quinta-feira, 22 de agosto de 2019
Cultura

RUA FORTE DE SÃO PEDRO NUNCA DORME E TEM É HISTÓRIA, por TASSO FRANCO

Nesse forte, em 1821, tropas de Madeira de Mello bombardearam e invadiram para prender o comandante rebelde brasileiro, Freitas Guimarães
Tasso Franco , da redação em Salvador | 06/06/2019 às 12:43
Rua Forte de São Pedro liga o Campo Grande a Avenida Sete de Setembro
Foto: BJÁ
   A Rua Forte de São Pedro tem muita história e liga o Campo Grande à Avenida Sete de Setembro, em Salvador da Bahia, Centro Histórico. 

   Tem aproximadamente 300 metros e uma curiosidade: somente o lado direito da rua (a partir do Campo Grande) tem vida intensa na movimentação de pedestres e um comércio e serviços dinâmicos, enquanto o lado esquerdo é praticamente morto porque começa com casarões - um deles fechado e para aluguel - onde ainda funciona uma lanchonete bar e depois segue com a muralha do Forte de São Pedro e na parte complementar a partir da entrada do Politeama de Baixo a murada da praça em frente ao Palácio da Aclamação. 

   Ou seja, é uma rua usada só de um lado a partir da Igreja Batista do Sião até um casarão recuperado na boca da Avenida Sete onde, em tempos idos, funcionou a Manon.

   Digo que a rua tem história porque o Forte de São Pedro está ligado as pré-lutas da Independência da Bahia sendo o bastião da resistência a Madeira de Mello, brigadeiro designado por Portugal como comandante das Armas da Província, em 1821, que o invadiu e prendeu o comandante brasileiro Manoel Pedro de Freitas Guimarães e outros oficiais rebeldes. 

   Daí, em algazarra, soldados portugueses desceram pela antiga Avenida do Estado invadindo casas e roubando o que podiam levaram (hoje, Sete de Setembro) e rumaram para o Convento da Lapa onde tentaram invadi-lo e foram impedidos pela soror madre Joana Angelica e pelo capelão padre Daniel da Silva Lisboa (hoje nome de bairro na capital) sendo esta morta a golpe de baionete em 21 de fevreiro de 1822 e o capelão ferido a coronhadas. 

   Joana Angélica é, então, aclamada primeira heroina da Independência da Bahia.

   O forte começou a ser erguido após a invasão holandesa na cidade do Salvador a partir de 1627 e com as devidas modificações ao longo dos anos está lá até hoje servindo como uma das dependências do Exército. Na época do Carnaval, incluvise, arma-se um camarote para os oficiais da corporação no lado esquerdo da rua do Forte.

    E o que temos hoje na Rua do Forte começando pela igreja Batista do Sião que, como só há cultos nos finais de semana, seu gradil serve para mostruário de produtoes de camelôs. O templo é imponente, tradicional na cidade, e fica sua parte marmorizada de testa para a lateral do TCA. 

   Logo depois tem uma ladeira com descida para o Vale dos Barris e a galeria de serviços do Edf Forte de São Pedro. Adiante está o Restaurante Cervantes, de comida espanhola, repaginado, e o antigo bar de Tirson Chiquitinha, ex-jogador do Bahia, recentemente falecido, e que foi um 'point' com mesas na rua de gerações de torcedores do Bahia. Fez história. Tinha uma gelada admirável e os papos dos frequentadores giravam quase sempre sobre histórias do Bahêa.

   A rua tem várias lojas de produtos um pelo outro na base de R$2,90; várias casas de materiais de construção e serviços do lar, motéis, vidraçarias, lanchonetes, utilidades, salões de beleza, uma variedade muito grande de lojas de roupas e vestuário feminino, e camelôs de ponta-a-ponta, vendendo de um tudo, inclusive pimentas, castanhas, verduras, frutas e o que for de ocasião para os pedestres. 

   Os baianos de Salvador já sabem que é a rua dos preços baixos e podem comprar um molho de pimenta, da boa, por R$5,00, isso pra dizer o menos.

   Chega-se no meio da rua ao Hotel Santiago que, pelo nome é de espanhol ou descendente fiel a San Thiago de Compostela onde também ao lado existe o Que Bueno Café, boa lanchonete. Hotel baratinho para dar uma e muito utilizado para quem vai ao centro. Normalmente vê-se uma pessoa entrando no local e minutos depois outra pessoa. A discriação é o segredo do Santiago.

  Após o Santiago está o Beco do Alemão. Recomendável para moradores e camelôs. Mas, muita gente usa para chegar ao Politeama de Baixo. É tão estreito que só dá pra passar um gordo. 

   Logo em seguida está o Edf Plaza com a Galeria Plaza com farmácia, lojas de serviços, salão de beleza, etc, uma maravilha. Tudo a preço popular. Um mundo de utilidades. Essas duas áreas até o Beco do Politeama de Baixo, uma rua que dá no antigo Instituto Feminino da Bahia, ficam de testa com a muralha do Forte. 

   Cuidado para v não se chocar com as bancas de revistas e lanches da rua ao andar na calçada. Vendem de tudo, do Pato Donald em quadrinhos a empanadas. Olhe também para o chão porque o passeio com pedras portuguesas tem alguns buracos.

   Passado o beco do Politema onde há uma sinaleira e uma rua que passa em frente ao Forte em direção a Avenida Contorno tem outra galeria de serviços com salão de beleza, loteria, loja de móveis, farmácia homeopática e outros. Quer comprar uma romã no camelô em frente dessa galeria? Fique à vontade. Tem da boa. 

    Adiante está O Colon tradicional estabelecimento de Pepe, hoje cuidado por seu filho Marcelo uma vez que Pepe Deus levou para sua morada, e que foi durante anos ponto de encontro de jornalistas, cineastas, universtiários e professores da UFBA, entre outros. o jornalista Otto Freitas lembra que quando a Revista da Bahiatursa era feita nas promidades ele e sua turma batiam ponto no Colon e ainda levavam pães de uma padaria ao lado para fazer sanduiches de tira-gosto. 

   O Colon vendia salames, queijos e outros produtos made in Espanha, e bons vinhos a preços de bom agrado. Tinha um reservado no fundo onde iamos com frequência para tertúlias com Paolo Marconi, Rino seu irmão, os produtores de cinema Timo, Drummond e Agnaldo Azevedo (Siri), o poeta Fred Castro, e tantos jornalistas que são nomes da velha guarda também frequentadores da Manon na esquina da Rua do Forte, boca da Sete, onde fizemos memoráveis farras.

   Horário de chegar nesses dois centros da ex-vida mundana de Salvador sempre tinha. Agora, de sair, era complicado. Demorava-se à bessa e muitos saíamos baleados.

   É isso, amigos, andar pela Rua Forte de São Pedro traz essas lembranças e você pode ficar imaginando como foram as trocas de tiros dos comandantes Freitas Guimarães e Madeira de Mello, em 1821, as intermináveis farras no Colon, o movimento de pedestres e veiculos numa rua do centro histórico de Salvador que tem uma vida intensa e só dorme nas madrugadas, quando dorme.