sexta-feira, 14 de agosto de 2020
Cultura

PANDEMIA TERÁ PREÇO POLÍTICO A SER COBRADO, por SAMUELITA SANTANA

Samuelita Santana é jornalista
Samuelita Santana , da redação em Salvador | 03/07/2020 às 09:11
Números não param de crescer
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   Em que pese a natureza corrupta de algumas gestões - estaduais e municipais - que mesmo em meio a uma assombrosa pandemia decidiram de forma vil, chocante e vergonhosa, fraudar a compra de equipamentos essenciais para o salvamento de vidas - a exemplo dos respiradores -, ignorando por completo o aumento de mortes que isso poderia causar - e  efetivamente causou -, além dos milhões em prejuízos aos cofres públicos, não podemos esquecer nem perder de vista que o governo federal, em sua marcha negacionista contra a gravidade da Covid-19, será visto por boa parte da população como o grande responsável pela tragédia que se abate sobre o Brasil. 

   Os governadores, prefeitos e agentes públicos que atuaram de forma tão torpe para encher suas burras bancárias de recursos públicos, verbas especialmente destinadas a socorrer a população nesse momento de infortúnio e gravíssimo desastre sanitário, seguramente vão amargar o ônus das suas ações lesivas e nefastas. Vão empurrar suas trajetórias políticas para o poço da história do Brasil. E, ao continuar fazendo cara de paisagem aos milhares de enterros que passam, o presidente Jair Bolsonaro poderá ver recair sobre os ombros do seu futuro político o ultrajoso gráfico dessa pandemia.
  
   Com inacreditáveis 62 mil mortos e mais de 1,4 milhões de infectados, o Brasil é o segundo país mais atingido pelo vírus, perdendo apenas para os EUA que registraram, até aqui, 125,7 mil mortes e mais de 2,5 milhões de contaminados.

    Não por coincidência, os dois presidentes - Trump e Bolsonaro - recusaram-se inicialmente a enfrentar com a urgência adequada a pandemia, tratando com deboches, piadinhas e negações a letalidade do novo coronavírus. 

  As lamentáveis posturas presidenciais tinham o propósito, na certa, de mostrar duas "feras" sem "medinho" de nada. E, seguramente, sem demonstrar compromisso com a vida das suas populações.

   O resultado catastrófico, sombrio e tenebroso que se seguiu, não poderia ser diferente. Como também, não foi diferente o que aconteceu no Reino Unido de Boris Johnson, o terceiro país mais atingido no mundo com 43.550 mortes e 311,1 mil casos confirmados. A Rússia, apesar de ter mais de 600 mil infectados, tem número de mortes bem menor: 9.166.

   Depois de testar positivo para o Covid e ver de perto a cara da morte, o primeiro-ministro britânico recuou das "gracinhas" e de resistir às medidas sanitárias recomendadas pelas comunidades científicas. 

  Assim como Trump, Boris Johnson decidiu acatar os protocolos de combate ao vírus, adotando no país as regras do isolamento social, embora tardiamente. O que custou aos dois mandatários o ônus das terríveis estatísticas que a doença causou e que agora farão parte da história de seus governos.

   Mesmo do topo do ranking da Covid-19, com números estratosféricos, Trump até hoje não dá muita bola para a severidade do contágio e letalidade do vírus. Não à toa, os números nos EUA não param de crescer. Em apenas 13 dos 50 estados americanos os números reduziram, a exemplo de Nova Iorque, cidade que adotou um isolamento rigoroso e conseguiu controlar o avanço da doença. 

  Nas demais regiões a situação continua dramática e 12 estados que haviam flexibilizado o isolamento, agora recuam no plano de reabertura e impõem novas restrições. No mundo já são 500 mil mortos e mais de 10 milhões de casos confirmados. Apenas dois países ultrapassaram 1 milhão de infectados: Estados Unidos e Brasil. Mera coincidência? Não! Não mesmo! Descaso, negligência, irresponsabilidade. Só nas 24 horas desse domingo, 28, para segunda-feira, 29, o Brasil registrou 25,2 mil infectados. Num único dia. O número de mortos pela doença no país já representa 11% do total no mundo.

   Portaria dos 100 dias

    Mas, ao que parece, a máxima de que só os acontecimentos podem fazer com que um governo mude de rumo, não funcionou em momento algum aqui no Brasil, mesmo tardiamente, como aconteceu nos EUA e no Reino Unido. Sem recuar um centímetro da sua narrativa inicial de que "todo mundo vai morrer um dia" e que a "economia não pode esperar" , o presidente Bolsonaro tenta imputar culpas aos gestores estaduais e municipais que, diante da absoluta ausência de coordenação e  estratégias de enfrentamento à pandemia pelo governo federal, tomaram as rédeas para conter o avanço do vírus, com o aval do STF. 

   Mais que necessário, diante de tamanha insanidade. Ainda assim, a sabotagem do presidente às iniciativas estaduais não foi pequena e incluiu o estímulo à aglomeração e a volta das pessoas às ruas. O estrago está bem aí. Visível, enlutando famílias e enterrando milhares de histórias.

   Como não ser julgado por essa tragédia? Não existe essa possibilidade. O presidente Bolsonaro deverá ser sentenciado, sim, e obrigado a levar essa marca cataclísmica em sua história política. Não há como desconsiderar que só quando se completou exatos 100 dias desde que a Organização Mundial da Saúde - OMS avisou ao mundo que havia uma pandemia instalada, e quando o país já amargava o mórbido número de 1.000 mortes diárias pela Covid-19, o governo brasileiro, através do Ministério da Saúde, pela primeira vez, decidiu oficializar "orientações gerais"  para  a população seguir de forma a "prevenir, controlar e mitigar" a transmissão do coronavírus. 100 dias depois de a pandemia ser anunciada. Sério isso?  

   Quando as 47 "recomendações" foram apresentadas pelo ministro-general Eduardo Pazuello, por meio da Portaria nº 1.565, de 18 de junho de 2020, o Brasil já acumulava 50 mil mortos e mais de 1 milhão de infectados. Com um detalhe ainda mais sórdido: o documento deixa claro que não estimula o isolamento social, nem a quarentena, mas a retomada segura das atividades e do convívio social (tsc). E sem esquecer de frisar no texto que o confinamento pode provocar "adoecimento mental" e que a volta ao trabalho e à interação social contribui para promover a saúde mental das pessoas.