segunda-feira, 24 de setembro de 2018
Cultura

HISTÓRIA CPM 60 ANOS: Como deixei de ser coronel e sou jornalista (TF)

Lembranças do Colégio da Policia Militar anos 1960 com Mansur, Rivas, Freitas e muitos outros colegas e professores
Tasso Franco , da redação em Salvador | 05/01/2018 às 10:28
Time de minha turma do CPM, 1964, sou o primeiro à direita da foto
Foto: Arquivo pessoal
   Recentemente, o comandante Geral da PM, coronel Anselmo Brandão, condecorou alguns ex-alunos do CPM Dendezeiros, o pioneiro, nos seus 60 anos de fundação. Justa homenagem. Não cheguei a ser pioneiro no CPM, mas, por lá alisei os bancos escolares por 2 anos 1/2, entre 1963/65, quando cheguei a capital provindo de Serrinha. O colégio era novinho. Tinha sido inaugurado em 1957.
   
   Eu era jovem entre 16/17 anos de idade e meu pai temia que viesse estudar na capital e morar numa pensão uma vez que não possuia recursos para colocar-me num internato. O top de linha de época era o Maristas do Canela. Meu velho não tinha condições financeiras para tal. Alguns abnegados de Serrrinha foram estudar lá; no Seminário da Arquidiocese, na Fedeação; ou no Salesiano. 

    A solução foi encontrada com meu irmão Bráulio que havia saído da Academia da PM como aspirante a oficial, logo promovido a segundo tenente intendente residente no quartel dos Dendezeiros. na área de manutenção de oficinas de veiculos. Ele então falou para meu pai que iria matricular-me no primeiro científico do CPM, havia comprado um apartamento no bairro de Roma, a receber, e enquanto isso não acontecesse eu poderia morar com ele na Vila desde que o coronel Édson, o comandante, topasse.

    Meu pai gostou da idéia. Seria uma forma de proteger-me. E assim aconteceu. Fui matriculado no CPM e vim para a capital com uma mala de couro, duas ou três mudas de roupa, pra morar na Vila - o coronel Edson consentiu - até que Bráulio recebesse seu imóvel e a gente se mudasse para Roma.

    Foi uma aventura e tanto. Foram seis meses eu morando no quartel sem ser militar. Era quase, pois, sendo aluno do CPM meu caminho natural era entrar na Academia. O CPM ficava ao lado onde eu morava. Pra almoçar meu pai acertou com uma senhora de Serrinha esposa de Sêo Neco Bilheteiro, o qual transferira sua familia para a capital, alugara uma casa nos Dendezeiros e fizera um restaurante na garagem da casa, na rua transversal em frente ao Clube dos Oficiais, a Augusto de Mendonça. E, para o café da manhã, eu acordava cedo, vestia a farda e ia até a Padaria do Pepe, também nos Dendezeiros, depois do Clube dos Oficiais, e comia café com leite, pão com manteiga e um pedaço de bolo. Jantar? Não existia. A gente fazia um arremedo, um sanduba com refrigerante.

  Nas primeiras partidas de futebol num campinho que tinha ao lado do CPM, parte direita, o capitão Rivas, o qual cuidava dessa área no colégio viu que eu era bom de bola. Numa segunda ou terceira partida aconteceu um pênalti e ele falou: - Quem vai bater é Franco. Lá fui eu, dei uma de trivela e fiz um golaço. O capitão: - Sabia que v era bom de bola.

  O comandante do CPM era o major (não lembro-me bem da petente) Mansur, também professor de matemátia. Eu viera de um colégio do interior com baixa qualidade de ensino, onde ainda existia no curriculo francês e latim, e quando cheguei ao científico tive grandes dificuldades com matemática, física e química. Nunca tinha ouvido falar sequer na fórmula da água quando mais de hidrocarbonetos e cálculos físicos. Fiquei atordoado e tive que meter a cara nos livros. 

  O professor de química parecia um marciano, cabecudo. O de física era o professor Freitas. Eu gostava das aulas. Era bonachão. Contava causos. Desenhei até uma caricatura dele que um colega, salvo engano Adeodato, mostrou para ele e Freitas, ou Freitão, porque era grandão, adorou. E levou para ele. Tive que cortar a folha do caderno.

  Também nunca tinha marchado, a ordem unida. Em Serrinha, a gente só marchava na parada do 7 de Setembo. Por sinal, o professor de Educação Física e organizador do desfile era o tenente Brito, da PM, amigo de meu pai e eu acabei integrando a banda de 6 pessoas tocando caixa. 

