quarta-feira, 12 de agosto de 2020

A PANDEMIA DO CORONAVIRUS DESENCARNA SUCUPIRA, por WALMIR ROSÁRIO

Walmir Rosário
02/07/2020 às 19:19
O dramaturgo baiano Dias Gomes, autor de sucesso, em 1973, criou a novela O Bem Amado em que retratava uma cidade do interior baiano chamada Sucupira, administrada pelo prefeito Odorico Paraguaçu, representado por Paulo Gracindo. Uma de suas promessas era inaugurar o cemitério municipal, cujo festejo fica a cada dia mais distante por falta de um cadáver.

   Mas o prefeito Odorico Paraguaçu não se entregava e tentou – por todos os meios legítimos ou não – até mesmo importar um defunto de uma cidade vizinha, o que não conseguia, para o seu desespero e dos aliados. E Odorico ainda hoje faz escola entre seus colegas prefeitos pelo mundo afora, com mais intensidade aqui por essas bandas do Sul da Bahia.

   Nunca houve neste Brasil varonil uma obra tão atual nesses tempos de pandemia do que O Bem Amado, tão levada a sério pelos gestores de municípios tantos. Se antes bastaria ler as decisões de julgamento das contas dos prefeitos pelos conselheiros do Tribunal de Contas dos Municípios, o TCM, hoje basta lermos ou ouvirmos uma notícia sobre os mortos creditados à terrivel Covid-19.

  Pelo que ouvi dizer, a cada resultado positivo de infectado pela Covid-19 os serviços de saúde dos municípios fazem jus a um fausto repasse do Governo Federal de fazer inveja a qualquer mortal. Se morto for, as burras do governo se escancaram e as transferências bancárias são mais volumosas, dignas de comemorações internas com promessas de mais investimentos aos serviços de saúde, esquecidas tão logo se mude a manchete.

   Que eu saiba, esse vírus virou o Brasil de pernas por ar, ante os poderes a ele conferidos por nossas inteligentes autoridades. Exigente e arrogante como só ele, o tal do Corona exigiu, de papel passado, a exclusividade nas mortes Brasil afora, e assim foi feito. Basta dar uma voltinha pelas unidades de saúde da família ou das unidades de pronto atendimento, que atende pelo pomposo nome de UPA, e constatar todas vazias.

   De repente, como num passe de mágica, passamos a contabilizar números de países do primeiro mundo, erradicando doenças como tuberculose, leishmaniose, asma, diabetes, todos os tipos de câncer. De uma tacada só conseguimos por no chinelo a hipertensão, normalizamos em níveis civilizados o colesterol (só o ruim). Agora, osteoporose, depressão, Alzheimer e Parkinson só poderão ser vistos nos livros de história do Brasil.

   Pelo que andei sabendo numa roda de conversas ali na praça, o tal do corona já está com seus dias de glória contados, pois a China teria se desentendido com ele e estaria nomeando outro em seu lugar. Por enquanto, os eleitos seriam os suínos, mas alguns desobedientes poderiam infectar os humanos, principalmente os gostam de comer carne de porco.

   Como não sou adepto a fake news, alerto que a notícia ainda não é oficial, pois não saiu nenhum comunicado abalizado da Organização Mundial de Saúde, a OMS, com a finalidade de proteger nossa população. Por enquanto, vou me protegendo como Deus quiser, pois se já estou atravessando incólume essa pandemia não quero e nem devo me arriscar na outra.

   Mas voltando aos Odorico Paraguaçu da vida, nunca vi nada parecido e soube que já existem alguns torcendo pela praga dos gafanhotos como reforço das burras municipais na beirada da campanha, se é que haverá de ter. Se antes Ricardo III bradava “meu reino por um cavalo”, nossos cuidadosos alcaides clamam por um defunto para enriquecer meu reino.

  E não é por menos. Conheço um deles que ao primeiro paciente acamado das vias respiratórias clamou os céus e terra pelo macabro troféu, repreendido educadamente pela família. Resultado, está vivo até hoje. Não satisfeito, ao ver um seu adversário na urnas partir para além, decretou morte pela Covid-19, apesar de dois testes rápidos acusarem negativo.

  Ânsia tanta, que gravou áudio decretando a doença, recomendou lacrar o corpo numa urna funerária e sepultá-lo imediatamente antes que seus liderados pudessem homenageá-lo na última despedida. Acuado e em delírio viu seus sonhados castelos ruírem, seus votos sumirem, os recursos escassearem. Cabisbaixo, tem gente que jura que o viram gritando: “Uma Covid para meu reino”, mas acredito que tenha sido uma visagem assombrando na noite de lua cheia.