segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Desta sagrada colina, mansão da misericórdia

ZédeJesusBarrêto
14/01/2016 às 19:28
  Quando despertei pro mundo das baianices a Lavagem do Bomfim era uma festa onde se ía vestido de branco absoluto,  jegues enfeitados participavam do cortejo, carroças ornadas de palha e flores, bicicletas, batucadas e as baianas, legítimas, saíam dos seus terreiros com os vasos de água de cheiro na cabeça, saias rodadas, anáguas engomadas , braceletes e balangandãs, torços...  e caminhavam descalças. 
 
   A Lavagem é a festa popular que antecede a festa puramente religiosa, o dia do Senhor do Bomfim da Bahia, que é domingo. Consta que a Lavagem começou pelos meados dos anos de 1770, com a necessidade que teve a irmandade dos devotos de fazer uma faxina geral, dentro e fora do templo, arrumando e enfeitando os altares para a festa realizada sempre no segundo domingo depois de Reis, obedecendo ao calendário litúrgico católico.  

  A água da lavação era apanhada em fontes a certa distância da colina, daí tem origem o cortejo de potes, vasilhas cheias carregadas na cabeça, ou por animais, em carroças ...  Ora, isso virou uma festança com cantorias, batuques, comilanças, vendedores pelo caminho, e as casas dos abastados com mesa farta, feijoadas, vinho, encontros, alegrias ...  

  A igreja católica não gostou dos ‘furdunços’, ainda mais que o povo de santo e de cor já explicitava e curtia a seu jeito as semelhanças do cortejo da Lavagem do Templo do Senhor do Bomfim com as festas de terreiro dos candomblés em homenagem a Oxalufã, o Oxalá Velho, o orixá do pano branco, as festas das Águas de Oxalá. Os bispos mandaram fechar as portas da igreja, mas a folia cresceu e o cortejo espichou-se pela cidade baixa, saindo até hoje da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, a mãe de Jesus, o Senhor do Bomfim. 
  
*
  
 O que resta hoje dessa tradição histórica, dessa cultura popular, com tantas bandeiras vermelhas maculando o branco cortejo, com falsas baianas, com políticos de todos os matizes se achando protagonistas do evento?  E cadê as carroças enfeitadas, os jegues e cavalos, o Axé?   
  
 No  entanto, é algo sobrenatural  cantar com um nó na garganta e lágrimas escorrendo o hino do Senhor do Bomfim  entoado pela multidão no alto da Colina Sagrada: 

“Desta Sagrada Colina/ Mansão da misericórdia/ 
Dá-nos a graça divina/Da justiça e da concórdia!”

   Desde 2014 a Festa da Lavagem do Bomfim  (não sei escrever  Bonfim com ene) é um Patrimônio Imaterial  Nacional, protegido pelo IPHAN. 
  
Com todas as mudanças do tempo, a Lavagem continua sendo uma das maiores, senão a maior festa popular religiosa da Bahia. Essa quinta-feira de janeiro não é feriado, mas a Cidade do São Salvador da Bahia para. E para porque nossa gente tem por tradição louvar e agradecer ao Senhor do Bomfim a graça da vida.  O Senhor do Bomfim é o guia, a guarda imortal da Bahia. Essa é a razão da festança. 

*
Certo dia, nos anos 1970, eu repórter entrevistava Gilberto Gil  quando ele, genial, deu-me essa frase, que fico pensamentando até hoje : “O que seria de Senhor do Bomfim se não fosse Oxalá ?!” 

*

Lavagem do Bomfim
(composição de Gilberto Gil/ 1993, gravada por Gal Costa no disco ‘O Sorriso do Gato de Alice’)
Lavagem do Bomfim na quinta feira
Sai da Conceição da Praia a primeira
Talagada de batida na praça Cayru
Levanta a vista ao alto Lacerda
Mais parece um corredor que envereda
Uma pista de corrida, correr pro céu azul
Olha a vertigem Virgem Maria
Te segura criatura que o dia
Inda tá menino moço, o almoço inda tá cru
Segura bem na mão da menina
Poupa teu coração que é só na colina
Que o santo serve o caruru
Timbau, pandeiro, som de guitarra
Tanta roupa branca, tanta algazarra
Zona franca de folia, de fé, de devoção
Foto de lambe-lambe alegria
Vai passar pelo moinho da Bahia

Mais de trinta graus de calor, amor e emoção
Lembra bem dos degraus da igreja
Guarda um pouco de suor pra que seja
Misturado às águas e as mágoas de lavar o chão
Faz tem que passou da Calçada
Segura os joelhos nessa chegada
Que o peito arde de paixão. 

** 
Todos à Mansão da Misericórdia, a Sagrada Colina.