sexta-feira, 18 de outubro de 2019

NO MEU TEMPO DE MENINO criança só ia à escola aos 7 anos de idade

Tasso Franco
11/01/2016 às 20:01
No meu tempo de menino, em Serrinha, as crianças só começavam a frequentar as escolas a partir do 7º ano de idade. Não havia esses modismos dos tempos atuais, de Maternal I e II, e só aquelas cujos pais eram professores tinham acesso a Carta do ABC e tabuada. Meu pai tinha a Tipografia e Livraria 'O Serrinhense' e fabricava cartas de ABC, tabuadas, livros de caligrafias e outros. Daí que aprendi as primeiras letras antes de chegar ao chamado 'primeiro ano chia' na Escola Agripino Barbosa.

   A escola ficava situada no fundo da Casa de Sêo Manoel Chileno (onde hoje é a Ótica Focus ao lado do Hospital Nossa Senhora da Conceição), pai do prefeito Lourinho (Horiosvaldo Bispo dos Santos) e da professora Edna Santos, irmã do prefeito, a minha primeira pró. 

   Até os 7 anos a gente só fazia brincar. Como eu morava no Largo da Usina (Praça Miguel Carneiro, Catedral) tinha um campo grande à frente de nossa casa e me divertia aí, jogando bola de gude, puxando carrinho de madeira, brincando de picula nos alicerces da Igreja Nova (hoje, catederal) e outras bobagens. 

   Quando estava pra fazer 7 anos (em abril) fui para a Agripino Barbosa e minha mãe caprichou em meu visual pra eu chegar bonito e arrumado. Cortei o cabelo, ajeitei o pimpão, levei lancheira com suco e um pedaço de bolo, e usei farda - calça azul curta e camisa branca. E lá fui eu pra a escola, que era municipal, todo cheio de garbo.

   Nos primeiros dias minha mãe era quem levava. Desciamos o Largo da Usina, pegávamos a rua na esquina da casa de Padreco, onde também morava Nenem Gonzaga, até atingir a igreja matriz, atravessavamos a praça Luiz Nogueira, íamos até a casa de meus avós maternos pra eu dar a benção a minha avó Filhinha - meu avô João Paes saia cedo para ir ao armazém de café na Federação - atravessámos um passeio de um armazém de sisal e chegávamos a escola.

   Fui alfabetizado nessa escola repetindo a célebre frase "Ivo viu a uva; a uva é de Ivo" passando o dedão em cima de cada palavra. A professora Edna era baixinha e exigente, mas, a melhor parte era a hora do recreio onde a gente brincava de picula numa correria enorme no fundo da escola onde havia um buraco, parecendo uma arena natural. 

   Depois, já no segundo ano, ia pra escola sozinho e descobri um caminho alternativo que era cortando pelo muro da morada do padre Demócrito (onde está a sede da Prefeitura), onde a gente 'furtava' mangas. O padre ficava apavorado e prometia 'dar tiro de sal na bunda da gente' . Ninguém ligava. 

   Depois, no retorno para casa ia com Antonio Neto pelo fundo da Casa de Carlos Mota (na altura da atual casa de Adelson Nogueira) e saia pela rua da Estação. A casa tinha um quintal enorme repleto de mangueiras. A gente fazia a festa.

   Infelizmente, Antonio Neto (leva o nome do parque infaltil da Praça Luiz Nogueira) morreu cedo, menino, e a gente ficou com o maior medo da morte. Menino que vê outro menino no caixão é um drama. Ninguém sabia porque ele tinha morrido e issso foi um pavor. Mas, com o tempo passou. Cabeça de menino tudo passa rápido.

   No terceiro ano fui matriculado no Grupo Escolar Graciliano de Freitas, no Largo da Estação. Aumentei de 'status' - estava maior - e a professora era Eneida Ferreira, filha de Sêo Emílio e Dona Carmen, familia tradicionalissima da Serra. Eneida era linda e a gente fica mais olhando sua beleza que as aulas. Menino é assim mesmo.

   O Grupo Escolar Graciliano de Freitas era uma maravilha porque tinha várias salas de aulas, meninos e meninas, e fica quase em frente a Estação do Trem.  Ainda existe e está precisando de uma reforma. Nessa época, inicio dos anos 1950, ainda com os trens transitando entre Salvador e Juazeiro, era uma alegria enorme quando o trem passava apitando e a máquina bufando fumaça. A gente tentava entender porque a máquina soltava tanta fumaça.

   O Jardim do Largo era uma tentação mas ninguém tinha acesso à ele na hora do recreio porque os portões da escola eram fechados. No final da aula a professora dizia: - Não fiquem no jardim. Vão para a casa. Eu mesmo me mandava pra casa porque a barriga estava roncando de fome. Subia a Rua da Estação num pique só em poucos minutos estava em casa, almoçando. 

