quarta-feira, 21 de outubro de 2020

ITABUNA: COMO CACIFÃO SE COLIGOU AOS COMUNISTAS por WALMIR ROSÁRIO

Walmir Rosário
26/09/2020 às 09:39
  O Sindicato dos Comerciários de Itabuna, entidade quase secular, durante muito tempo elegeu um só presidente, Agenor Medeiros, sem vínculos político-partidários. Quando chega a redemocratização do país e as agremiações (ainda chamados de esquerda) como o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) iniciam uma ampla campanha junto à categoria com a finalidade de eleger seus prepostos.

   Eis que entra na campanha (mesmo sem ser candidato) um personagem importante: Iram Marques, o conhecido “Cacifão”, um dos mais ilustres representantes da “direitona” itabunense, com passagem de distinção e louvor pela UDR, pela campanha presidencial de Ronaldo Caiado, e dá uma ajuda providencial aos comunistas. O que interessava a Iram era não deixar o PT de Geraldo Simões assumir o sindicato.

   Enquanto o PT pressionava os comerciários, pretendendo ganhar a eleição no grito, com a ajuda do recém-eleito prefeito de Itabuna, Geraldo Simões, Cacifão faz um acordo com os cururus do PCdoB. Imediatamente passa a trabalhar nas bases comerciárias não ligadas a partidos políticos, principalmente os filiados mais antigos e que não admitiam o aparelhamento do sindicato por partidos políticos.

   Na surdina, Cacifão passa a visitar os comerciários mais velhos sindicalizados e até mesmo os aposentados com direito a voto e “faz a cabeça” da turma mais antiga que não gosta de política partidária e que tinham horror de esquerdistas. E a inteligência de Cacifão era tamanha que ele conseguia elaborar uma narrativa que diferenciava os comunistas do PCdoB dos petistas.

   No seu discurso, Cacifão fazia os velhos colegas acreditarem que há muito tempo os “cururus” deixaram de comer criancinhas e se tornaram pessoas sociáveis e até carnavalescos, participantes da Lavagem do Beco do Fuxico. Para ele, os caras sisudos eram os petistas, que onde passavam deixavam um rastro de destruição, haja vista as greves que promoviam no comércio e que entupiam as fechaduras das lojas com Araldite.

   E esse trabalho de convencimento incluía, ainda, manter o relacionamento em segredo, com o intuito de não despertar uma campanha mais acirrada, fazendo crer aos petistas que sairiam vitoriosos na eleição. E não era pra menos, pois a máquina pública municipal foi colocada à disposição dos “companheiros” para tomar a direção do Sindicato dos Comerciários do pelegos.

   Cacifão – ou Iram – era incógnita para os novos membros do Sindicato dos Comerciários. Há muito tempo que ele se dedicava à compra e venda de gado, fazendas e casas, sem qualquer vínculo empregatício. Vivia no meio político, embora não gostasse dos cargos públicos, exceção feita somente ao prefeito Fernando Gomes, quando exerceu o cargo de diretor de Turismo da Prefeitura de Itabuna.

  Outra atividade que nosso personagem se tornou conhecido foi a participação nas campanhas políticas, dando ideias, palpites, traçando estratégias, colocando às ruas grupos de apoiadores disseminando notícias, melhor dizendo, fuxicos. Até hoje imagino que esse tal de fake news foi criado por Cacifão e exportado para os Estados Unidos e países da Europa, e que retornou com esse nome chic.

   Finalmente, chega o dia da eleição e, para o espanto do PT, quem primeiro aparece no Sindicato dos Comerciários para votar é o associado Iram Marques. Foi “um pega pra capar” até ele provar que era associado e em dia com o pagamento das mensalidades. Deu seu voto ao candidato comunista Ramon Cardoso e continuou na “boca-de-urna” até o final da eleição, garantindo votos importantes como os da rede Messias de Supermercados, onde exercia forte liderança.

   Passada a surpresa dos petistas – muitos deles ocupantes de cargos na Prefeitura de Itabuna –, chega a hora das comemorações. Alegria de um lado, tristeza e desolação de outro. Onde foi que erramos, era a grande pergunta dos petistas. Lá pelas tantas, resolvem perguntar a Cacifão pela origem de sua filiação ao Sindicato dos Comerciários (ainda dos tempos em que trabalhou na empresa J. S. Pinheiro & Irmãos), Cacifão não se fez de rogado e disse:

  – Não tem segredo. Faço igual ao que Antônio Carlos Magalhães com o Sindicato de Jornalistas Profissionais da Bahia. Todo primeiro dia útil do ano eu vou ao Sindicato dos Comerciários e pago as mensalidades devidas do ano inteiro – disse para desespero dos petistas, que já queriam anular a eleição pensando que Iram Marques teria votado na eleição sem ser associado.

   Mais alguns anos Iram Marques morre, mas o PCdoB continua até hoje mandando no Sindicato dos Comerciários de Itabuna com o apoio pioneiro do extrovertido Cacifão.