quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Cultura

FEIRA DA FRATERNIDADE: SOM ALTO E FORA DO CONTROLE, JOLIVALDO FREITAS

Escritor e jornalista. Autor de “Histórias da Bahia – Jeito Baiano” e “baianidade...”. Email: Jolivaldo.freitas@yahoo.com.br
Jolivaldo Freitas , Salvador | 12/11/2019 às 11:58
Jolivaldo Freitas
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Foram quatro dias de tortura, daquelas de arrancar o fígado, escalpelar, extrair unha, deixar o juízo abilolado. Tudo em nome da fraternidade. E a palavra fraternidade significa afeto, amizade, amor, apego, benevolência, simpatia, ternura. Sobrou para uns e faltou para outros. 

O padre Luiz Simões, que acho icônico - um cara boa pinta, elegante, gourmet, bon vivant, inteligente, charmoso, simpático, excelente orador e de fácil trato, daquele tipo de pároco que leva as beatas ao pensamento pecaminoso(depois se confessam) – chegou a ser alertado: desde a quinta-feira que os moradores da Graça e Ladeira da Barra, em Salvador, capital da alucinada Bahia, estavam enlouquecendo. 

A Feira da Fraternidade, que é ume excelente iniciativa, mas clama por sensibilidade de quem organiza e tem o dever de saber as sutilezas do relacionamento entre a Paróquia da Vitória e os paroquianos, estava fazendo o que nem as dezenas de trios que estacionam ali durante o Carnaval, no antigo Barracão da Graça ousam fazer. Estava deixando os grupos musicais que se revezavam lascar com a vida de todo mundo.

Na quinta à tarde ninguém podia trabalhar, estudar, se concentrar, ver um filme, a velharia querendo os bofes do padre. Todo mundo sabe que baiano é barulhento, tanto que a Semop já registrou mais de 27 mil denúncias de poluição sonora este anjo que nem terminou. 

A Feira da Fraternidade – que vergonha – foi denunciada ao 156. A Semop também tem culpa, pois autorizou shows musicais numa área que em pleno Carnaval ela mesmo determina como “Zona de Silêncio”. Pode Fernando? Como dizia, se baiano gosta de fazer barulho, pare e imagine o que não comete com bateria, atabaque, guitarra e baixo à disposição.

Um morador se deu ao desplante de querer medir com o aparelho de nome decibelímetro o barulho que invadia seu apartamento, mesmo com portas e janelas fechadas e um calor do Satanás. Com tudo isso às 22horas do domingo (será que o padre não acorda cedo para a primeira missa?) Registrou-se 70 decibéis. 

Abriu a janela e foi olhar a animação. Aquela poluição sonora toda era para o deleite de meia dúzia de gatos pingados. Foram dias de sofrimento processado sob os auspícios da Igreja da Vitória para quem pratica a hipocrisia: agir mal em nome do bem. Em velha homilia o Papa Francisco disse que é preciso “vigilância contra o demônio, sobretudo os demônios educados”.

A culpa é dos organizadores (que ou moram em outros bairros ou em ruas distantes ou estão na esbórnia) que só pensam na alegria de quem está bebendo e se empanturrando na feira? É! É do padre que só vai tomar jeito na hora da extrema-unção, pois todos os anos as queixas se reproduzem? É! Também é da Prefeitura de Salvador, que de forma esquizofrênica proíbe passagem de som e animação de trio na área e dá alvará para uma festa feita pela igreja, mas com o dedo do Cão.