sexta-feira, 14 de agosto de 2020

JESUÍTAS e Corpus Christi, em 1549, hoje, esquecidos

Tasso Franco
29/05/2013 às 14:19

 Todo mundo de bom senso sabe que a história de Salvador é contada por linhas tortas. Alguma coisa se salva. O certo é que se valoriza muitos feitos sem tanto valor histórico, como é o caso das lutas pela independência da Bahia, em 1822/23, com batalhas que foram brincadeiras se comparadas com a guerra de secessão nos EUA; e outros tomos históricos importantes que, infelizmente não se remendam. É o caso, por exemplo, da Rua Chile, que, juntamente com a procissão de Corpus Christi, completa 464 anos de existência, mas, a Câmara de Vereadores, gestão Emmerson José, comemou seu centenário!


   Como assim se a Rua Direita do Palácio de Tomé de Souza, depois Direita dos Mercadores, foi traçada por Luis Dias no quadrilátero de ruas do centro da cidade sede do governo geral, em 1549, mas se comemorou centenário com nome de Chile? Coisas da Bahia e de historiadores que não protestam. Agora, o Porto de Salvador, aberto ao mundo por Dom João VI, em 1808, também comemorou 100 anos! 

   Então, nesta quinta-feira, 30, numa dessas ruas do quadrilátero, onde se ergueu a igreja de Nossa Senhora da Ajuda em palha, uma espécie de Sé Primacial da cidade do Salvador, os jesuitas comandados pelo padre Manoel da Nóbrega e mais os jesuistas Azpicuelta Navarro, Luis de Grã, Vicente Rodrigues, Francisco Pires, Antonio Blasquez, parte da tropa de Tomé de Souza e o governador geral à frente da cruz processual se realizou, em junho/1549, a procissão do corpo do Senhor.

   A primeira do Brasil que se tem noticia com integrantes da corte portuguesa e o clero da Companhia de Jesus. A essa altura, Salvador já tinha uma capela de Nossa Senhora da Graça erguida no altiplano do atual bairro da Graça, hoje, um mosteirinho beneditino, pelo casal Diogo Álvares (Caramuru) e Catarina de Granches (a Paraguaçu), por volta de 1529, quando esta tupinambá regressou da França e foi batizada na Igreja de São Vicente, se convertendo ao catolicismo.

   Nessa capela e também na capela de Nossa Senhora da Vitória filhos, netos e herdeiros do casal Diogo/Catarina por lá se casaram. Mas, não se tem noticias de que tivessem promovido procissões. Daí que, o primeiro ato de manifestação pública de fé, com dezenas de tupinambás olhando abismados, alguns crianças teriam participado do cortejo, foi a procissão de Corpus Christi, com Nóbrega à frente conduzindo a cruz do Senhor.
Este também é uma das poucas manifestações da cultura religiosa baiana, estritamente religiosa. Ou seja, não tem batuque de samba de roda, nem cachaçada, nem foguetes, nem melancia, nem folclore, e muito menos pagode e trio-elétrico como acontece com a mais famosa procissão de Salvador, a da Lavagem do Adro da Igreja do Bonfim, do século XVIII, portanto, bem mais jovem do que Corpus Christi.

   Trata-se de uma festa cristã católica sem sincretismo e sem o folclore baiano. Talvez por isso, nunca se deu a devida atenção a ela. Não tem respaldo no patrimônio histórico nacional com bem cultural imaterial e sobrevive graças a fé, a religiosidade e a tradição dos católicos, neste cidade que é sede da Diocese Primaz do Brasil.

   Na gestão Imbassahy, Chico Sena, então presidente da Fundação Cultural Gregório de Mattos, conseguiu levar a imagem de Nóbrega que estava abandonada e colocada numa pracinha do snooker do Abel, em frente a Sefaz, para à frente da Igreja da Ajuda, hoje se encontra até hoje. 

   Nóbrega, coitado, numa é lembrado por seu trabalho pioneiro na educação jesuitica na Bahia.