quarta-feira, 20 de novembro de 2019

UM BEIJO TIO BRAULINHO E ATÉ BREVE

Nara Franco
13/10/2019 às 19:44
 Eu tinha o que... 10 anos? 9 anos? Não lembro. E vai explicar porque a lembrança mais latente que tenho de tio Braulinho é essa. A única certeza daquele dia era meu braço quebrado. Eu estava de tala (ou algo do gênero, tipo gesso) quando ele apareceu no play do prédio onde eu morava em Ipanema (RJ) para me buscar e passar um fim de semana na casa dele. 

  O susto que levei com a aparição se deu por alguns motivos: eu não o via com frequencia e de repente ele estava ali em carne e osso; sendo ele da minha família "da Bahia", o que estava fazendo no Rio de Janeiro?!? Na minha cabeça os Murta eram do Rio, os Franco de Salvador e, em alguns momentos, todos se encontravam em Serrinha. Um Franco no Rio de Janeiro era uma subversão à ordem. 

  Recuperada do susto e com certa relutância interna, lá fui eu com tio Braulinho rumo à Tijuca. Na minha cabeça, rumo ao desconhecido. Porque ele era assim.. o oposto do meu pai. Ele tinha bigode bem cortado e meu pai era barbudo. Ele usava gravata e meu pai .. bem.. meu pai é jornalista e nós, jornalistas, temos o pior senso de moda que existe. Tinha o cabelo "na régua" como se diz hoje em dia. Meu pai tinha vasta cabeleira em cachos. Braulinho falava alto e meu pai sussurra. Ele ouvia música clássica e meu pai, Caetano. Então pra mim, desse ponto de vista, era bem desconhecido o fim de semana adiante. 

  Mas ele era o tio mais velho, sisudo, talvez o bigode lhe desse esse tom sóbrio. O apartamento na Tijuca era imenso. Podia até não ser, mas quando se tem 10 anos, tudo é imenso. O corredor era uma vida de cumprido. A ignorância é uma benção. Até aquele momento eu nunca tinha visto O Iluminado. Se fosse hoje, já dormiria com meio olho aberto. 

  O que fiz no fim de semana com ele? Sei lá. O tempo levou. Ele só queria ficar próximo, manter os laços, referir-se a si mesmo para mim como "seu tio" em todas as frases. Eu achava engraçado. "Conte a seu tio como está na escola? E seu avô?". O sotaque era carregadíssimo e eu também achava graça porque meu pai não falava assim. Acho que na minha fértil imaginaçã infantil eles nem eram irmãos. Tio Braulinho era assim ... uma cópia mais jovem do meu avô Bráulio. Isso fazia todo sentido. 

  Mas veio o tempo, esse danado. A distância. Meu avô Lauro sempre me contava que encontrava "Braulinho fazendo cooper no Campo Grande" e que ele sempre mandava um "beijo de seu tio". E eu, já com 20 e tantos anos, ainda achava graça. 

  Só que a gente deixa de ser criança, as prioridades mudam, as surpresas da vida se tornam outras e a distância aumenta. Mas esse mesmo tempo ensina que a gente não precisa conhecer ou estar ao lado de uma pessoa todo o tempo para conhecê-la ou ama-la. Laços serão sempre laços. Podem ser de um fim de semana, de um ano ou de horas. E eles, os laços, apertam mesmo quando as pessoa nos deixa. 

  Tio Braulinho morreu ontem, dia 6 de outubro de 2019 (que ano é esse?). Fez a passagem para o outro lado porque os ciclos começam e se fecham. Quando minha avó (materna) Nyanza morreu em janeiro de 2018, disse no Instagram que a criança que morava em mim morria de vez. Porque ela e outras tantas pessoas que já se foram falavam de uma parte da minha vida que a cada passagem de página vai ficando mais distante. É mais uma janela que se fecha do velho casarão serrinhense. 

  Em algum momento (não tão breve, ok?) será a minha vez de surpreende-lo para passarmos um fim de semana juntos. Beijo, tio. Até breve.