quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Cultura

Crônicas de Copacabana: O alvirubro suburbano de Castor, NARA FRANCO

Nara Franco é jornalista
Nara Franco , Rio de Janeiro | 21/08/2019 às 12:54
Marinho (Bangu) e Zico (Flamengo)
Foto:
Ser jornalista me proporciona ir a locais que muitas pessoas que moram no Rio de Janeiro há anos não conhecem. Como descreveu Zuenir Ventura, o Rio é uma cidade partida. Seja por medo ou preconceito, quem mora na Zona Sul dificilmente irá passar um dia em Bangu e vice-versa. 

Nesse momento estou cruzando a Avenida Brasil rumo a Bangu/Padre Miguel. O bairro ficou famoso nos anos 80 devido a notoriedade do bicheiro Castor de Andrade. Reza a lenda que Castor foi o bicheiro mais poderoso do Rio de Janeiro, dono de uma fortuna que ele gastava em duas paixões: futebol e samba. 

Graças a Castor de Andrade, o time de futebol do  Bangu chegou a final de um Campeonato Brasileiro e à Taça Libertadores. O pai de Castor foi presidente do clube e o bicheiro, vice-presidente na década de 1960. Certa vez, contrariado com a decisão do árbitro durante um jogo do alvirubro, Castor invadiu o campo, armado, ameaçando matar o juiz!

Na década de 80, ele virou uma espécie de padrinho do time, assistindo à treinos, dando palpites na escalação e premiando os jogadores com dinheiro. O maior destaque do Bangu, o atacante Marinho, chegou a ser convocado para a seleção brasileira. Foi uma contratação de Castor, que foi busca-lo no interior de São Paulo. Curiosidade: Zizinho, ídolo de Pelé e craque da seleção brasileira de 1950 foi ídolo do Bangu. 

Castor montou um CT para o Bangu numa época que ter um Centro de Treinamento era coisa de pouquíssimos clubes.  Era a Toca do Castor. Lá, treinavam Marinho, Ado, o goleiro Gilmar, Baby.. o melhor time da história do clube. O Bangu virou o segundo time de todos os cariocas, visto por muitos como um time de operários e trabalhadores. O bairro de fato cresceu ao redor de uma fábrica de tecidos. O carimbo de time de trabalhadores gerou uma rivalidade com o Vasco, cujo estádio foi construído por operários e torcedores do clube. 

Em 1985, o Bangu chegou à final do Campeonato Brasileiro disputando o título contra o Coritiba com 90 mil pessoas no Maracanã, entre elas flamenguistas, botafoguenses, tricolores e vascaínos. O Rio de Janeiro abraçara o Bangu. Mas o Suburbano parou no 1-1 e perdeu na disputa de pênaltis. No ano seguinte, Castor levou para o Bangu o super campeão pelo Flamengo, Paulo Cesar Carpegiani. Também contratou o zagueiro Mauro Galvão, ídolo do Internacional. No ataque, o jovem Neto, ex-Guarani (que anos mais tarde seria ídolo do Corinthians). A campanha no campeonato sul-americano não foi digna de nota, mas em 1987 o Bangu conquistou a Taça Rio batendo o Botafogo. 

A partir de 1988, quando a polícia apertou o cerco contra Castor, o futebol do Bangu foi minguando. Até hoje as maiores conquistas do time são o vice brasileiro em 1985 e o Carioca de 1966. 

Castor morreu em 1997. É patrono do clube, que tem um castor no escudo (o bicho mesmo). O mesmo alto e desce se deu com Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de samba que Castor presidiu até morrer. Super campeã nos anos 80/90, já amargou um rebaixamento recente e há mais de 20 anos não conquista um título. 

Bangu é aquele bairro cheio de história, que teve seu padrinho bandido, amado e odiado na mesma proporção. Um Don Corleone suburbano de bigodinho e ternos extravagantes.