ter?a-feira, 07 de julho de 2020
Cultura

IGREJA DE N.S. DE BELÉM ONDE REPOUSAM CAMÕES E FERNANDO PESSOA, p (TF)

É a 20ª crônica do livro de TF Lisboa como você nunca viu, a Pensão do Amor no wattpad
Tasso Franco , da redação em Salvador | 30/05/2020 às 11:10
Igreja em estilo gótico português tardio
Foto: BJÁ
O jornalista Tasso Franco publicou neste sábado,a 20ª crônica em seu livro Lisboa como você nunca viu, a Pensão do Amor no wattpad e narra a história da Igreja de Nossa Senhora de Belém, em Jerónimos.

Veja abaixo: IGREJA DE SANTA MARIA DE BELÉM ONDE RESPOUSAM CAMÕES E FERNANDO PESSOA

 
  A igreja de Santa Maria de Belém no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, integra o conjunto do monumento, mas, é praticamente espaço à parte com entrada gratuita. Erguida com planta em cruz latina e três naves é um dos templos católicos da capital mais representativo da pujança portuguesa no século XVI, época do "Venturoso" rei Dom Manuel I.

 Quando se entra no templo, um dos mais belos da cidade por sua arquitetura em gótico português tardio e manuelino flamejante (escultórico), por sua importância histórica e por servir de túmulo a personalidades valorosas da memória política e cultural de Portugal - reis, navegadores e escritores - encanta qualquer visitante. Portugal valoriza muito seus ex-soberanos, navegadores conquistadores dos mares e dos novos mundos, artistas da azulejaria, dos pincéis e das letras. 

  Logo na entrada à direita está o túmulo de Luiz Vaz de Camões o poeta da epopeia dos navegadores, obra do Costa Mota, erguida no século XIX, com a figura em mármore do escritor esculpida sobre o túmulo. Há dúvidas, após o terremoto de 1755 quando os restos mortais do poeta foram soterrados na igreja de Sant'Anna, se são os deles achados nos escombros anos depois e postos em Jerónimos. 

   Abro um pequeno parêntesis para falar de Camões. Figura das mais polêmicas, militar e poeta, viveu entre 1524 e 1580, entre os reinados de Dom João III e Dom Sebastião, dois reis de forte ligação com a Bahia, o primeiro por ter fundado a cidade do Salvador, em 1549, e o segundo porque ao morrer na África, na Batalha de Alcácer Quiber, criou-se uma lenda em torno dele de que estaria vivo e voltaria a Portugal, daí surgindo o sebastianismo e o messianismo no Brasil. Entre os mais famosos messias brasis está Antônio Conselheiro e a sua guerra em Canudos.

   Camões iniciou sua carreira como poeta lírico no reinado de dom João III. Personagem da pequena nobreza teria se envolvido com muitas mulheres da corte, em versos e na cama. Diante iminente escândalo, autoexilou-se na África alistando-se como soldado. Participou de guerras, perdeu um olho e por volta de 1555 começou a escrever sua obra prima "Os Lusíadas". Retornou a Portugal em 1570 a partir de uma viagem longa e arriscada da distante Moçambique.

   Em 1572, apresentou em récitas sua obra a Dom Sebastião que a aprovou. Imaginem vocês como esse obstinado militar e poeta conseguiu preservar a arca com essa obra que contém 8.816 versos decassílabos, 1.102 estrofes. Escrever em decassílabo é para poucos (versos em dez linhas ou estrofes) lembrando que ele esteve em Goa e participou de guerras na África. O certo é que, quando retornou a Lisboa, trouxe consigo o baú dos versos numa enorme arca.

"Os Lusíadas" é considerada a epopeia portuguesa. Épico da época moderna que narra a história de Vasco da Gama e dos portugueses que navegaram em torno do Cabo da Boa Esperança, a nova rota para a Índia. Os cantos III, IV e V contém o episódio de Inês de Castro, que se tornou um símbolo de amor e morte, a batalha de Aljubarrota, a visão de dom Manuel I, a descrição do fogo de Santelmo e a história do gigante Adamastor. 

