segunda-feira, 14 de outubro de 2019

O mosquito e o mandamento

Dom José Ruy Lopes
06/02/2016 às 09:34
 O mosquito. Pequena criatura, frágil e quase indefesa. Capaz de derrubar um homem e enfrentar exércitos, tem a possibilidade de dizimar populações e de comprometer a saúde de muitos. Ou melhor, de todos, uma vez que não olha classe social, endereço, profissão, sexo, cor ou religião.

    Ele está desafiando cientistas, médicos, instituições de pesquisa e governantes. É temido, mas não é respeitado. Embora terrível, é ignorado por muitos que acreditam que não serão picados. O Exército Brasileiro foi convocado para enfrentá-lo, chefes de estado e a Organização Mundial da Saúde (OMS) a até Conferência episcopal brasileira (CNBB), todos sendo “desafiados” pelo tal mosquito que traz seu nome em latim. Poderia ainda salientar outras características do danoso mosquito? Não. Meu currículo não me compete. Mas, posso dizer que o Bispo de Jequié já o encontrou e viveu os efeitos deste encontro.  

   Alguém também perguntou a um padre: “é a volta das sete pragas do Egito?”. Ao que o bom sacerdote respondeu, que mesmo tendo o segundo nome parecido com o Egito, Deus não castiga aos que ama. Talvez influência do filme “os dez mandamentos”.
           
    O mandamento. Entre os dez está aquele que é comum a todas as religiões e o principal interdito de todas as sociedades: “Não matar!” (Exôdo 20, 13). Atentos!! Não se trata de não matar o mosquito assassino. Ele deve ser banido e devem ser encontradas as causas deste desequilíbrio ecológico que tem gerado a proliferação do famigerado Aedes Aegypt, mesmo em tempos da Encíclica Laudato Si, do querido Papa Francisco.
          
   Não muito distante do nosso tempo, o saudoso São João Paulo II, escrevia também uma Encíclica intitulada “Evangelho da Vida”. É uma das minhas prediletas e de muita nostalgia dos tempos em que lecionava Bioética, a ética da vida. Nesta Encíclica que faço questão de recomendar aos profissionais da área de saúde, entre outras coisas profundas e importantíssimas, o saudoso Papa discorre a respeito da sacralidade e da inviolabilidade da vida humana. Que bela profissão de fé na Vida! Lá neste texto de feliz e divina inspiração, (EV, 71), “João de Deus” alertava que : “a lei civil deve assegurar  a todos os membros da sociedade o respeito aos direitos fundamentais, que pertencem por natureza à pessoa e que qualquer lei positiva tem de reconhecer e garantir. Primeiro e fundamental entre eles é o inviolável direito à vida de todo ser humano”.

    É certo que lutemos por nossos direitos. Quantas conquistas! Mas, é igualmente certo que nestes tempos precisamos lutar para cuidar e preservar a vida. Neste sentido, considero que naquela época, João Paulo era mais que um Papa. Era um profeta.
            
   “Somos o povo da vida...”, nos lembrava o mais recente santo polonês. “Estar à serviço da vida não é para nós um título de glória, mas um dever que nasce da consciência de sermos o povo adquirido por Deus” (EV 79)
           
     Temerosos, não do mosquito, mas da microcefalia, muitos recorrem a extirpar a vida de crianças que poderão nascer com esta deficiência.  Cabeça pequena ou coração pequeno? O que faz o ser humano priorizar a eliminação da vida de um feto ao invés de eliminar o mosquito? Estupefato, descobri que existem organizações internacionais que encontraram no mosquito o seu grande aliado para...
           
    “Raiz comum de todas essas tendências é o relativismo ético, que caracteriza grande parte da cultura contemporânea. Não falta quem pense que tal relativismo seja uma condição da democracia, visto que ele só garantiria tolerância, respeito recíproco entre as pessoas e adesão às decisões da maioria, enquanto as normas morais, consideradas objetivas e vinculantes, conduziriam ao autoritarismo e à intolerância.” (EV 70)
           
   Para citar outro Papa e fechar a tríade, lembramos Bento XVI que afirmava: “ Quando se chegou ao consenso de que uma criança, que se supõe nascerá com deficiências, deve ser abortada para poupar, a ele e às outras pessoas, o peso da sua existência, está-se a fazer um escárnio a todos os deficientes: está-se a dizer-lhes que só existem porque a ciência não tinha ainda alcançado o progresso atual.”
           
    Tempo de Quaresma. O inimigo é bem maior que o mosquito Aedes Aegypt. Ele deve ser aniquilado, como devem ser aniquiladas as formas de destruição da vida.
         
     “Somos povo da vida!”.  Cristão defendendo a vida. Sagrada e Inviolável.