sexta-feira, 22 de novembro de 2019

MINHA MÃE DISSE QUE NÃO

Valdir Barbosa
26/05/2018 às 14:20

(Dedico estes rabiscos, ao Deputado Paulo Rangel, aos amigos da confraria do Restaurante Barbacoa e também a todos os funcionários dali, aos quais não nomino, para não olvidar qualquer deles. Dia destes, num belo fim de tarde, o parlamentar narrou fato pitoresco ocorrido com ícone da política pernambucana e brasileira, Miguel Arraes, evento inspirador dos seguintes escritos) 

Invado hoje a rota 66 de meu existir. O consciente não recorda, mas, guardado no fundo da memória está o registro da casa simples, no Beco do Cirilo. Ali, em 25 de maio de 1952, mãos da parteira Esmeralda ajudaram D. Walneide a expulsar o rebento eu, guardado em seu ventre, por semanas seguidas.

Do amor entre ela e Gomes, o velho Adauto pude, enfim, chegar no ponto do agora. Sou fruto dos prazeres transformados em dores, do seu leite, de seus cuidados que até hoje não cessam, mesmo porque as atenções maternas vão sendo trocadas por grandes feixes de carinho, à medida que o tempo passa, enormes fontes de energia contagiante, inesgotável, cujas águas miraculosas cobrem os filhos de bênçãos.

Fez-me conhecer obras de poetas tantos - Castro Alves, Olavo Bilac, Ghiaroni -, desde muito novo. Murmurava aos meus ouvidos versos que decorava quando infante e deles ainda lembro na atualidade. Nas tardes de sábado, lhe ouvia cantar musicas belas, enquanto Gomes dedilhava seu violão, à moda antiga. Conduziu-me, tempos adiante, aos livros de Malba Tahan, Jorge Amado, Machado de Assis, Vinicius de Moraes.

Mesmo quando os hormônios insistiam por desviar atenções do adolescente, para prazeres fugazes, nunca descuidou do compromisso, com irrestrito apoio paterno, por revelar portas de entrada para o bem,  então cheguei até aqui sendo o que sou.

Quando a vejo, sempre que lhe ouço ao telefone, poucos dias antes de chegar à casa dos noventa guardando alegria contagiante, revelando a felicidade própria dos justos, pois o ato de ser feliz reside na prática de coisas simples e corretas, guarda o sentido exato de exercitar a cidadania toda hora, com fundamento na consciência holística, entendo o quando pude dar valor à arte, a justiça, a equidade, ao respeito, por isto, talvez, no trajeto da rota chamada vida tenha me tornado homem de polícia.

Sim, porque ser policial consiste na arte de fazer justiça, com base na equidade, no respeito à lei, no cuidado constante por saber estar em permanente ponto de equilíbrio, na corda bamba que representa o difícil labor de combater o crime, cada vez mais sofisticado e ousado. Tenho navegado nestas águas turbulentas por mais de quarenta e dois anos, porém, devo dizer, tal circunstancia me faz orgulhoso e realizado.

Construí amigos verdadeiros ao longo deste tempo, mereci o reconhecimento de todos quantos testemunharam meus êxitos laborais, sobretudo, no mister de salvar vidas, como especialista em gerenciamento de crises. Hoje, praticamente chegado o instante de contar histórias, pois a estrada da vida reserva a cada um de nós, a oportunidade de fazer historia, para depois narrá-las, o mote inspirador dos meus escritos, sejam eles reais ou fictícios, se funda nas experiências do enfrentamento aos criminosos.

Por seu turno, a veia lírica inscrita nos meus simples versos, afora a primeira delas que me apresentou às rimas, tem como tema o amor em sua forma sublimada, apenas impresso nas mulheres que conseguem ser, o leito caudaloso das paixões. Claro, não falo aqui do Amor Maior, na sua essência plena de fazer com o próximo, o quanto gostaríamos fizessem conosco, este é o primado, a profundeza que resgata a humanidade, no ensinamento e exemplo soberano do Rei dos Reis, Filho do Homem.

E foram muitas, as fadas responsáveis por colorir portos por onde passei todo este tempo, vivendo aventuras típicas de um pirata, na cata de emoções. Todas incríveis, certo é, cada uma ao seu momento e espaço me deram frutos, todos doces, no entretanto, quis o destino fosse a doçura de cada momento e suas consequências, abandonados no cais do ontem, enquanto o corsário seguia estrelas que lhe fazia aportar em novas docas.

Enfim, o velho marujo encontra porto seguro decidindo nele desembarcar, com todas as armas e bagagens disponíveis. Sua rota de aventuras estanca, no desejo de reunir a força impetuosa da paixão e do prazer, com a necessidade de fincar raízes profundas, frente a sentimento que amadurece, a partir de então, em reciprocidade. E assim, o aventureiro chega inteiro à casa do meia-meia, até porque, na junção das metades se elabora o todo.

Induvidosamente, no trajeto do ser humano há que existir bons e maus momentos, altos e baixos, vitórias e perdas, realizações e decepções, destarte, para este viandante peregrino que abre espaço rumo ao panteão dos septuagenários, isto não foi exceção.  Todavia, nada a reclamar, apenas agradecer pelas oportunidades, experiências, êxitos e fracassos, primordialmente ao Criador. Felizes os que aprendem nos triunfos vestir a túnica da humildade, enquanto nas desditas encontram respostas capazes de fazer crescer. Sou eterno aprendiz.

Aguardando o publicar de aposentadoria requerida, depois de gozar licença própria, assumo, na Polinter, por provável, o último cargo, dentre tantos que ocupei na Segurança Pública da Bahia, desde quando, aos 23 anos ingressei nos quadros da Polícia Civil. Ao ver publicado ato da respectiva lotação, alguém, de quem não direi o nome, me pergunta: "Você não está muito velho para trabalhar"?

Lembrei Paulo Rangel, ao contar que jornalista inquiriu àquele indefectível Miguel Arraes, da mesma forma, quando ele, no alto dos 84 anos, se candidatou ao governo de Pernambuco, terra de Seu Gomes e D. Walneide. Teria o estadista respondido na lata: “Minha mãe disse que não”. Fi-lo da mesma forma.