quinta-feira, 25 de abril de 2019

SALVADOR completa 470 anos e CARAMURU 500 anos que chegou a Bahia

Tasso Franco
27/03/2019 às 10:46
 Salvador vai completar 470 anos de sua fundação na próxima sexta-feira, 29, tendo por base a chegada da Esquadra de Thomé de Souza na Baía de Todos os Santos, 29 de março de 1549. Nada mais justo. 

   Há, no entanto, uma data muito importante a ser comemorada, mas, ninguém fala nisso, nem os órgãos de cultura do estado; nem os da prefeitura. Não se sabe se por ignorância ou por desleixo aos fatos históricos, o que é corriqueiro na Bahia.

   Pois, pois, completa-se 500 anos em 2019 da chegada na Baía de Todos os Santos do português Diogo Alvares, o Caramuru, deixado aqui pelos franceses de Saint Malo, para intermediar negócios de madeira com os tupinambás. Diogo Álvares morou na Barra, no morro pertencente a familia Mariani e nunca mais voltou para Portugal sendo sepultado na catedral da Sé. 

   Foi uma personalidade importantíssima de nossa história, da Bahia e do Brasil, pois nos primórdios da colonização os descendentes da familia de Caramuru dominaram a Bahia e parte do NE por mais de 200 anos. Sua influência foi de tal ordem que a Independência da Bahia, em 1823, foi comandada por um cerco de familias poderosas do Recôncavo contra Madeira de Mello. E essas familias, os Lins, os Albuquerque, e outros eram descendentes de Caramuru.

    Diogo Alvares teve vários filhos com tupinambás e casou-se com uma delas, em 1528, em Saint Malo, Noroeste da França, a Quayadin, filha do mayoral Taparica, levada pelo francês Jaques Cartier (descobridor do Canadá francês) e o armador que fazia negócios de madeira na Baía de Todos os Santos com Caramuru, a essa altura lider entre os tupinambás. 

   Quayadin recebeu o nome de Catherine de Granches (nome cristão) em homenagem a mulher de Cartier e depois ficou conhecida na história como Catarina Paraguaçu, a primeira brasileira a se casar na Europa e se tornado cristã fundando a capela de Nossa Senhora da Graça (hoje, mosteirinho da Graça, Salvador) onde está sepultada. Todas as terras da Graça e Barra até o Rio Vermelho pertenceram por sesmaria doado pelo rei de Portugal a Diogo e Catarina.

   A fonte onde Catarina se banhava ainda existe abandonada no bairro da Graça em direção ao Vale do Canela e o Largo da Graça, que deveria se chamar Caramuru ou Catarina, chama-se Dr Paterson. É muito dificil entender essas coisas na Bahia, mas, é real.

   Catarina doou sua sesmaria aos beneditinos e, hoje, a Igreja da Graça, onde está sepultada, é um templo beneditino em reforma pelo IPHAN.

   O poder de Caramuru junto aos tupinambás foi importantíssimo para Thomé de Souza erguer a cidade. Foi ele quem orientou a escolha do local e quem deu as dicas iniciais para Thomé das aldeias dos tupinambás que se situavam no Passeio Público, na Piedade e no São Bento. E, do outro lado, a aldeia que passou a ser chamada de Espírito Santo, no Carmo.

   E foi Caramuru que ajudou os tupinambás na rebelião contra Francisco Pereira Coutinho, o primeiro donatário da Capitania da Bahia, instalada no Porto da Barra, em 1536, expulso para Porto Seguro e depois morto pelos tupinambás num naufrágio próximo a Itaparica. Essa morte de Pereira repercutiu tanto em Portugal que foi um dos fatores determinantes para se instalar um Governo Geral no Brasil.

   E foi Caramuru quem recebeu Gramatão Teles, o militar precussor da chegada de Thomé de Souza, para instalar o governo Geral do Brasil.

   Esses dois personagens, no entanto, são praticamente ignorados pelo IGHB, Secult, Sedur e outros órgãos de cultura do Estado. O caboclo e a cabocla dos festejos ao 2 de Julho são representações simbólicas dos tupinambás e de Caramuru e Catarina.

   Nas comemorações da PMS para os 470 anos de aniversário da cidade nem uma linha sobre Caramuru. Fosse noutro país os 500 anos da chegada de Caramuru mereceriam uma grandiosa comemoração. Mas, na Bahia, paciência, é assim mesmo.