quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Escolhas e acertos e a velha raposa

Valdir Barbosa
15/01/2016 às 10:28
 Final de sessenta, inicio de setenta, século passado. Secretário de Segurança Pública, figura de estirpe elevada, probo, enérgico e atuante despachava no prédio majestoso da Praça da Piedade, hoje, Palácio da Polícia Civil. Sua residência beijava as areias da praia que acolhe a imagem de Nosso Senhor dos Navegantes, no primeiro dia de todos os anos, em frente à Igreja da Boa Viagem. Larápio ousado alcança o interior do imóvel determinada noite, mesmo com a maior autoridade da Segurança em casa subtrai as joias da família.

   Nesta idêntica época, bandido perigoso, na Praça do Campo Grande enfrenta e alveja o carcereiro da antiga Furtos e Roubos, investigador Wydeman Adam, pai de diligente Delegado da atualidade, agora Titular da Primeira Delegacia Territorial sediada no Vale dos Barris.

   Digo com isto, a ousadia dos marginais não é coisa recente. Falamos aqui de fatos ocorridos há cinquenta anos e, afinal, a natureza humana se rende aos equívocos desde quando o mundo é mundo. Portanto, não podem ser considerados absurdos, fatos que pontuam noticiários das paginas policiais destes tempos, mesmo quando tomam o celular do Comandante Geral da Polícia Militar, enquanto
caminha na orla, ou desovam corpo crivado de balas ao lado do prédio da Secretaria de Segurança, no C.A.B.. Derradeira segunda beirando meio dia sai de casa, justo da Praça Dois Julho, onde o velho polícia foi baleado e sigo a pé, meu destino, Restaurante Porto do Moreira. Imagino parar no Colon, depois, terminar o percurso de táxi, mas, a casa do saudoso Pepe não abrira suas portas. 

   Decido continuar andando, ao atravessar a rua, após o Rosário sinto aumentar burburinho dos que se
acotovelam entre ambulantes.

   A raposa velha perde o pelo, perde os dentes, mas não perde o faro. Noto individuo que passa ao meu lado e me observa, ele segue em frente, mas, sempre volta o olhar na minha direção. Preocupo-me, além do celular e pertences nos bolsos, antiga companheira com crucifixo, medalha do Vaticano e da Nossa Irmã Dulce pende sobre meu corpo. 

   O sujeito diminui a passada e adianta ao meu ritmo, sem me perder de vista. Encaro-o firme e avanço. Acho-me próximo à travessa, frontal ao antigo prédio da segurança, exata via que deságua na Carlos Gomes, sitio onde frente ao Mercado das Flores, Chico e Francisco vendem seus acepipes. Ligado no
sujeito penso, não terá coragem de me abordar, mesmo porque a área ali fica mais densa.

   Frente à Farmácia antes do acesso sinto tranco forte na nuca, reajo tentando prender a peça que carrego e busco alcançar o agressor com o cotovelo direito. Não sei se pude atingi-lo, quiçá o movimento brusco feito para arrancar a joia, lhe pôs cambaleante, assim, penso segurá-lo. Porem lembro o
comparsa que me distraiu, outros até, ele foge pelo beco estreito postado frente ao ponto de ataque. Decido não segui-lo. Restou comigo a medalha de Irmã Dulce, além de pequeno arranhão no braço.

   Reporto ao jovem Delegado Titular e punhado de homens, muitos dos quais militaram comigo chegam a Moreira. Minha doce mulher surge do nada, com sua costumeira mão materna pretendendo me levar consigo, porém peço que se vá. Impossível fugir dos chascos de tantos quantos, aos poucos sabem do ocorrido, mas, não me consumo com nada disto, apenas sinto pelos que fumaram pedras de crak, na
esteira do que perdi.

   Os parceiros de lide prometem requisitar imagens de circuitos fechados, para identificar os malfeitores. Volvo a Waldemar Conceição - Dedé -, ao bar de Santana, no Maciel de Baixo e sinto saudades dos ímpares investigadores de antanho. No fim da tarde sigo ao encontro do amigo capixaba João Henrique,
grande empresário, hospede do Oton e vejo o prédio da Inteligência do Estado totalmente hermético, altamente seguro a si mesmo, então sorrio.

   Dedé exercia a atividade hoje praticada na casa suntuosa da Ondina, nos bancos da Piedade, com seus informantes, outro núcleo de inteligência funcionava no boteco de Santana, não havia as “parafernálias” atuais, porém, na esteira do empenho destes, rapidamente Humberto Teixeira prendeu Damião, o
invasor da casa do Secretário e aquele bandido responsável por alvejar Adam, o pai, não prosperou.

   Obrigo-me a render homenagens a sua Exa., Rui Costa. Dia destes, corajosamente admitiu a existência de muitos erros do seu antecessor. Claro, falava de escolhas admitindo, na condição do terceiro melhor governador do país que a Bahia precisa de acertos.