.

   Sim, além da flora, a fauna. Mesmo os que não se engajam diretamente na luta em favor do meio ambiente não deve ter se sentido bem ao ver as imagens do despejo patrocinado pelo governo Marão às milhares de aves – pássaros – que habitam as amendoeiras. Notem que estou tendo todo o cuidado para não falar disparates e acusar – injustamente – agentes do governo pelo que deixaram de fazer.

   Sem ter onde morar, os pássaros despejados dos seus lares foram abrigar-se nas janelas dos edifícios próximos, locais totalmente impróprios para recomeçarem suas vidas. E pergunto, já que estou de longe: E os ninhos existentes nas amendoeiras foram socorridos pela equipe da Secretaria Municipal do Meio Ambiente? Pelo que saiba, não. A preocupação maior era mesmo demonstrar que fizeram tudo dentro da legalidade.

   Pra mim, essa defesa é altamente temerária e não terá o condão de desviar o olhar do Ministério Público, já que existe um protocolo (palavra que virou moda) a seguir, obedecendo todos um processo. Na verdade, a defesa do governo Marão representa uma confissão explicita do crime, por se tratar de uma instituição pública, que deverá fazer estritamente o que está na legislação.

   De acordo com a nota nem tão explicativa, o processo de licenciamento ambiental teve início em 2015, por conta do complexo viário da ponte Jorge Amado. Em 2018 – três anos após – a Secretaria de Infraestrutura do Governo do Estado da Bahia requer “a supressão dessas árvores dentro do processo de licenciamento correspondente”, e dois anos depois as amendoeiras são cortadas.

   Foram consumidos cinco anos de estudos e cinco minutos para a ordem da destruição da flora e da fauna, numa processo no mínimo imprevidente, pois não atentou para os devidos cuidados. Pecou no tema político, se afundou na técnica. A mesma prefeitura que tem a responsabilidade de disciplinar também tem o poder de executar. Em outras palavras, a mão que afaga é a mesma que apedreja.

   Alguns poderão dizer que são secretarias diferentes: uma do Meio Ambiente, outra da Infraestrutura, ambas com atribuições e conceitos diferentes. Enquanto a primeira tem que defender o meio ambiente, a segunda reclama dos efeitos – perversos, para ela – das amendoeiras sobre equipamentos públicos importantes, como a rede de esgotamento sanitário e pluvial, pavimentação e alicerces.

   Sendo a Prefeitura um único ente, os interesses das partes – secretarias – deveriam ser debatidos e dirimidos pelo todo, após a eliminação dos conflitos internos, quem sabe até com autoridade do prefeito? Em vez de trilhar pelo caminho do entendimento, o governo prefere demonstrar seu poder, de forma errada, com incúria, negligência. Quem irá recompor os prejuízos?

   Uma análise superficial basta para confirmar os desencontros da administração municipal para solucionar os problemas mais simples, como o corte de árvores exóticas, que poderiam ser substituídas por espécies da Mata Atlântica, dentre as mais apropriadas para a área urbana. Ao que sempre deixa transparecer, falta planejamento, integração, liderança ao (des)governo Marão.

   Um problema que para muitos parece nanico e sem motivos para tanta repercussão, na verdade foi apenas e tão somente a gota d’água no caldeirão da discórdia reinante na administração municipal, onde cada um tem seu feudo impenetrável. O que sobra de gerentes desfalca na liderança. Enquanto isso, em Ilhéus fica cada vez mais difícil manter a qualidade de vida, até para os pássaros.