   Quando cheguei no CPM todo dia tinha ordem unida, todo mundo perfilado no pátio do colégio e fazendo um desfile depois do hasteamento das bandeiras do Brasil e da Bahia. Tive, óbvio, que aprender o direita-volver, sentido, esquerda volver, apresentar armas, meia volta volver, de forma correta perfilando, sem desalinhamento. Jovem, com pouco tempo a gente aprende. Também não era uma tropa de elite daquelas que a gente vê em desfiles na praça Vermelha de Moscou e um pequeno desalinhamento era consentido.

   Foi a glória para mim desfilar no 7 de setembro da Avenida Sete. O CPM fazia e ainda faz bonito. Marchávamos com garbo e é pena que, naquela época, quase ninguém fazia fotos como hoje.

   Como era bom de bola integrei logo o time de futebol de salão de minha turma e depois a seleção do CPM. Era imbatível na cidade-baixa. Tinha uma dupla de frente, Jair e Digó, que infernizava qualquer defesa adversária. Eu jogava de beque, duro, ainda que tivesse alguns lampejos de clássico. Jair, creio, é coronel reformado, hoje; e Digó, professor de quimica.

  Com pouco tempo de CPM meu irmão recebeu o apartamento em Roma, na rua Graciliano de Freitas, e fomos morar lá. Ela estava casado e já tinha 1 filho, Yuri, cujo nome ele colocou em função do soviétivo Yuri, o astronauta que ficou popularíssimo no Brasil. Nossa rua tinha vários PMs oficiais. Nosso vizinho era o capitão Braz, adiante tinha o coronel Cabral, os majores Longuinhos e Flodoardo. O bairro de Roma tinha muitos PMs residentes, pois, era perto da vila. 

  Eu me sentia o próprio com a farda do CPM quando ia pra a escola e desfilava entre a casa e o colégio. Arranjei umas duas ou três namoradas com esse charme. Dificil era passar de ano. O CPM sempre teve um ensino de qualidade entre os colégios públicos. Mas, eu passei numa boa. Só fazia estudar e minhas outras opções era jogar bola no próprio CPM, vôlei, e também jogar nos times de praia do bairro, em especial, no Brasília, num campeonato que havia na praia do Cantagalo. Diversão: só o cinema Roma.

  Quando fiquei maior de idade e ingressei no CPOR para cumprir o período militar de licenciamento já estava morando na Pensão de Sêo Lisboa e dona Nenem, na Barão de Cotegipe, meu irmão já estava com um segundo filho, a Liliana, e também comecei a pensar em deixar o CPM, estudar de noite, e arranjar um trabalho. Organizei minha ida para o Colégio João Florêncio, na Ribeira.

  Uma dia veio a deixa: o comandante do CPM determinou que os alunos ajudassem na limpeza do colégio, varrição da salas e corredores. Estrilei. Disse que não faria. Que o governo do estado tinha gente para isso. A notícia chegou ao coordenador de classe e eu fui chamado a dar explicações. Mantive a palavra. Levei uma bronca. E, pedi desligamento da escola. O coordenador disse: - Você está fazendo uma bobagem. É bom aluno, bom atleta, está na boca da Academia. 

  Definitivamente, não tinha vocação militar e em meados do segundo semestre do terceiro cientifico fui para o João Florence (estudar a noite) e ingressei na carreira de vendedores de coleções de livros, um insucesso. Meu pai ficou chateado. Daí que, nem Academia; nem faculdade. Perdi um ano. 

   Completei o CPOR, que eram dois anos nos períodos de férias escolares, e fui, em 1966, morar em Aracaju, servir no 28 BC como aspirante a oficial R2 do Exército. Passei 6 meses por lá e voltei segundo tenente. Alguns colegas ficaram muitos anos em AJU e chegaram a patente de capitão.

  Em 1967 fiz vestibular para jornalismo na UFBA e ingressei na FAFIUFBA, em 1968, onde também comecei a trabalhar na Revista Panorama e no Jornal da Bahia. São, em 2018, 50 anos de profissão como jornalista. Um sacerdócio. Sigo, até hoje, trabalhando e batendo tecla de computador. 

   Se tivesse ficado na PM já era coronel reformado há anos. Burrice tem dessas coisas. Outros dizem que ninguém dribla a vocação. E a minha era de ser jornalista. 

   * Em tempo: anos depois, nos governos Waldir Pires e Roberto Santos trabalhei ao lado do coronel Mansur, chefe da Casa Militar, e eu assessor de Waldir e Roberto. O coronel Rivas, já velhinho, de vez em quando o via fazendo cooper em Vilas do Atlântico, Lauro.