sexta-feira, 30 de outubro de 2020

FORRAR A BARRIGA DE FEIJÃO ANTES DA FOLIA É BAIANADA

Tasso Franco
04/03/2011 às 06:04
Foto: Couve Flor
Feijoada caseira com tudo que o folião tem direito

  Nunca entendi desde a minha época de folião porque a baianada adora feijoada durante o Carnaval. Hoje não sei se é mais assim. Mas, quando eu era mais jovem, bom refrão, a gente só ia à folia depois de comer uma feijoada na casa de algum amigo, conhecido e assim por diante.

   Eram feijoadas feitas em apartamentos, em residências, nada dessas feijoadas "caça níquéis" de hoje com vendas de camisetas e "Dendês no Sangue" por perto. Essas dão dores-de-barriga, com compensação de sair a foto do baianês na Contigo.


  Tinha a feijoada na casa de Maurício, cunhado de Oldegar Passos; a feijoada de Lene, no Campo Grande; a feijoada de Carminha, na Federação; e eu próprio promovi feijoadas no meu "apertamento" do Chame-Chame, um dois quartos que mal dava para acomodar duas dezenas de foliões.

   E, o feijão era tão pouco, às vezes de lata, que mais valia a farra e a bebedeira inicial para encarar a folia do que o feijão amigo.


   Mas tinha ótimas feijoadas, feitas a capricho pelos donos das casas, gratuitas, e que davam enorme alegria a todos nós. E o mais curioso é que a galera só ia para o Carnaval depois que, popularmente, era assim que se dizia "se forrava a barriga".

   E, como todo mundo sabe, feijoada é prato pesado e que combina com o Carnaval, até determinado momento, porque pode dar dor de facão e flatulências mis.


   Creio que essa onda de feijoadas nasceu e evoluiu porque até os anos 1970, comer durante o Carnaval de Salvador e fora do seu circuito, era um problema. Ou o camarada encarava um "churrasquinho de gato", espeto de carne de boi que o povo dizia que era de gato, lambuzado com farofa e uma rodela de tomate na ponta do espeto; ou então comia um "cachorro quente"  produzido naquelas trempes enormes.


   Fora daí, não havia shoppings, os restaurantes não funcionavam, e os foliões tinham que forrar suas barrigas em casa.
 
  Hoje, a coisa mudou muito e tem camarotes na Barra que servem uísque aos convidados a noite inteira e ainda expõe em balcões de toda ordem produtos  que vão de frios deliciosos, a acarajés e pratos quentes. O folião é tratado a "pão de ló". Já tem outros camarotes que o camarada paga, mas, lá pras tantas, a comida míngua, é um horror.


  Lembro de um Carnaval que mataram um chinês que vendia pastéis no início da Av Carlos Gomes e que foi um escândalo. O bloco era do bairro de Roma e foi um barabadá dos pecados. 

   Tinha uma senhora que vendia uma feijoada na Faisca, perto do quartel da PM que era uma delícia. E o Restaurante Bela Napoli, quem conseguisse uma vaga durante o Carnaval era um felizardo.

   Hoje, tudo mudou e tem até longue e outros bichos mais. A velha feijoada cazeira, no entanto, continua insubstituível.