KELLY CYCLONE, A MIDIA E OS VENDEDORES DE NOTICIAS

Jaciara Santos
26/07/2011 às 11:01

Foto: CPRREIO
A morte de Kelly Cyclone: Traços de sua personalidade, a familia e a vida perigosa

Transcende o interesse jornalístico o destaque dado pela mídia à morte da jovem Kelly Sales Silva, 23 anos, a Kelly Cyclone ou Kelly Doçura, moça de sorriso bonito e vida nem tanto, assassinada na madrugada de segunda-feira (18), no centro de Lauro de Freitas, município da região metropolitana, na fronteira com Salvador. Salta aos olhos que a garota de formas generosas morreu da forma como viveu: perigosamente.  Não há como transformá-la em deusa ou ídolo. Vítima sim, mas da própria incúria, do excesso de confiança nas forças que imaginava protegê-la.

Kelly não foi uma vítima inocente do sistema que a tudo brutaliza. Não. Ela sabia que era um produto de consumo. Fonte de renda para negociantes de variados tipos de drogas - dos traficantes de crack aos vendedores de notícias. Ela não delinquiu por falta de opções. Afinal, vem de uma família de classe média baixa, mas nunca lhe faltou o básico. Tanto que sempre estudou em escolas particulares, um sinal de preocupação dos pais com sua formação.


Ah, pode-se argumentar que a família dela foi desarticulada por um divórcio... Ora, convenhamos, efetivamente a dissolução de um casal repercute sobre todo o grupo familiar, mas não é o sinal verde para que os filhos se tornem bandidos.

Se assim fosse, as estatísticas referentes à criminalidade no Brasil seriam infinitamente maiores do que são hoje, uma vez que o país registra um divórcio para cada quatro casamentos, conforme dados da pesquisa Estatísticas do Registro Civil (2008). Como não há comprovação de que todo filho de pais separados é um bandido em potencial, tentar associar a vida louca de Kelly à separação dos pais é, no mínimo, uma leviandade.


Aparentemente, Kelly não vivia um caso típico de abandono familiar. Ela morava em uma casa cedida pelo pai, que também lhe dispensava uma módica mesada. Em entrevista à mídia, a mãe disse que elas se falavam todos os dias. As irmãs pareciam também ser muito próximas a ela.  

Bom, então, admitamos: Kelly era uma garota comum que, como dezenas (centenas? milhares?) de outras, escolheu o caminho aparentemente fácil do envolvimento com pessoas já desencaminhadas. Sua vida amorosa é um mosaico de sucessivos relacionamentos com traficantes, a quem homenageou tatuando nomes e apelidos em inimagináveis partes do corpo.


Há quem diga que o marco zero da vida bandida de Kelly teria sido o suicídio do primeiro namorado. Ela estava com 16 anos e grávida do único filho, atualmente com cinco ou seis anos. Ora, situações limítrofes como essas levam ao desespero, podem desencadear um processo de depressão, mas não são justificativas definitivas para a delinquência. Verdade que, fragilizada pela dor, ela pode ter se tornado uma presa fácil da criminalidade. É uma hipótese. Nada, entretanto, que justifique aquele indisfarçável orgulho com que se apresentava ao mundo.


Mas, até aí, tudo bem. Kelly tinha todo o direito de posar como a lendária bandida americana Bonnie Parker (da dupla Bonnie & Clyde) empunhando armas e exibindo dinheiro sujo. Desde que assumisse bônus e ônus da sua condição de fora da lei. Seus fãs (sim, ela deixa uma legião de fãs, distribuídos por mais de 600 comunidades no orkut e outro tanto de seguidores do twitter), familiares e amigos têm o legítimo direito de vivenciar o luto, pois, por trás da figura pública de suspeita de crimes, havia uma filha, uma amiga, uma mãe, uma irmã.


Mas paremos por aí. A situação torna-se esdrúxula quando formadores de opinião passam a engrossar o coro de fãs de alguém em conflito com a lei. Endeusar Kelly, supervalorizar seus feitos ou apresentá-la como uma inocente vítima é fazer apologia ao crime, delito previsto no Artigo 287 do Código Penal Brasileiro ("Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime") e que pode ser punido com até seis meses de detenção.


Enquanto isso, nas redes sociais, posts e vídeos em que Kelly é a estrela continuam bombando. Indiscutivelmente, a rainha do pó (epíteto que lhe foi dada ano passado pela polícia, ao prendê-la numa festa regada a cocaína) pulou das páginas policiais para a coluna de celebridades e já se preparava para estrear na política. Definitivamente, já não se fazem mais ídolos como antigamente


 
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