segunda-feira, 06 de abril de 2020

DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA e o papel da mulher

Tia Eron
20/11/2014 às 14:34
 Sem dúvida os avanços na luta pelo enfrentamento ao racismo, que vem se fortalecendo desde a década de 1990, com as reivindicações históricas dos movimentos negros e sociais no debate da questão racial, questionando o mito da democracia racial, apontando a situação da população negra nos diversos campos educacional, social, político e econômico, exigindo reparação através de políticas públicas, ações afirmativas além de estratégias para combater o racismo. 

   Após a quebra do mito da democracia racial, a qual sobreviveu por cinquenta anos, o Brasil se reconhece racista e o 20 de Novembro é um marco histórico no nosso país, pois marca a luta incansável de guerreiros e guerreiras contra a escravidão. Celebrar o dia da consciência negra é oportunizar ao povo brasileiro tecer novas reflexões sobre o que representa a morte do nosso grande herói Zumbi dos Palmares e a luta diária do nosso povo contra o racismo.

   No Brasil vivemos diariamente com situações de racismo e os casos veiculados pela mídia nos faz entender que ainda estamos subjugadas a carga histórica da opressão.

   No que se refere à questão de gênero a mulher negra enfrenta o racismo de forma triplicada, como lembra bem Lélia Gonzales, enfrentamos a questão de gênero, por ser mulher, a questão racial, por ser negra e a questão de classe, por ser pobre. 

   Assim, a mulher negra encontra-se vulnerável em todas as áreas no mercado de trabalho está na base da pirâmide, recebendo os piores salários, não têm acesso a uma educação de qualidade, é quem mais acessa aos serviços públicos de saúde, mastambém é quem recebe menos cobertura, sofrem com a questão geográfica, pois mora em periferia ou áreas de difícil acesso, sofrendo com a questão do transporte precário, enfim é violentada todos os dias em seus direitos básicos.

    O PRB Igualdade Racial tem trabalhado de forma incansável, no combate a qualquer forma de preconceito, racismo e discriminação. Sabemos quenossos esforços muitas vezes causa certodesconforto naqueles que de forma perversa tentam negar as nossas marcas identitárias e o lugar do qual  falamos, tentam negar o quanto está sendo importante o acesso de uma mulher negra, que tem uma história de pobreza, em um espaço de poder. Não tenho dúvidas, que estes, alimentam o discurso do opressor.

   Penso ser este o nosso diálogo, penso ser esta a nossa preocupação: fazer chegar a cada homem, mulher, menino e menina negros de nossa sociedade a percepção de que nós podemos (e devemos) estar em todos os lugares, em todos os Poderes. É retirar de nossa pratica, assim como pensamos que retiramos de nosso discurso, a ideia de que, se um negro “vence” e pensa ou se posiciona diferente de nós, ele deve ter algum “motivo” que o levou aquela vitória, apenas pelo fato de não reconhecermos que, pensamos diferente, agimos diferentes, mas, o que precisamos é ter como bandeira de luta única  a causa do povo negro.Esta é minha historia. E ela me trouxe aqui.
 Eu, Tia Eron, nasci na Vasco da Gama, Vila América , um quilombo urbano, onde a maioria da população é negra ou parda e as dificuldades são iguais a tantas outras comunidades carentes da cidade de Salvador. É desse lugar que falo lugar de quem conhece a exclusão a discriminação e a face perversa do racismo.

   Como mulher negra e evangélica, falo do lugar da dor, das mães que veem seus filhos em sua maioriajovens negros morrerem de forma cruel nos bairros pobres da nossa cidade, orquestrado por um projeto de extermínio da população jovem negra,  falo do lugar das nossas mulheres e meninas que tem seussonhos destruídos pela violência, pela pobreza e todas as formas de opressão,falo do lugar daqueles que sonham por uma sociedade sem distinção de raça, de classe e gênero.

   Plagiando o grande líder negro norte americano Martin Luther King, ...eu tenho um sonho... de ver todos os irmãos juntos numa mesma luta, a luta contra tudo que nos oprime e nos separa. Viva Zumbi! Viva o 20 de Novembro!!!