   Minha familia - como muitas outras - almoçava com os sinos da igreja matriz na batida do meio dia, com 12 sinetadas.

   Quando se aproximou no ano de admissão ao ginásio meu pai me matriculou numa banca de caligrafia com a professora Florinda Castro, na Rua 2 de Julho, para melhorar minha letra. Tia Florinda - assim a chamávamos - era esbelta, alta, elegante e refinada. Solteirona, vivia só, mas tinha um amante. 

   Quando cheguei na casa de Tia Florinda com meu caderno de caligrafia ela mandou que eu sentasse numa cadeira em frente a mesa de sua sala e verificou que precisava colocar uma almofada pra eu ficar mais alto.

   - Vou colocar uma almofada e você vai sentar ereto sem colocar os cotovelos na mesa - disse. 

   E eu obedeci todo desconfiado. Depois, ela abriu o caderno de caligrafia mostrou o a minusculo e disse: - Agora você repete esse a nessa página toda, devagar, lápis empinado, desenhando a letra. -É assim que segura o lápis - mostrava colocando o lápis entre os dedos.

   Foi assim que melhorei minha caligrafia. Com 30 dias de aulas já estava escrevendo palavras compostas na caligrafia: man-ga, a- ba-ca-te, ca-der-no e assim por diante. 

   Quando chegou o ano do adminissão - uma espécie de vestibular pra entrar no ginásio - isso em 1957 foi um horror. Meu pai dizia: - Você tem que estudar mais senão vai perder, não vai passar. Depois que chegava do Graciliano de Freitas, almoçava, descansava uns minutos e tome estudos. Felizmente, passei. Foi um alívio. 

   Portanto, quando fiz 12 anos entrei no ginásio. Chamava-se à época, Ginásio Estadual de Serrinha (hoje, Colégio Rubem Nogueira) e foi uma mudança radical em todos os sentidos. 

   Primeiro que a farda era com calça comprida, blusa branca de manga comprida, gravata, blazer caqui curto, sapato, meia e gravata. Mais chique impossível. No sol da Serra, então, essa roupa era uma 'maravilha'. Meu pai comprou uma gravata em Sêo Titi Magalhães, a melhor alfaiataria da cidade, com nó pronto. Só era enfiar na gola.

   Minha mãe caprichou na minha arrumação no primeiro dia de aula e lá fui eu pra o ginásio parecendo um 'dandi'  todo arrumado dos pés à cabeça, brilhantina no cabelo e cadernos e livros numa pasta. A merendeira da escola primária foi aposentado. No ginásio havia uma cantina para a gente merendava.

   O ginásio também representou uma mudança radical. As turmas eram mistas - homens e mulheres - e se na escola primária só havia uma professora o ano todo, no ginásio existiam vários professores cada um deles ensinando uma matéria diferente da outra, coisa que a gente nunca tinha ouvido falar. 

   Latim quem ensinava era o padre Demócrito Mendes de Barros; Português, a professora Astrogilda Paiva Guimarães; Matemática, Waldir Cerqueira; Educação Física, tenente Brito; Canto Orfeônico, Glorinha Valverde; Desenho, professora Aidil Franco Lima; História, Claudenita Ferreira; Francês, Plínio Carneiro.

   Dona Aidil era a diretora. Era uma mulher forte, austera, e a gente tinha medo dela que se pelava. Havia também em cada sala de aula um ( a) censor (r) que anotava o comportamento da gente. A da minha turma era Dalila Nogueira. Uma vez desenhei um 'pinto' no dedo e ela me encanou. Só me safei porque mostrei que era meu dedo pintado e não meu 'pinto'.

   Na época das chuvas na Serra, meu pai comprou uma galocha para cobrir o meu sapato. Pense numa coisa ridicula! A galocha. Ninguém gostava e a gente ficava doido logo pra chegar na escola ou em casa e tirá-la. A gente paeacia uns sapos andando de galocha. Lá de casa para o ginásio as ruas eram de barro com poças d'água e lama no inverno, especialmente no caminho entre a casa de Mané Beiju, caminho do pasto de Manoel Devoto e a passagem em frente ao cemitério (cruz credo!) até o largo do ginásio.

   Quando cheguei em casa depois da primeira semana no ginásio meu pai perguntou se estava gostando. Disse que sim, e que iria falar francês e latim. Meu velho caiu na risada. Não aprendi quase nada em línguas estrangeiros, mas foi uma experiência fantástica.

    No terceiro ano do ginásio começaram a nascer meus fiapos de barba e bigode e deixei de ser menino.