quarta-feira, 26 de junho de 2019

Não se organiza o turismo em Salvador com intolerância

Vânia Galvão
25/02/2016 às 12:33
O fechamento da Casa de show Café Hot, no Rio Vermelho, pela Secretaria Municipal de Urbanismo (Sucom), após
denúncia do vereador Cláudio Tinoco (DEM), alegando combate ao turismo sexual, nos convida a refletir sobre o planejamento turístico de nossa cidade. Não se organiza um setor da economia com intolerância, segregação e discriminação social.

Uma breve leitura na epistemologia do turismo nos mostra que a atividade deve ser pensada sobre a perspectiva da inclusão social, possibilitando o crescimento econômico das minorias. Isso implica que a gestão turística não se limita à promoção de festas e construção de calçadões em pontos estratégicos, muito menos por iniciativas arbitrárias de fechar determinados empreendimentos.  

O planejamento inclui projetos a curto e a longo prazos, nos quais se vislumbram o ordenamento urbano, a valorização das identidades culturais e processos de qualificação dos atores sociais que possam constituir mão de obra da indústria. Quando o município promove tais ações, consequentemente possibilita ao cidadão local, oportunidade de trabalho, e assim, colabora para o combate à exploração sexual, à marginalidade, ao tráfico e consumo de drogas e com a redução da violência decorrente dessas atividades. 

Fechar casas de espetáculos, sem apresentar opções aos trabalhadores, só revela uma postura machista e retrograda. Revela um pensamento arcaico imbuído de todos os tipos de preconceito social. Quando o feminismo e demais corretes de pensamento libertárias se posicionam contra a prostituição, não está incluso a coibição do livre arbítrio dos cidadãos, mas sim a elaboração de políticas afirmativas que culminem na melhoria de vida de todos. 

Salvador tem um potencial turístico gigante. Se fosse bem aproveitado não sofreríamos com a sazonalidade.
Se a Empresa de Turismo de Salvador (Saltur) se preocupasse em capacitar devotos para o turismo religioso, afrodescendentes para o turismo étnico, mão de obra para atuar com o turismo da terceira idade e turismo cultural, que são segmentos alternativos à alta estação, certamente, em vez de arbitrariedade, a prefeitura se ocuparia em atrair diferentes turistas, gerando emprego e renda. 

Mas ao contrario da promoção de políticas afirmativas, a alternativa apresentada pelo democrata foi a municipalização
de um zona de prostituição. Seria até engraçado, se não fosse desumano, desagregador e totalmente incoerente com princípios básicos do desenvolvimento social. Carecemos urgentemente de uma gestão em turismo que tenha um olhar
contemporâneo. Precisamos estimular o nosso potencial humano e cultural e gerar renda para as populações mais pobres. O desenvolvimento turístico de Salvador não pode estar limitado à promoção do Carnaval, “a festa da carne”.