quinta-feira, 25 de abril de 2019

INTOLERÂNCIA E DESRESPEITO NA CÂMARA SSA, por EDUARDO S. SANTIAGO

Eduardo S. Santiago
22/03/2019 às 10:20
Não estou em Salvador, mas, tenho convicção de que assim como um abaixo-assinado, online, que recebi, devem estar ocorrendo muitas outras mobilizações e articulações em prol de uma resposta da luta antirracista, na cidade, em repulsa a mais uma manifestação explicita de racismo, desta feita, no plenário da casa, por parte da vereadora Marcelle Moraes, eleita pelo Partido Verde, hoje, na cômoda posição de vereadora sem partido.

A referida parlamentar, em contraponto ao minuto de silêncio solicitado pelo vereador Marcos Mendes do PSOL, em memória da MakotaValdina Pinto, para não permitir que nos anais da casa, ficassem os registros da solidariedade a trajetória de vida e de luta da militante, educadora e líder religiosa, sem que houvesse qualquer repulsa ou manifestação contrária, após o momento de meditação e contemplação silenciosa, pediu a palavra:
“Para me aliar a um minuto de silêncio que o vereador Marcos Mendes pediu, em respeito à questão do falecimento, mas também em respeito ao falecimento da rinoceronta que morreu. Queria deixar registrado que hoje fiquei sabendo, infelizmente, que não foi caso de velhice, foi negligência. […] Então eu incorporo também esse minuto de silêncio a infeliz morte da rinoceronta”, Acesso em 20/03/2019.

A vereadora procurou valer-se do recurso estilístico da ironia, para estabelecer a perversa analogia entre a MakotaValdina e o animal rinoceronte; uma manifestação de desrespeito e intolerância para com o processo civilizatório que remete a uma ancestralidade, que a parlamentar reluta em admitir; a história do racismo brasileiro, registra em seu processo de desumanização e subordinação do outro, várias analogias para com os não brancos, relacionando-os com animais: macaco, mula, urubu, etc. etc.etc. A única novidade, no caso, da vereadora Marcelle Moraes, é a questão da rinoceronta, confesso que esta analogia, eu desconhecia.

No entanto, não se trata de algo desintegrado do racismo, que é estruturante na sociedade brasileira; uma máquina que se alimenta de sangue e vida dos não brancos neste país. Não nos faltam nomes e muito menos referências como: Belo Monte, Vila Moisés, Davi Fiuza, Galdino Pataxó, Ricardo Matos dos Santos, Crispim Terral, etc. etc. etc. Não faltam nomes, e a questão não é de nomes; cito-os, para burilar um pouco a memória, nesta Bahia negra, e não por menos, de perversos indicadores sociais.

Voltando a vereadora Marcelle Moraes, desde, uns dois ou três dias antes, da manifestação no Plenário da Câmara, que ela vinha se movimentando em redes sociais e demais espaços de informação, sobre a morte de um Hipopótamo no zoológico de Salvador; o curioso é que nessa hora, para debochar da interjeição de respeito e reduzir seu caráter humano, a vereadora trouxe a analogia entre a “rinoceronta”, um comportamento vazio de sentimentos, considerando o rito; AiméCesaire ensina que o colonizador se animaliza para animalizar o colonizado.

Não sei se é o caso de recurso jurídico, ou como seria; mas, sei que uma boa manifestação deve ser convocada, devemos ser mais intensos em nossas posições nas redes sociais e toda e qualquer forma de organização e articulação, não é sensibilizar com a Makota; mas, sim com a nossa ancestralidade, ter essa capacidade de sentir, alimento tão necessário às nossas sociabilidades.Não podemos desprezar as cibermanifestações -  a coisa está muito dada e, tamanha pretensãodesta vereadora, é por ela crer que estamos dispersos, e por assim ser, incapazes.