quarta-feira, 01 de abril de 2020
Cultura

QUANDO MASCARADOS BATEM À PORTA E NÃO É FANTASIA, p SAMUELITA SANTANA

Samuelita Santana é jornalista
Samuelita Santana , Salvador | 16/03/2020 às 10:05
Ministro da Saúde, henrique Mandetta,, e o presidente Bolsonaro
Foto: REP
A cena mais emblemática para o Brasil, essa semana, aconteceu dentro do Palácio da Alvorada. Dois dias após ter declarado durante um evento, em Miami (EUA), que a gravidade da Covid-19 causada pelo novo coronavírus é "fantasia" e não "isso tudo" que a mídia propaga, o presidente Jair Bolsonaro despachava, em seu palácio, com assessores usando máscaras de proteção contra o vírus. A "fantasia" da mídia, como foi classificada pelo Presidente da República, virou pandemia oficialmente decretada pela Organização Mundial da Saúde - OMS e bateu à porta do Planalto. 

O seu Secretário Especial de Comunicação Social, Fabio Wajngarten, figura próxima e que viajou com ele na comitiva para Miami, foi infectado com a doença. Além dele, soube-se depois, mais três integrantes da comitiva testaram positivo: o senador Nelsinho Trad, do PSDB, a advogada de Bolsonaro, Karina Kufa e Nestor Fortes, futuro embaixador do Brasil nos EUA.

Enquanto aguardava os resultados dos exames para checar se ele próprio, a primeira-dama Michelle e os demais membros da família não estariam infectados, o presidente sentiu na própria pele os efeitos do que ele chamou de "pequena crise", sendo obrigado a ficar isolado, despachando com funcionários "fantasiados" com máscaras contra o coronavírus. Felizmente, ao que parece, o presidente e sua família não foram contaminados, boa notícia que ele fez questão de divulgar em suas redes sociais, ilustrando a sua alegria com aquele grosseiro gesto que vem sendo a sua marca preferida: uma "banana" à quem interessar possa.

Ainda bem que nem todos que formam e tocam a gestão do atual governo sofrem de imaturidade, síndrome de insensatez e crises de estouvanices. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, vem realizando um trabalho sensível, movendo ações e procedimentos de combate ao coronavírus e, pelo menos até agora, se posicionando com a devida transparência, agilizando preparativos para vencer etapas, em conformidade com a evolução da pandemia. 

Lembro que uma das primeiras ações do ministro, ainda em janeiro quando o vírus começou a se espalhar, foi abrir licitação para a locação de mil leitos de UTI, destinados aos hospitais de referência e atendimento a pacientes com coronavírus. Um plano de ação antecipado acertado e que agora, com a perspectiva de avanço dos casos, amplia-se para 2 mil leitos locados.

Enquanto o presidente Bolsonaro fazia pouco caso da gravidade e impactos causados pelo novo coronovírus em sua passagem pelos EUA, atribuindo à imprensa a propagação de "fantasias", o Ministério da Saúde agia no Brasil com responsabilidade e abria negociação com o Congresso, solicitando a liberação de R$ 5 bilhões para as ações emergenciais contra o vírus. Tratava também de definir procedimentos a serem adotados para garantir o isolamento e, se for o caso, a quarentena de pessoas infectadas. 

Todas as movimentações e iniciativas que vieram depois assinadas pelo Executivo para a contenção do coronavírus e também para mitigar os efeitos da pandemia na economia do país se devem, sobretudo, à essa visão estratégica e prudente do Ministério da Saúde que, seguramente, pode salvar milhares de vidas. A sensação que se tem é que se dependesse de ações urgentes e preventivas por parte da presidência da República, o país inteiro estaria em risco letal, esperando a morte chegar comendo "cachos de bananas" oferecidas por ele.

Trump e Bolsonaro: lição forçada

As medidas e os preparativos acionados pelo MS através do seu Plano de Contingência foram avaliadas pelos especialistas como corretas. As ações asseguram um mínimo de prevenção e antecipação à situações dramáticas que possam vir a ocorrer no país, como o aumento vertiginoso de casos, assegurando que o sistema de saúde não entre em colapso e nem seja tomado pelo susto como ocorreu na Itália, país obrigado a decretar bloqueio geral e agora também a Espanha com emergência sanitária, restringindo a movimentação de pessoas em todas as cidades. Apesar de as ações serem consideradas por muitos experts como tardias, a Itália cuidou do assunto com rigor e responsabilidade. 

E vem fazendo o que tem que ser feito para conter a propagação do coronavírus reduzindo seus efeitos letais, esvaziando as cidades e restringindo os deslocamentos em todo o país. Apesar dos procedimentos drásticos, os efeitos do novo vírus não param de crescer por lá. Os últimos números são devastadores:  25.747 casos confirmados e 2.608 mortes. Só neste domingo o país registrou 368 mortes. A Espanha registrou um avanço de 2 mil infectados nas últimas 24 horas, somando um total de 7,7 casos confirmados e 288 mortes.

No Brasil, porém, se a situação, hoje controlada, enveredar por caminhos dramáticos em números de infectados e casos graves, não sabemos se mesmo com todas as medidas preventivas adotadas o sistema público de saúde, tão falho e precário no seu atendimento diário, poderá, de fato, atender os pacientes com eficiência e agilidade necessárias.

 Mesmo com o aumento de mais 2 mil leitos de UTI que serão contratados pelo Ministério da Saúde através de licitação, a Associação dos médicos que trabalham em Unidades de Terapia Intensiva alerta que seria preciso um aumento de mais 20,2% para assegurar o tratamento dos infectados com Convid-19, a se confirmar os prognósticos de que nas próximas duas semanas o número de brasileiros contaminados crescerá de forma bastante significativa. 

Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro - capitais que apresentam o maior números de casos confirmados - já se constata a chamada transmissão comunitária, quando não se consegue mais rastrear a fonte dos contágios.

De sábado para domingo o número de casos confirmados praticamente dobrou no Brasil e já somam cerca de 200 espalhados por diversas regiões. Os casos suspeitos em investigação já batem em quase 2 mil e sabe-se lá quantos infectados assintomáticos existem circulando .

 Apesar dos alertas e lição que vêm sendo sinalizadas dos países europeus, o que se viu ontem, domingo, em todo o país, foi brasileiros curtindo o final de semana relaxadamente, lotando praias e se aglomerando em manifestações políticas. Otimista por natureza, o brasileiro carrega mesmo na alma essa sensação de viver no Olimpo, onde mal algum chegará à sua tenda. Diante disso o que se há de perguntar é: se JÁ e AGORA não seriam necessárias medidas restritivas mais rigorosas e drásticas, decretando para todo o país o isolamento compulsório, assegurando que a curva de transmissão do vírus não se acentue de forma tão perigosa e mortal como aconteceu na China, na Itália e agora em outros países da Europa? Fica o questionamento.

Fica também uma boa lição para os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump - esse último no comando da maior potência mundial -  obrigados pela realidade avassaladora do Covid-19 a abandonarem o tom jocoso e zombeteiro diante de uma situação crítica e de tão alto risco social, para assumirem diante do mundo, mesmo que forçosamente, a postura esperada que seus cargos exigem: o enfrentamento real, responsável e pró-ativo em defesa da vida e da segurança dos seus cidadãos.