  O poema abre com o célebre verso: As armas e os barões assinalados/ Que, da ocidente praia lusitana,/Por mares nunca navegados/ Passaram além de Taprobana,/ Em perigos e guerras esforçados,/Mais do que prometia a força humana,/E entre gente remota edificaram/Novo reino, que tanto sublimaram/ .....Cantando espalharei por toda a parte,/Se a tanto me ajudar o engenho e arte (Canto 1)

  Voltemos a igreja de Nossa Senhora de Belém. Adiante, também à direita, encontra-se o túmulo do poeta Fernando Pessoa emoldurado numa capela. Pessoa morreu aos 47 anos e seu corpo transladado em 1985 para o Claustro do Mosteiro dos Jerónimos, sendo o seu túmulo da autoria do Mestre Lagoa Henriques.

   Uma palavrinha sobre Fernando Pessoa também é essencial. É o poeta mais estudado e querido em Portugal e no Brasil. Provavelmente, em parte do Ocidente. Viveu entre 1888 e 1935. Fora os quase dez anos que morou em Durban, África do Sul, entre 1896 a 1905, onde tem formação inglesa na cultura e na língua, residiu sempre no centro de Lisboa, no Chiado, onde nasceu, e na baixa próximo ao Tejo, onde frequentou o Martinho da Arcada. Faleceu de cirrose hepática.

   Era outro tempo que não o de Camões, já se escrevia em máquinas datilográficas, mas, Pessoa, deixou também sua arca com muitos dos poemas e cartas a amigos e a sua querida Ophélia, com quem nunca se casou, num baú. Sua obra é extensa e está bem preservada. É o poeta da alma, do eu, do interior do homem. Impossível descrever a personalidade Pessoa, nem ele conseguiu. Era múltiplo. Usou mais de 100 heterônimos. Um gênio da poesia.

Em que barca vou/P'ra além do Oceano/Deus Falou ao Humano/Sou mesmo o que não sou. Além de poeta foi dramaturgo, ensaísta, filósofo, crítico literário e até empresário. Um sobrenatural. Seu livro "Desassossego" é uma obra prima. A minha vida é tão triste, e eu nem penso em chorá-la; as minhas horas são tão falsas, e eu nem sonho o gesto de parti-las.

Continuemos nossa caminhada pelo interior da igreja: a abóbada do cruzeiro cobre, de um só voo, uma largura de 30 metros. Representa a realização mais acabada arquitetura medieval de cobrir o maior vão possível com o mínimo de suportes. Neste espaço livre, em que se encontra toda a simbologia régia, a profusão de ornatos atinge o seu auge.

O gótico teve essa dimensão de fazer com que as pessoas ao entrarem num templo tivessem a impressão de que estavam a chegar no céu, dada a altura dos arcos, a imensidão dos planos ao olhar para o alto, a grandeza divina.

  No braço esquerdo da galeria transversal estão sepultados os restos mortais do Cardeal-Rei Dom Henrique e os dos filhos de Dom Manuel I. No braço direito da galeria encontra-se o túmulo do Rei Dom Sebastião e dos descendentes de Dom João III. Os sebastianistas brasileiros e portugueses ainda reverenciam Sebastião, o jovem decapitado pelos mouros, como se vivo estivesse.

   A capela-mor foi mandada construir em 1571 por Dona Catarina, mulher de D. João III. Foi traçada por Jerónimo de Ruão, que introduziu o estilo maneirista, estabelecendo um forte contraste com o corpo manuelino da Igreja. Nas arcadas laterais estão situados os túmulos de Dom Manuel e de sua mulher, Dona Maria, de Dom João III e Dona Catarina. No altar-mor encontra-se um retábulo do pintor Lourenço de Salzedo com cenas da Paixão de Cristo e a Adoração dos Magos.

 A sala da sacristia foi concebida por João de Castilho, a sua construção data de 1517-1520. O mobiliário inclui um arcaz de madeira do século XVI, presumivelmente da traça de Jerónimo de Ruão, onde se conservam paramentos e alfaias litúrgicas. Sobre o espaldar dispõem-se catorze pinturas a óleo representando cenas da vida de S. Jerónimo (atribuídas ao pintor maneirista Simão Rodrigues; executadas c. 1600-16)

 O túmulo de Vasco da Gama (1469-1524) está localizado na saída do templo, à direita. É considerado o mais expressivo navegador português. 1º Almirante Mor dos Mares da Índia, Conde de Vidigueira, governador da Índia e seu vice-rei, morre em Cochin. Comandou a grande expedição exploratória a India chegando até ao Índico em Mocambique e depois até Goa.